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Uma voz cr??tica num pa??s em conflito

 Comunicação
Uma voz cr??tica num pa??s em conflito

Quando, no ver??o de 2006, o governo Ehud Olmert entrou, inesperadamente, em guerra contra a mil??cia xiita Hezzbollah, no L??bano, os meios de comunicação de Israel viveram momentos de grande esplendor. Poucas horas ap??s o início dos combates, enviaram correspondentes para a fronteira do norte e come??aram a transmitir em directo dos próprios cen??rios da guerra. Contudo, independentemente, da sua qualidade técnica, a cobertura feita aos acontecimentos destacou-se pelo seu carácter cr??tico.


Uma guerra sem o apoio da imprensa

 

Em situações de guerra anteriores ou na altura dos brutais atentados da segunda intifada, os meios de comunicação israelitas tinham optado por adoptar um tom ??patri??tico?? mantendo-se fi??is ?? linha do Governo e ??s for??as de segurança. Contudo, uma vez por outra, difundiam notícias negativas sobre as c??pulas militares e políticas do pa??s, que se mostravam divididas e indecisas quanto a esta contenda polémica. Os meios de comunicação israelitas tinham dúvidas quanto ?? capacidade daquelas para derrotar o Hezbol?? e proteger os cidad??os do norte de Israel dos constantes ataques dos m??sseis Katyusha. E, assim, tal como nos Estados Unidos durante a guerra no Iraque, os meios de comunicação israelitas, serviram de plataforma para um debate cr??tico e contribuíram para fortalecer o processo democrático.

 

Quando o governo israelita admitiu, publicamente, que não tinha alcançado os seus objectivos na guerra, logo algumas altas patentes tiveram que abandonar o seu cargo, entre eles, o ministro da Defesa, o chefe do Estado-maior, alguns generais e oficiais importantes. Uma comissão nomeada para investigar lan??ou fortes acusa????es contra Olmert, que viu a sua popularidade decair até aos níveis mais baixos de sempre para um Chefe de Governo de Isarael.

 

Nos últimos meses, a cobertura informativa dos grandes meios de comunicação voltou a adoptar um tom cr??tico bastante violento ao referir as investigações feitas ao primeiro-ministro, por corrupção. A press??o exercida pelos meios de comunicação contribuiu, j?? logo de início para que o segredo de justi??a imposto se mantivesse, apenas, alguns dias e, de imediato, come??aram a ser publicados inúmeros pormenores do caso. Por fim, a press??o pública levou o político a anunciar, na altura, a sua demissão em meados de Setembro.

 

Uma sociedade em mudança

 

David Witzthun, director do Canal 1 (Arutz Harishon) da televis??o pública israelita e professor de Ci??ncias Pol??ticas e Comunica????o em Telavive, escreve no seman??rio alem??o Das Parlament (número 17, 2008), que os meios de comunicação israelitas t??m vindo a transformar-se e a diversificar-se tal como a sociedade israelita tem vindo a evoluir.

 

Numa primeira fase, ap??s a proclama????o do Estado de Israel por David Ben Gurion, em 1948, o cen??rio medi??tico era completamente dominado pelos m??dia públicos, que tentavam contribuir para a cria????o de uma cultura nacional israelita e de juntar em torno dela um grande fluxo de imigrantes chegado nos anos 50.

 

Os m??dia estavam ??colados?? ??s posi????es políticas dos governos da ??poca e consideravam her??is os l??deres políticos e militares. Uma imagem desse per??odo foi que, em Maio de 68, a televis??o israelita come??ou as suas emiss??es com a retransmissão do triunfal desfile militar em Jerusal??m celebrado um ano depois da Guerra dos Seis Dias, durante a qual o Estado judeu ocupou a parte este da cidade, para al??m da Cisjord??nia, Gaza os Montes Gol??n e o Sinai.

