Mecanismos de distorção
Perante um texto dif??cil ou uma resposta com as suas nuances, a r??plica jornal??stica pode ser buscar o interesse por outras vias, com o pretexto da rapidez e a necessidade de simplificar (frequentes disfarces para a pregui??a profissional). Tais distor????es d??o-se em todos os ??mbitos jornal??sticos, mas talvez nas informações que se referem ?? Igreja católica apare??am com uma impunidade que seria impens??vel em campos como a informação económica.
Os artif??cios que constringem a realidade com o fim de a tornar mais noticiosa ao mesmo tempo que a deformam, são muito variados. Com esp??rito de s??ntese, podiam destacar-se os tr??s seguintes:
1. Tend??ncia a informar dos ecos e das respostas que provocam as declara????es da hierarquia eclesi??stica, ao mesmo tempo que se passa por alto qual foi efectivamente o conteúdo original da declaração
De um documento teologicamente denso podem escrever-se dezenas de informações e artigos sem que se ofere??a ao leitor o que diz o documento: privilegiam-se as reac????es sobre o que se sup??e que diz, de modo que se cria uma discuss??o sobre uma base muitas vezes inexistente. Assiste-se, por vezes, a uma espécie de ???efeito Pavlov???: basta ouvir do que se fala para reagir de uma determinada maneira, activando os estere??tipos e deixando de lado o conteúdo efectivo.
Esta conduta não se limita a documentos teológicos. Recordo que, em 1993, João Paulo II escreveu uma carta ao Arcebispo de Sarajevo para lhe pedir que a Igreja local fosse solid??ria com as mulheres violadas durante o conflito b??lico (quase todas muçulmanas), ajudando-as, na medida do possível, a acolher a vida inocente nascida nelas como fruto da violência. O conteúdo da carta foi transformado por alguns meios numa ordem perempt??ria do Papa ??s mulheres b??snias, na qual lhes dizia que estavam obrigadas a dar ?? luz. Essas interpretações contagiaram outros meios, de modo que um delicado convite ?? solidariedade ??? não deixar s??s essas mulheres ??? que João Paulo II dirigia ?? comunidade católica converteu-se num ???mandato??? ditado pelo fanatismo. Criou-se um ???caso virtual??? sem base na realidade. Teria bastado ler a mensagem do Papa, que foi publicada e constava de uma s?? folha A 4.
2. Apresenta????o de dados certos fazendo corpo com interpretações veros??meis, mas falsasAinda que não seja um fenómeno novo, nos últimos tempos tem proliferado a publica????o de informações nas quais h?? alguns dados verdadeiros, mas em que o conjunto ?? falso, ainda que com apar??ncia de verosimilhan??a. S??o informações constru??das na própria mesa de trabalho por meio, por exemplo, da descontextualiza????o: a notícia d?? a volta a um aspecto, a uma frase, etc. de modo a conferir-lhe um significado novo e mais interessante. Se na mesma notícia se oferecesse o contexto, perderia o valor noticioso.
Outro modo de produzir informações falsas com dados certos ?? a justaposi????o: no texto p??em-se em relação dois aspectos que, na realidade, estão separados; dessa contraposi-??o artificial surge a ???chispa??? do notici??vel. Pode tratar-se de dilemas (verdadeiros ou falsos), contrastes, paradoxos, ou simples factos entre os quais não h?? conex??o.
3. Recursos estil??sticos com os quais se procura conseguir a apar??ncia de que o texto se baseia em informações obtidas pelo jornalistaJoga-se aqui, por exemplo, com o uso das cita????es e das fontes, mas apresentadas de modo gen??rico. Em muitos casos, por detr??s de frases feitas como ???segundo os observadores??? ou ???segundo fontes eclesi??sticas???, se pressente o próprio jornalista que se serve dessas express??es como de um recurso ret??rico, pois sente o imperativo profissional de atribuir a outros o que são os seus próprios coment??rios e pontos de vista. Escrevem-se textos de opinião com a apar??ncia externa de textos informativos.
