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Uma telenovela de sucesso incomoda os l??deres muçulmanos

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Uma telenovela de sucesso incomoda os l??deres muçulmanos

A s??rie, que ?? emitida diariamente em ??rabe pela cadeia MBC, do Dubai para 22 pa??ses, tem um argumento muito semelhante aos das populares telenovelas latino-americanas, cheias de amores vividos e frustrados, de conspira????es e vingan??as entre familiares e colegas de trabalho. Mas o que mais atrai o público eminentemente feminino ?? o facto de a protagonista ser uma estilista de sucesso e o marido um homem carinhoso, que apoia as ambi????es profissionais da esposa, dois pap??is nada comuns no mundo ??rabe.

 

Embora a s??rie, originalmente intitulada G??m???? ("Prateada"), tenha sido um fracasso na Turquia, a vers??o dobrada em ??rabe ?? emitida em prime time e, apercebendo-se do ??xito, a MBC lan??ou um canal tem??tico que passa epis??dios da telenovela 24 horas por dia.


Dois c??njuges em p?? de igualdade

 

A personagem central da s??rie ?? a jovem Nur (Song??l ??den), uma humilde turca da prov??ncia que come??a a ascender na sociedade quando um tio rico lhe pede que se case com o neto dele, por quem a jovem estava apaixonada desde criança. Entusiasmada, Nur muda-se para Istambul, mas descobre que Mohanad - papel desempenhado por Kivan?? Tatlitu??, um ex-jogador de basquetebol - não a quer, porque continua a sentir saudades da anterior mulher, que morrera um ano antes num dram??tico acidente.

 

Casam-se por press??o familiar e Nur vive um aut??ntico pesadelo perante a indiferença inicial do marido; por??m, consegue rapidamente suavizar-lhe o cora????o e os dois noivos passam a viver um id??lio que outros procuram perturbar.

 

A Turquia ?? um pa??s muçulmano, pelo que ?? muito mais f??cil os telespectadores ??rabes identificarem-se com as personagens de Nur do que com as das s??ries ocidentais. Por exemplo, estas personagens vivem o jejum do Ramad??o e, ao fim e ao cabo, Nur e Mohanad são parentes afastados que se casam por vontade da família, uma biografia partilhadas por muitos casais do M??dio Oriente.

 

Mas a vis??o idealizada da vida matrimonial difundida na s??rie, em que os dois c??njuges são parceiros em p?? de igualdade, contrasta amplamente com as tradi????es da regi??o, onde as mulheres ocupam um papel muito secundário no mundo profissional e na vida pública e onde, na maioria dos casos, são os homens que ganham o dinheiro enquanto elas ficam em casa. "Nesta telenovela, v??em-se muçulmanos que vivem de outra forma", afirma Isla Yad, professora de Estudos sobre a Mulher na Universidade Palestiniana de Bir Zeit, na Cisjord??nia, para explicar o fasc??nio que as mulheres ??rabes sentem pela s??rie.

 

Sucesso apesar das proibi????es

 

Mas estas ideias sobre as mulheres e o casamento, bem como a identifica????o da s??rie com o Islão, não agradam aos l??deres muçulmanos mais ortodoxos. Na Ar??bia Saudita, um dos pa??ses da regi??o em que o Islão mais condiciona a vida social e pública, o Grande Muft??, Abdul Aziz al Sheij, emitiu uma lei que pro??be ver a telenovela, por considerar que ela atenta contra os valores muçulmanos. E o Minist??rio do Com??rcio de Riad proibiu a venda de camisolas com fotografias dos protagonistas, por serem "prejudiciais para a moral". Mas as proibi????es não parecem afectar a popularidade da telenovela que, segundo a MBC, ?? seguida diariamente por tr??s a quatro milhões de sauditas, de entre uma popula????o de 28 milhões.

 

A Ar??bia Saudita ?? um dos poucos pa??ses da regi??o que tem um sistema de medi????o de audi??ncias. No reino dos Sauditas, a religi??o estatal ?? o wahabismo, uma vers??o especialmente dogm??tica do Islão, que subordina as mulheres ?? vontade dos homens, tanto na família como em outros ??mbitos. As mulheres não t??m autoriza????o para conduzir e, para aceitarem um trabalho ou para viajarem, necessitam da autoriza????o do seu "protector", isto ??, o marido ou outro familiar masculino, no caso das mulheres solteiras. Por isso, personagens como as da s??rie constituem um forte contraste com a vida quotidiana de muit??ssimas sauditas.

 

Tamb??m em Gaza e na Cisjord??nia as ruas se esvaziam quando ?? transmitido um novo epis??dio. Nas lojas nos bairros ??rabes de Jerusal??m, v??em-se cartazes de Nur y Mohanad ao lado dos de Yasser Arafat e de outros l??deres palestinianos; os rebu??ados e até os pacotes de batatas fritas oferecem cromos da s??rie. Por seu turno, os funcion??rios da maternidade da cidade de Hebr??n asseguram que, nos últimos meses, se tornou moda dar aos rec??m-nascidos os nomes de Nur e Mohanad.

 

De qualquer maneira, também nos territórios palestinianos Nur se confronta com o rep??dio do movimento islamista Hamas. "A s??rie atenta contra a nossa religi??o, contra os valores e as tradi????es islâmicas", afirma Hamed Bitawim, deputado da organiza????o e pregador numa mesquita de Nablus. O Grande Muft?? do Bahrein, Isa Qasim, foi outro dos que a proibiu.

 

Segundo o Daily News Egypt, em diversos pa??ses do Golfo P??rsico em que as mulheres t??m, no papel, mais direitos do que na Ar??bia Saudita, mas onde não deixam por isso de ser discriminadas, houve div??rcios devido ?? s??rie. E são cada vez mais numerosas as mulheres eg??pcias que exigem aos maridos que as tratem melhor. "Por que ?? que ele não ?? assim comigo?", suspiram muitas ao ver a s??rie, segundo o referido di??rio, que descreve a telenovela como "um raio de luz para o público ??rabe".

 

Contra a televis??o via sat??lite

 

O ??xito de massas de Nur demonstra também a incapacidade que os regimes ??rabes, acostumados ?? censura e ao controlo dos seus meios oficiais, t??m de limitar a influência das televis??es que emitem por via sat??lite para todo o M??dio Oriente. Em Fevereiro, o Egipto e a Ar??bia Saudita apresentaram ?? Liga ??rabe um esbo??o de resolução para facilitar a suspens??o das licen??as de emissão em todos os pa??ses da organiza????o a emissoras que ponham em causa os interesses dos l??deres ??rabes, os valores tradicionais ou os s??mbolos religiosos.

 

A medida visava sobretudo emissoras "generalistas" como a Al Jazira e a Al Arabiya, fortemente cr??ticas para com as c??pulas de vários pa??ses do M??dio Oriente e que trouxeram ao mundo ??rabe um nível de liberdade informativa inimaginível até h?? poucos anos. No entanto, a iniciativa apresentada ?? Liga ??rabe deparou com a oposi????o de Qatar, sede de Al Yazira, e do L??bano, donde emitem numerosas cadeias privadas.

 

Vicente Poveda