 

Segundo a opinião de Witzhum, a mudança das linhas orientadoras dos meios de comunicação israelitas, incluindo os públicos, come??ou a chegar com a Guerra de Yom Kipur de 1973. Esta guerra deixou marcas na sociedade israelita, que estava desprevenida perante o ataque surpresa lançada pelos ??rabes e que provocou inúmeras baixas no ex??rcito de Israel, até a altura, considerado invenc??vel. A primeira-ministra, Golda Meir demitiu-se poucos meses depois e o seu partido, de centro-esquerda, Mapai, teve de dar o seu lugar em 1977 ao governo de direita de Menachem Begin.

 

Os meios de comunicação, que politicamente tinham ficado mais ?? esquerda do novo Executivo, expuseram, pela primeira vez, uma sociedade dividida, no que respeita ?? política externa e de segurança, ??s relações com os pa??ses ??rabes e palestinianos, ou relativamente aos territórios ocupados e aos colonatos judaicos.


Os meios de comunicação diversificam-se

 

Presentemente, os meios de comunicação israelitas atravessam um per??odo de diversifica????o que reflecte a desagrega????o em que se vive na sociedade. Os ??rabes que representam j?? 20% da popula????o (de mais de 7 milhões) e que se diferenciam claramente do resto da popula????o pela l??ngua que falam, religi??o (entre estes h?? muçulmanos, cristãos e drusos, num pa??s de maioria judia), tradi????es, educa????o e ideias políticas. Por outro lado, a Israel tem chegado, desde os anos 90, mais de um milh??o de imigrantes da antiga Uni??o Sovi??tica.

 

?? certo, também, que a sociedade judaica est?? amplamente diversificada em grupos que se diferenciam pela sua cultura, tradi????es e sistemas educativos. Entre estes, encontram-se os ultra ortodoxos, os nacionalistas religiosos, os colonos da Cisjord??nia e sobretudo, o grupo formado por aqueles que se designam a si próprios apenas por ??israelitas??, sem qualquer outra denomina????o adicional, judeus praticantes ou n??o, de origem ashkenazi ou sefardita, ou votantes de partidos de esquerda, liberais ou de direita. Este ?? o grupo mais numeroso e principal consumidor dos meios de comunicação de difusão nacional.

 

Este segmento no sector da imprensa escrita, ?? liderado pelos grandes jornais di??rios Yediot Ahronot ( ????ltimas Not??cias??) que viu a luz do dia em 1939 e tem uma tiragem de 600.000 exemplares, Maarriv (??A Tarde??), h?? 60 anos (tantos quantos os anos do Estado de Israel) com 270.000 exemplares de tiragem e o liberal de esquerda Haaretz (??A Terra??), que apareceu em 1919, com participa????o accionista alem??, uma tiragem de 75.000 exemplares, que se publica de Domingo a sexta-feira tanto em hebraico como em ingl??s. H?? a acrescentar ainda a estes o di??rio económico Globes.


Jornal gratuito abre caminho

 

O segundo posto, em número de leitores e ?? frente do Maariv, foi alcançado recentemente pelo Israel Hayom ( ??Israel Hoje??), um di??rio gratuito, com uma tiragem de 255.000, pertencente ao magnate judeu dos Estados Unidos, Sheldon Adelson, próximo do l??der da oposi????o israelita e ex-primeiro ministro, Benjamim Netanyahu.

 

Adelson, que j?? possui uma rede de di??rios de distribuição gratuita nos metros de Nova Iorque, j?? tinha negociado a compra do Maariv ?? família propriet??ria, os Nimrodi, mas perante o fracasso das conversa????es decidiu lan??ar o seu próprio título. Para este objectivo, contratou a nata dos jornalistas de Israel, como Dan Mergalit, do Maariv, Mordejai Guilad do Yediot Ahronot oferecendo-lhes enormes somas de dinheiro.

 

De acordo com o estudo geral dos media israelitas TGI, que se realiza duas vezes por ano, os cinco títulos nacionais juntos - Yedioth Ahronot, Israel Hayom, Maariv, Haaretz e Globes - tiveram, entre Janeiro e Junho de 2008, uma quota de mercado de 58%. Ao fim de oito meses de vida, o Israel Yahom ?? lido por 20,2% dos israelitas, em compara????o com 39,2% do Yediot Ahronot e 15,1% para o Maariv.

