Paul Ricoeur, tens??o ética e paix??o filos??fica
Paul Ricoeur nasceu em 1913 em Valence (Fran??a) no seio de uma família protestante, tendo perdido os pais muito cedo. J?? desde jovem, e impelido pelo seu professor Roland Dalbiez, pressentiu a voca????o filos??fica e decidiu segui-la. A sua carreira acad??mica foi interrompida pela Segunda Guerra Mundial. Mobilizado em 1939, foi feito prisioneiro no ano seguinte e assim passou o resto da guerra.
Posteriormente come??ou a sua ascens??o na filosofia. Professor de filosofia geral na Sorbonne em 1965, mudou-se depois para a jovem Faculdade de Letras da Universidade de Nanterre, na qual chegou a ser decano em 1969. Esse momento, contudo, marcou o come??o de uma ??poca muito dif??cil na sua vida. A violência gerada pelo Maio de 68 levou-o a demitir-se em 1970 e alguns ataques provenientes da Intelligentsia francesa (uma acusa????o de pl??gio por parte de Lacan, a sua derrota face a Foucault na eleição para membro do Col??gio de Fran??a) levaram-no praticamente a um ex??lio nos Estados Unidos. Recome??ou na Universidade de Chicago, onde recebeu um acolhimento caloroso e respeitoso que lhe permitiu refazer a sua vida e come??ar uma nova carreira até ao ponto de afirmar que "ensinar nos Estados Unidos salvou a minha vida, literalmente". Posteriormente, o seu pensamento e a sua figura voltaram a ter prest??gio em Fran??a e em todo o mundo, prest??gio que fomentou progressivamente até ?? sua morte (recebeu mais de 30 doutoramentos honoris causa).
Se ?? relativamente f??cil fazer uma resenha biogr??fica da sua vida, sintetizar a sua empresa intelectual ?? muito mais dif??cil. Ricoeur não s?? não se inseriu de maneira definitiva numa escola de pensamento, mas transformou e fez face a temas muito diversos ao largo da sua longa vida, al??m de que parte do seu pensamento est?? escrito em diálogo e em resposta ??s obras de outros autores. H??, contudo, alguns pontos firmes que se podem ressaltar.
Foi, antes de mais, disc??pulo directo do fil??sofo personalista Emmanuel Mounier, chegando a viver na comunidade que ele criou e participando activamente na revista Esprit. Mais tarde, contudo, distanciou-se do personalismo ao ter em conta que tinha esgotado o seu p??riplo intelectual, embora deixasse como legado a no????o de pessoa. Por isso, a sua relação posterior com os pensadores personalistas foi um tanto amb??gua; não se inseriu expressamente nessa corrente mas esteve sempre muito perto deles tanto intelectual como essencialmente (foi, por exemplo, presidente do comit?? cient??fico da revista personalista mais importante de It??lia). Foi também muito influenciado pelo existencialismo cristão de Gabriel Marcel, por Karl Jaspers e pela fenomenologia de Husserl, que se converteu no seu m??todo b??sico de acesso ?? realidade.
A sua etapa de cria????o intelectual iniciou-se com uma forte medita????o sobre o volunt??rio e o involunt??rio, que se estendeu depois ao tema do mal, uma das questões que o inquietaram continuamente ao longo da sua vida. Daqui surgiu um dos seus textos mais importantes: Finitude e culpabilidade (1960). Posteriormente come??ou a reflectir sobre o inconsciente e a psican??lise; mas, sobretudo, iniciou a sua grande medita????o sobre a hermen??utica, sob a influência de Gadamer, que o levou a elaborar alguns dos seus textos mais relevantes como O conflito das interpretações (1970).
A partir dessa data, come??a a tornar-se j?? vis??vel a influência americana que o levou a uma amplia????o ou aplica????o da hermen??utica ?? linguagem do quotidiano, na linha de Austin e Searle, dando lugar ?? sua principal obra Tempo e relato, 3 vols. (1983-1985) na qual faz face a uma ampla tem??tica: questões lingu??sticas, a marca que o passado deixa em n??s, o conhecimento hist??rico. Talvez, de todos as maneiras, a sua contribui????o mais importante seja a sua no????o de "identidade narrativa": "eu sou o que eu me conto", a minha identidade não me ?? dada automaticamente, não a posso conhecer sem a media????o das palavras, que a inventam e ao mesmo tempo a descobrem.
Nos anos seguintes, realizou um fecund??ssimo trabalho: deu a conhecer em Fran??a relevantes fil??sofos políticos norte-americanos como John Rawls e Michael Walzer, realizou estudos sobre Harendt, Freud, L??vinas, Taylor, publicou sobre temas teológicos, desenvolveu o seu pensamento ??tico, etc. Mas a sua última obra, sem lugar para dúvidas, ?? o seu dif??cil livro Soi-m??me comme un autre (1990), uma poderosa tentativa de elaborar uma ontologia da pessoa.
Todas estas refer??ncias não s??o, contudo, mais que meros apontamentos de uma obra imensa que inclusivamente Derrida temia sintetizar. A n??s resta-nos a tarefa de analisar, decantar e assimilar este poderoso legado, penetrado todo ele de uma poderosa tens??o ética e de uma paix??o sincera pela filosofia com mai??scula, dois dos traços mais significativos deste insigne pensador a quem tive a honra de conhecer em N??poles j?? h?? alguns anos.
Juan Manuel Burgos
Professor da Associa????o Espanhola de Personalismo

