A imprensa muda para seguir o leitor
O Pew Research Center acaba de publicar ???O estado dos meios de informação 2008???, quinto relatório anual do Project for Excellence in Journalism e ponto de refer??ncia para quem quiser familiarizar-se hoje e agora com a profiss??o de jornalista. O relatório ?? uma an??lise profunda da situação em que se encontram os media nos Estados Unidos, que este ano traz ?? luz conclus??es interessantes. Talvez a mais importante seja que, ao contr??rio do que se costuma supor, o número de pessoas que manifestam interesse pelas notícias est?? a aumentar. Nas palavras de um dos autores do relatório, Rick Edmonds, ???segundo a maioria das sondagens realizadas, a audi??ncia das notícias est?? a crescer se tivermos em conta a web e os meios de informação impressos???.
Da impress??o ao ???online???
Esta conclusão desmente algumas vis??es catastr??ficas que antecipavam o fim da imprensa como consequência do desinteresse das audi??ncias pela informação que esta oferece. Mas ao mesmo tempo reconhece uma deslocação lenta e inevit??vel para o conteúdo ???online???.
Em concreto, o que pede a audi??ncia? Segundo os analistas do Pew Center, as pessoas querem ter um acesso simples ??s notícias espec??ficas que procuram. O público reclama uma actualiza????o cont??nua, e também quer estar preparado para utilizar essa informação numa comunidade alargada. Quer que os meios de informação lhe permitam ter de que falar, debater, responder a perguntas, e também que o ajudem a conhecer pessoas que pensam de modo id??ntico ou que defendam posi????es diferentes para reflectir sobre as mesmas e preparar contra-argumentos.
Pelo menos no Ocidente, o jornalismo tenta perfilar a sua identidade num mundo de superabund??ncia informativa derivada da extens??o das novas tecnologias.
Em primeiro lugar, os grandes jornais di??rios tradicionais experimentam um decr??scimo de leitores (ver quadro sobre a evolução da difusão dos quotidianos nos EUA). Uma miscel??nea de motivos concorrem para esta deriva, um dos quais ?? a prolifera????o da informação ???online???. Estados Unidos da Am??rica, Fran??a e Inglaterra conhecem este fenómeno de modo mais intenso.
| Varia????o da difusão (%) dos 10 principais quotidi-anos dos EUA no último ano |
|
| USA Today | + 0.27 |
| The Wall Street Journal | + 0.25 |
| New York Times | - 3.85 |
| Los Angeles Times | - 5.13 |
| New York Daily News | - 2.09 |
| New York Post | - 3.07 |
| Washington Post | - 3.57 |
| Chicago Tribune | - 4.44 |
| Houston Chronicle | - 1.79 |
| Arizona Republic | - 4.70 |
Espanha mant??m um pouco mais as suas tiragens, ainda que prefira p??r as barbas de molho, e f??-lo com uma iniciativa interessante: a Associa????o de Editores de Di??rios Espanh??is assinou recentemente um acordo com o Minist??rio da Cultura para impulsionar a leitura de jornais em col??gios, com o objectivo de integrar assim as novas gerações. Em Espanha, as dificuldades da imprensa escrita adv??m mais da redu????o da publicidade impressa, pois existe maior diversidade de suportes.
Entre o rigor e a exclusividade
?? certo que o novo quadro apresenta condições ??nicas: nunca na história houve um acesso t??o grande ?? informação. Mas com isto, a prolifera????o de fontes interessadas ??? instituições, empresas, ONG... ??? que querem vender o seu ponto de vista, leva a pensar que tudo ?? opinião e interesse, o que pode fomentar o cepticismo do público. Da?? que haja quem considere que a imprensa convencional deve destacar-se dessa mera provis??o de informação, e decidir-se pela an??lise original e profunda.
Contra isto estão os costumes temporais, a rapidez que sempre foi o cavalo de batalha do jornalismo mas que se acentua com a procura de informação online. Ainda que aumente o número de fontes e a possibilidade de aceder ??s notícias, os jornalistas disp??em de menos tempo para analisar a informação recebida: algu??m j?? estar?? a difundir a notícia na internet, na r??dio, nas cadeias televisivas de informação de 24 horas.
Bob Woodward reconhecia recentemente numa entrevista que ???quando Carl Bernstein e eu trabalh??mos no caso Watergate, pod??amos fazer o rascunho de um artigo. Ent??o, os responsáveis da redac????o faziam-nos perguntas inteligentes e pod??amos demorar duas a tr??s semanas para concluir o artigo. Agora, apareceria algu??m e diria: Não poder??amos p??r isto na nossa p??gina web até ao meio-dia????. E surge a grande alternativa: preferir o rigor, a confirma????o, a an??lise, ou optar pelo exclusivo.