 

A emissora pública Kol Israel (R??dio Israel) celebra, este ano, o seu 70?? anivers??rio e oferece programas de notícias e actualidade política, divers??o, m??sica clássica e emiss??es em l??ngua estrangeira. Por seu lado, os militares administram o Galei Tzahal, a R??dio do Ex??rcito, cujos programas são feitos, principalmente, por soldados recrutas e mant??m, por esse motivo, um tom jovial e fresco nas suas emiss??es. Para al??m desta, h?? centenas de emissoras locais e musicais. Muitas são ilegais e desenvolveram uma nova forma de jornalismo cívico, desconhecido, até ?? altura, no pa??s.

 

Os m??dia locais t??m cada vez menos influência e estão a ser substitu??dos pelos dirigidos, especificamente, aos diferentes grupos das popula????es que convivem em Israel. A popula????o ??rabe disp??e de títulos como Kul al Arab (??Todos os ??rabes??), Al Itiad (??A Uni??o??), ou Panorama, enquanto que os russos t??m acesso a cerca de 60 di??rios e revistas, como Nasha Strana (??O Nosso Pa??s??), Novosti Nedeli (??Not??cias da Semana??) ou Russkiy Izrailtanin (??O Russo Israelita??).

 

Os telespectadores israelitas podem escolher entre as duas plataformas digitais de televis??o: Hot, por cabo e Yes, via sat??lite. Estas televis??es, juntamente com os tr??s canais de televis??o pública israelitas (Canal 1, Canal 33 e Canal 23), sendo um deles um canal educativo e duas emissoras privadas em l??ngua hebraica (Canal 2 e Canal 10), h?? inúmeras emissoras em ??rabe e russo. Tamb??m legendam, frequentemente, em hebraico, ??rabe e russo, parte da programa????o de cadeias de televis??o estrangeiras. Por exemplo, incluem cadeias de televis??o legendadas que emitem durante 24 horas telenovelas latino americanas com o som original espanhol.

 

Os rabinos na redac????o

 

O principal jornal dos judeus ultra-ortodoxos ?? o Hamodia (??O Anunciador??), com a edi????o principal em hebraico e edi????es regionais em ingl??s para Israel, Estados Unidos e Gr??-Bretanha. No jornal, para al??m de inúmeras notícias e reportagens sobre a vida religiosa e das comunidades judaicas, dentro e fora de Israel, publica também sec????es sobre política e economia, mas nem uma notícia sobre desportos. A sua redac????o ?? regida pelos princ??pios de Halaj??, a lei religiosa judaica. Devido a estes critérios, quando se trata de informar algum caso de corrupção numa prefeitura de Israel, por exemplo, o delito ?? mencionado, mas nunca o nome do prefeito. Nas p??ginas deste jornal não existem também notícias de desgra??as, quer sejam assassinatos ou crimes ligados a droga.

 

O Hamodia tem cerca de 81.000 leitores, ?? frente dos 67.000 do Yated Neeman (??Base Leal??), o principal segundo jornal di??rio ultra ortodoxo e que afirma ser o ??nico a nível mundial cujo conteúdo ?? revisto, na sua totalidade, por rabinos. P??e outro lado, os seman??rios Mishpacha (??Fam??lia??) e o Bakehilla (??Na comunidade??) disp??em de 160.000 e 73.000 leitores, respectivamente. Outros jornais dirigidos a um público religioso judeu s??o, por exemplo o Yom Hadash, Yom Leyom, Kfar Jabad ou os gratuitos, B'sheva, Makor Rishom ou Hatzofeh.

 

Simultaneamente, h?? emissoras que passam medita????es religiosas e m??sica judia, bem como um portal de notícias para judeus ultra ortodoxos, Ladaat.net.

 

Vicente Poveda