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Olhos no ??cr??, mente adormecida?

Como a Internet nos est?? a transformar

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Como a Internet nos est?? a transformar

Num artigo de Nicolas Carr ("Is Google Making Us Stupid?") publicado h?? cerca de dois meses no The Atlantic Monthly (cfr. neste site) pergunta-se se a leitura on-line alterou a forma tradicional de abordar os textos. O novo tipo de leitura caracteriza-se agora por uma rápida sucess??o de olhadelas aos títulos mais chamativos e a curtos resumos, na ordem fragment??ria e dispersa de um emaranhado de links. Este facto apresenta-se j?? como uma muta????o dos mecanismos mentais e f??sicos adaptados durante s??culos para a leitura.

 

O avezado leitor que ?? Carr, antigo editor executivo da Harvard Business Review, baseia-se sobretudo numa intui????o sa??da da sua própria experiência: "Não penso da mesma maneira a que estava habituado a pensar. Isto torna-se mais evidente quando leio. Mergulhar num livro ou num grande artigo era geralmente f??cil. A minha mente podia manter-se possu??da pela narra????o ou pelas voltas do argumento e passar horas a percorrer vastas extens??es de prosa. Mas j?? não ?? o caso".

 

Os sintomas do novo mal estão descritos de forma quase clínica: "Agora, a minha concentra????o come??a a dispersar-se depois de duas ou tr??s p??ginas. Inquieto-me, perco o fio ?? meada, come??o ?? procura de coisas para fazer. Sinto que o meu cérebro vai ?? deriva, que tenho de for????-lo para que volte ao texto. A leitura profunda que flu??a com naturalidade converteu-se num combate".


Falha a leitura profunda

 

Outros testemunhos, como o do vencedor do prémio Pulitzer, Leonard Pitts (comentando o artigo referido na sua coluna do Miami Herald), ou o do patologista Bruce Friedman, habituado a publicar um blog sobre temas m??dicos, que disse j?? não poder enfrentar um texto do calibre de Guerra e Paz, validam esta aprecia????o de Carr. Mas que avalia????o deve fazer-se de uma mudança que o próprio Carr não sabe qualificar?

 

Compreende-se que Carr tenha intitulado o seu artigo com uma pergunta. Tenta, no seu racioc??nio, evitar as sombras apocal??pticas que surgiram perante outras transforma????es importantes na história do engenho humano; recorda, por exemplo, o pessimismo de S??crates no diálogo plat??nico Fedro, quando, perante o aparecimento da escrita, previa que o conhecimento deixaria de ser uma aut??ntica perten??a do homem e passaria a ser-lhe algo externo e, portanto, sem vida.

 

"Podeis ser cépticos quanto ao meu próprio cepticismo. Talvez os que depreciam os cr??ticos da Internet como nost??lgicos demonstrem ter raz??o, e, a partir das nossas mentes hiperactivas, apetrechadas de dados, florescer?? uma idade dourada de descobertas intelectuais e de sabedoria universal", admite o artigo de Carr, publicado apesar de tudo numa das revistas preferidas do progressismo norte-americano.

 

O certo, para ele, ?? que "nos espa??os tranquilos e livres para a leitura cont??nua e sem distrac????es de um livro, ou para qualquer outro acto de contempla????o, podemos fazer as nossas próprias associa????es, tra??ar as nossas próprias infer??ncias e analogias, adoptar as nossas próprias ideias. O ler em profundidade ?? indistingu??vel do pensar em profundidade" - disse, apoiando-se nas conclus??es da psicóloga Maryanne Wolf, da Tufts University, autora de Hist??ria e ci??ncia do cérebro leitor.

 

Mera questão de suporte?

 

A atitude optimista parece prevalecer nos exames do relatório PISA que a OCDE tra??a para avaliar estudantes de 15 anos em leitura, matem??tica e ci??ncias, em mais de cinquenta pa??ses; na sua próxima edi????o, estas provas ter??o em conta as competências para a leitura electr??nica. Os Estados Unidos, que decidiram não participar da experiência com o argumento de não sobrecarregar os seus estudantes, foram criticados por aqueles que d??o ??quelas destrezas uma import??ncia id??ntica ?? an??lise de um poema ou um de romance. "Não se trata de excluir os livros - assinala Donna Alvermann, professora de Educa????o Lingu??stica e Liter??ria da Universidade da Ge??rgia -, mas estes constituem apenas uma maneira de relacionar-se com a informação no mundo de hoje".