Com o uso de fontes an??nimas d??-se al??m disso um fenómeno curioso: essas alus??es perdem o seu carácter de anonimato quando passam de um di??rio para outro; j?? não importa se a origem foi um ???diz-se???, pois citam-se como se se tratasse de informações confirmadas.
No ??mbito da informação sobre a Igreja católica chega-se ??s vezes ?? conclusão de que interessa apresentar o mundo eclesi??stico como opaco, impenetr??vel ou pouco di??fano. ?? margem do grau de verdade que possa conter essa opinião, usa-se o estereotipo da Igreja pouco transparente como estratégia com a qual se pretende subtilmente justificar o recurso a fontes não identificadas, com o fim de introduzir a própria vis??o como se tratasse de ???dados a que se teve acesso???. Recorre-se a uma ???flexibilidade??? que seria impens??vel noutros ??mbitos da informação.
?? preciso recordar ??? e casos recentes de abusos jornal??sticos voltaram a p??-lo em relevo ??? que ?? uma pr??tica habitual identificar os autores das cita????es, mais ainda quando estas são pejorativas para terceiros. No fundo, a credibilidade do jornalista depende, em grande parte, de que as fontes que utilize sejam identific??veis.
Simplificar sem atrai??oar
??s vezes, pode falhar a compreens??o das mensagens, mas noutras ocasi??es o fracasso deve situar-se na origem. O problema p??e-se frequentemente quando o que d?? origem ??s notícias são documentos ou declara????es institucionais.
Muitos documentos da Igreja dirigem-se a um receptor teologicamente formado. Nesses casos, os redactores do documento não consideram necessário o uso da argumenta????o nem a explica????o dos termos usados, pois d??o por adquirido o seu conhecimento por parte do receptor. O problema surge ao projectar esse conteúdo ao público geral, o que pode provocar mal-entendidos no uso de determinadas express??es, inclusivamente correntes. Por exemplo, se o Bispo de uma diocese afirma ??? perante um determinado comportamento pouco exemplar de terceiras pessoas ??? , que é preciso ???evitar o esc??ndalo???, essa express??o ter?? um significado muito diverso do pretendido: ???evitar o esc??ndalo???, no seu uso teológico, refere-se a evitar aquilo que possa induzir outros a pecar, enquanto que o uso quotidiano se inclina para o significado de evitar aquilo que pode prejudicar a própria imagem.
???Traduzir??? para o público
Se não seria lógico sacrificar o rigor com vista a uma suposta inteligibilidade, o que parece conveniente ?? não desprezar a dimens??o comunicativa ?? hora de elaborar e difundir esses documentos. é preciso conseguir que essas realidades complexas cheguem, na medida do possível, reelaboradas ao grande público, o que exige ??s vezes qualidades expressivas pouco comuns. Para o Magist??rio não ?? uma mat??ria secund??ria, pois não se pode esquecer que inclusivamente os mesmos fi??is recebem ordinariamente a primeira notícia desses pronunciamentos doutrinais ??? e, com frequ??ncia, a única ??? atrav??s dos meios de comunicação.
Essa reelabora????o consiste em ???traduzir??? para o público geral um conteúdo que foi previamente pensado num contexto especializado. Em muitos casos, isto requer passar do ???discurso institucional??? (com a sua estrutura r??gida, tom afirmativo e terminologia un??voca) para o tipo discursivo próprio dos g??neros jornal??sticos (os quais possuem outra estrutura e usam a linguagem comum).
A ???tradu????o??? deve ser oferecida, sobretudo, por meio da argumenta????o ??? habitualmente ausente nos textos ???institucionais??? ??? e atrav??s de enquadramentos interpretativos, met??foras e exemplos que captem o sentido global do discurso e se possam reflectir em títulos e primeiros par??grafos, onde h?? pouco espa??o para a nuance. O desafio ?? conseguir que essas s??nteses não atrai??oem o conteúdo real, que se apresenta mais elaborado no texto da informação ou do artigo.