Uma mostra recente e expressiva desta dicotomia ?? o caso das acusa????es difundidas pelo New York Times sobre a presum??vel relação sentimental entre o candidato ?? presid??ncia norte-americana John McCain e Vicky Iseman, pertencente a um grupo de press??o. Segundo o artigo do Times, as empresas para as quais trabalha Iseman teriam recebido um tratamento privilegiado do ent??o congressista McCain. Em poucos dias, o provedor do leitor do di??rio nova-iorquino reconhecia que o jornal se tinha precipitado ao publicar a história sem o suficiente apoio de fontes seguras. Os cr??ticos do New York Times disseram que a precipita????o teve origem na rivalidade comercial: antecipar-se ao Washington Post na publica????o da notícia.
A Internet não ?? um inimigo
???Nunca houve tempo melhor para se ser jornalista???, afirma Mark Briggs, autor de Journalism 2.0. Professor na Universidade de Seattle e actual subdirector adjunto para as notícias interactivas do peri??dico Tacoma News Tribune, Briggs obteve em 2002 o prémio James K. Batten Innovator, e mais tarde foram também premiados os seus projectos criativos no The Herald (2003 e 2004).
A sua atitude ?? optimista mas não ing??nua: sabe que nos EUA mais de 3000 colegas jornalistas ficaram sem emprego entre 2000 e 2006, e que a tendência continua a ser alarmante. O New York Times anunciava recentemente um corte de 100 postos de trabalho em 2008. Tribune, o segundo grupo jornal??stico norte-americano, despedir?? proximamente 250 jornalistas do Chicago Tribune e do Los Angeles Times. Desde meados de 2007, outros peri??dicos reduziram os seus quadros, como o USA Today, que prop??s rescis??es volunt??rias a 45 jornalistas. O San Diego Union-Tribune também anunciou a elimina????o de cem postos de trabalho. Outros peri??dicos, como o San Francisco Chronicle, o Seattle Times e o San Jose Mercury News , sofreram com a crise publicit??ria e fizeram cortes de pessoal.
maioria dos gerentes da indústria gr??fica reagiu ?? crise no seu modelo de negócio com uma espiral de cortes or??amentais, com o encerramento de ag??ncias, com despedimentos, ou com uma redu????o do número de p??ginas. Molly Ivins, colunista do Minneapolis Tribune e do New York Times, lamentou, pouco tempo antes da sua morte, que as empresas de jornais di??rios admitam que a solução para o problema seja ???fazer os nossos produtos cada vez mais pequenos, menos úteis e menos interressantes???.
Apesar de tudo, Mark Briggs considera que a dificuldade se torna oportunidade com o acesso ao mundo online. ???Um mar calmo nunca fez bons marinheiros???, ?? o título de um dos seus artigos, para depois acrescentar: ???Se gosta de jornalismo, tem de gostar de ter mais ferramentas ao seu dispor e de mais interac????o com o seu público e do previsto desaparecimento das habituais limita????es de tempo e espa??o???.
Da mesma opinião ?? Arianna Huffington, directora de um influente site norte-americano, o Huffington Post: ???As pessoas gostam de anunciar a morte dos jornais. Creio que ?? rid??culo. Os meios de informação tradicionais t??m apenas de entender que o mundo da internet não ?? um inimigo. E mais: ?? a sua t??bua de salva????o, sempre e quando saibam utiliz??-la com aud??cia???.
De um artigo a outros conteúdos
?? clara a intensidade das inova????es, e também que estas afectar??o inevitavelmente ??? o que j?? est?? a acontecer ??? as rotinas redactoriais dos media. Como afirma Dan Gillmor, director do Center for Citizen Media da Universidade de Berkeley (Califórnia), ???os meios de comunicação t??m que modificar o modo como informam e que integrar novos m??todos e tecnologias. Esta j?? ?? uma boa raz??o para fazer melhor jornalismo. T??m que arriscar e inovar. Tamb??m da adversidade se tiram li????es. Para serem mais competitivos, os meios de comunicação t??m que analisar o comportamento das suas audi??ncias na net???.
Por isso, entre as conclus??es do relatório ???O estado dos meios de informação 2008??? afirma-se que os jorna-listas j?? não podem dedicar-se exclusiva-mente a redigir, relatar ou analisar os acontecimentos. Devem também ajudar o público a encontrar o que lhe interessa e a tirar algum significado do contexto.
