Pesquisa

A Net e o h??bito de bem ler

 Comunicação
A Net e o h??bito de bem ler

"Tenho a sensa????o - diz Carr - de que a Internet est?? a entorpecer a minha capacidade de concentra????o e de observa????o. A minha mente est?? a habituar-se a recolher informação tal como a distribui a Net: um fluxo de part??culas min??sculas que se movem a grande velocidade." O receio de Carr não se refere aos conteúdos da web. Vai mais longe. A sua preocupa????o reside no facto de a web poder estar a ferir os nossos mecanismos mentais. Inquieta-o o modo de ler próprio do internauta, a maneira e os critérios de seleccionar, de memorizar. E mais ainda, o efeito demolidor que poderia ter sobre a capacidade de concentra????o.

 

"Antes eu não pensava como pensava, mas sentia que o meu conhecimento se fortalecia ao ler. Submergir-me num livro ou num artigo de fundo era f??cil. A minha mente podia seguir a narra????o ou as voltas do argumento, e podia passar horas a percorrer os atalhos da prosa." Assim recorda Carr os felizes tempos anteriores ?? glacia????o Internet. "Isto parece-me cada vez mais estranho. Agora a minha concentra????o come??a a dispersar-se depois de duas ou tr??s p??ginas. Fico inquieto, perco o fio ?? meada, come??o a procurar coisas para fazer." A leitura perde parte do seu sereno encanto: "Sinto que o meu cérebro fica ?? deriva, que tenho de for????-lo a voltar ao texto. A leitura profunda que acontecia naturalmente converteu-se numa luta".

 

O autor não pretende suscitar alarmes gratuitos e incendi??rios, mas alertar para um mal que requer solu????es. Sustenta que se trata de algo generalizado e de facto apoia-se em entrevistas a outros intelectuais internautas que partilham da sua perplexidade perante o fenómeno. Assim, Bruce Friedman, editor de um blog especializado em Medicina, disse que também ele tem notado como a Internet est?? a alterar os seus h??bitos mentais: "A minha capacidade de ler e de assimilar um grande artigo na web ou impresso est?? quase perdida". Carr tem em conta o relato pessoal deste patologista da Michigan Medical School, que afirmava também que agora ?? capaz de digitalizar breves passagens de texto em m??ltiplas fontes da Internet, mas "j?? não consigo ler Guerra e Paz". "Perdi a capacidade de o fazer - admitia Friedman. At?? uma entrada no blog de mais de tr??s ou quatro par??grafos ?? demasiado para assimilar."

 

Base cient??fica

 

Carr reconhece que não h?? uma base cient??fica s??lida para apoiar as suas afirma????es, que apenas pretende descrever as suas sensa????es e expressar os seus medos. Não obstante, refere alguns estudos, como o realizado por acad??micos da University College London. Como parte de um programa de cinco anos de pesquisa, os investigadores examinaram o comportamento dos visitantes de dois populares sites de investiga????o: a British Library e outra biblioteca virtual patrocinada pelo Minist??rio da Educa????o brit??nico. Ambos oferecem acesso on-line a artigos de revistas, livros electr??nicos, etc. Segundo explica o autor, "descobriram que as pessoas que utilizam os sites exibem uma forma de actividade superficial, saltando de uma fonte para outra, e que raras vezes voltam a uma fonte j?? consultada". Os utilizadores não costumam ler mais de uma ou duas p??ginas de um artigo ou de um livro antes de ???saltitar' para outro site.

 

Nicholas Carr cita também as opini??es de Maryanne Wolf, psicóloga da Tufts University de Boston. Maryanne Wolf sente a preocupa????o de que o estilo de leitura promovido pela net ponha a efici??ncia e o imediato acima de tudo. "Isto pode debilitar a nossa capacidade para o tipo de leitura profunda que surgiu com a anterior tecnologia, a imprensa." Para Maryanne Wolf, o que est?? em perigo ?? a nossa capacidade de abstrac????o, a nossa capacidade para interpretar o texto, para exercitar as valiosas conex??es mentais que trabalham quando lemos profundamente e sem distrac????o.

 

Adapta????o tecnológica

 

Mas nem tudo são avalia????es pessimistas no artigo da The Atlantic Monthly. De facto, induz os leitores a serem "cépticos do seu cepticismo". Carr fundamenta na opinião de outros especialistas que a enorme plasticidade do cérebro pode levar a que este se conforme de maneira adequada ??s caracter??sticas de um novo modo de ler que implica o uso das novas tecnologias. Nesta linha, refere-se a como alguma imprensa ?? contagiada pela lógica de leitura on-line e fundamenta as suas estratégias nestes novos modos de ler: "Em Mar??o deste ano, The New York Times decidiu dedicar a segunda e a terceira p??ginas de cada edi????o a uns breves resumos dos seus artigos de fundo. O realizador deste projecto, Tom Bodkin, explicou que esses ???atalhos' dariam ao leitor uma rápida ???degusta????o' das notícias do dia, evitando-lhe o ???menos eficiente' m??todo de folhear as p??ginas".

 

A opinião expressa por Carr na The Atlantic Monthly recebeu apoios importantes no mundo intelectual. Por exemplo, o Pulitzer Leonard Pitts escrevia recentemente no Miami Herald que "ao ler o artigo, descobri que não sou s?? eu quem est?? a perder o h??bito da leitura. Ami??de, consigo apenas digerir textos em pequenos blocos. Come??o um texto de várias p??ginas e de imediato me assalta o desejo irreprim??vel de deitar o olho ao meu correio electr??nico. ?? tudo assim disperso". Pitts contava um expressivo exemplo a esse respeito: "H?? uns dias pediram-me para fazer a recens??o de um livro. Tinha pouqu??ssimo tempo para o ler. Foi um cansa??o tremendo, mas impus-me permanecer durante horas sentado numa cadeira bastante inc??moda. Consegui, mas no fim tinha uma sensa????o de vazio, de culpa por ter-me afastado por tanto tempo do mundo".