Quadro: Os problemas da imprensa, segundo os jornalistas
| A qualidade da cobertura e a perda de credibilidade deixam de ser a principal preocupa????o a favor da rentabilidade | Jornalistas nacionais |
Jornalistas locais | ||||
| 1999 | 2004 |
2007 |
1999 | 2004 |
2007 |
|
| % | % |
% | % | % | % | |
| Económico e financeiro | 25 | 30 | 55 | 25 | 35 | 52 |
| Qualidade da cobertura | 44 | 41 | 22 | 39 | 33 | 21 |
| Perda de credibilidade | 30 | 25 | 9 | 34 | 23 | 9 |
| ??tica e normativos profissionais | 11 | 5 | 3 | 10 | 6 | 4 |
O citado estudo, centrado nos 24 meios de comunicação norte-americanos mais influentes, mostrou que apenas tr??s publicavam links em finais de 2006; um ano depois eram onze. Para os autores do relatório, um site que se limite aos seus próprios conteúdos seria como uma comporta obstru??da. Os sites de informação j?? não se concebem como destino, mas sim como plataforma aberta ao exterior. O estudo mostra a consider??vel propor????o de artigos a que chega o leitor a partir do anterior. E isto faz de qualquer informação apenas a sua própria primeira p??gina. Por conseguinte, o artigo deveria dar uma ideia do que se pode encontrar em todo o site - com informações relacionadas com o conteúdo geral, disponíveis nos arquivos - e fora dele.
Com estas prim??cias, o jornalismo está mais próximo daquele ideal que referia Arthur Miller ao descrever um bom jornal como "uma na????o que fala para si mesma". Mas a edi????o "online" pode contribuir ainda mais para esta aspira????o.
Jornalismo cívico
Dan Gillmor ?? um dos principais peritos de uma dessas grandes vias de moderniza????o que tenta abrir caminho no universo informativo: o jornalismo cívico. A institui????o que dirige (citmedia.org) procura ensinar ??s pessoas o modo de obterem melhor informação e, sobretudo, as ferramentas tecnológicas que permitem criar conteúdos. No fundo, trata-se de fazer dos cidad??os jornalistas. E Gillmor est?? convencido de que a solução para o jornalismo passa por uma democratiza????o dos media atrav??s da participa????o. Na sua opinião, isto abre um novo horizonte ao jornalista, mas de modo algum o suprime.
Um exemplo: Gillmor sugere que o jornalista pe??a ajuda aos seus leitores, tendo em consideração que ?? cada vez mais f??cil haver algu??m com um telem??vel ou uma c??mara algures onde não h?? nenhum jornalista. E do dito ao feito, com um caso que se tornou paradigm??tico: a propósito do furac??o Katrina, Citizen Media apoiou-se no jornalismo cívico para percorrer a cidade e p??r na internet imagens que mostravam o seu estado de calamidade. Algo semelhante aconteceu com as imagens de video do tsunami em 2004; e com os atentados em Londres, dos quais a única imagem da explos??o provinha do telem??vel de um cidad??o. Mais recente ?? o caso do assassinato de um jornalista chin??s que gravou no seu telem??vel e publicou no seu blog a brutal repress??o de uma manifesta????o por parte da polícia.
A pergunta pode ser "onde entra aqui o jornalista?"... se ?? que faz falta. Para Gillmor, não h?? dúvida da necessidade da sua perman??ncia pelo que pode trazer ao novo panorama: "Os princ??pios não mudaram - exactid??o, m??todo, imparcialidade, independ??ncia, transpar??ncia. As técnicas ser??o de algum modo diferentes mas não substancialmente. Mas com o tempo os jornalistas ser??o mais guias que or??culos, ajudando a sua audi??ncia a encontrar o melhor e mais relevante material".
O relatório "O estado dos meios de informação 2008" cita, por exemplo, o caso de emails enviados directamente pelo jornalista aos seus leitores para os manter a par da evolução de uma situação.
Ent??o, imprensa convencional ou jornalismo online? S??o muitos os que pensam que não h?? nem deve haver uma dicotomia, e inclinam-se para a converg??ncia redactorial.
A solução para esta invas??o digital dos media parece conduzir ?? converg??ncia redactorial e a serviços informativos baseados cada vez mais em conteúdos tem??ticos, em detrimento da actual estrutura assente em plataformas de emissão. A possibilidade de criar redac????es integradas (papel e online) ?? outra resposta ?? adapta????o do jornalismo aos novos tempos.