 

Nem todos, contudo, reduzem o problema a uma mera questão de formas e apresenta????es. Assim, por exemplo, o vencedor do Pr??mio Nacional da Cr??tica dos Estados Unidos em 2002, Lee Siegel, reputado como um dos mais inconformistas dissecadores da cultura actual, lan??ou um livro intitulado no original Against the Machine (1). Siegel utiliza a palavra máquina no seu sentido mais literal, referindo-se ao computador com que nos ligamos ?? Net como a incarna????o das mais sofisticadas formas de controlo.

 

Parodia também com o seu título a ambiguidade de um discurso que, em nome do direito a "aceder" e a "seleccionar", oferece, na realidade, o mais desmiolado colaboracionismo com o sistema de que pretende demarcar-se. "A linguagem de fazer dinheiro identificou-se com a da criatividade iconoclasta", diz o autor, que no revolucion??rio fashion-victim, elogiado por David Brooks (o bobo, o bourgeois bohemian, o burgu??s bo??mio), v?? a representa????o mais acabada da morbidez de ideias própria do anti-hero??smo p??s-moderno.

 

Ainda que na sua argumenta????o procure sempre ter em conta as raz??es que podem opor-se-lhe e atribuir-lhe o estigma de imobilista, no agoirento panorama pintado por Siegel h??, como no caso de Carr, algo de O tempora, o mores! O próprio cr??tico admite que se aproxima da caricatura quando retrata o utilizador da Net e os seus h??bitos como uma espécie de hikikomori, esse novo exemplar de jovem japon??s que, para evadir-se da voragem social, se refugia até ao limite do autismo na segurança uterina dos videojogos (cfr. Aceprensa 14.4.04, na vers??o impressa). Não ?? casual que Siegel fa??a uma evoca????o da Metropolis de Fritz Lang para projectar a imagem de ciberconectado mutismo em que se vai consumindo a desumanizada humanidade: "A Internet - diz - ?? o primeiro ambiente social ao serviço das necessidades do indiv??duo isolado".

 

O mundo atrav??s de um ??cr??

 

Descrever um h??bito pelo abuso que dele se faz não parece ser a melhor forma de honrar a justi??a. No entanto, como h??bil ensa??sta, Siegel vai elaborando a trama da sua exposição de modo talvez excessivamente heterog??neo, mas com inten????o omnicompreensiva. Assim, o que parece uma descri????o do mundo da Internet levada até extremos delirantes, exprime-se com exemplos vivos do nosso quotidiano, que nos parecem preocupantemente familiares, e a caricatura vai-se transformando em retrato que não nos favorece.

 

O que Siegel fustiga não ?? de modo algum uma simples tecnologia; ao contr??rio, considera a Internet como o ep??tome da cultura de massas, um fenómeno que para Siegel não tem j?? tanto a ver com cosmovis??es, mas reduz-se a uma estratégia comercial de dimensões globais. De facto, Against the machine tem interesse como guia de desconhecedores dos cibernegócios, pela revis??o que Siegel faz das "filosofias" (leia-se perspectivas de marketing) que subjazem aos mais inovadores conceitos (leia-se produtos) do universo on-line: do j?? distante Whole Earth Catalog (WELL) de Stewart Brand, até aos despreocupados e-Bay, MySpace, Wikipedia, YouTube, Facebook, etc. Sem esquecer o lobby puramente doutrin??rio: Alvin Toffler e a sua teoria da "terceira vaga", e A chave do ??xito de Malcolm Gladwell.

 

O que Siegel descobre por detr??s de todo este discurso ?? a ??tribaliza????o?? economicista: a engenharia dos sistemas serve, na realidade, os sistemas económicos, cuja "racionalidade", expressa na correspondente g??ria, valida e d?? sentido a todas as ac????es humanas, incluindo o lazer. Assim, a Internet não s?? cria a utopia de um mundo ao alcance de um clique e contido no nosso ??cr?? como as cidades em miniatura enclausuradas em bolas de cristal, mas também no-lo apresenta essencialmente como um bem económico, vi??vel ou não enquanto tal. Por isso, por exemplo, a pornografia na Net adquire a apar??ncia de algo perfeitamente ajustado ?? racionalidade comercial própria do sistema.

 

O importante ?? deixar-se ver

 

Esta "transvalora????o" - que o cr??tico americano denuncia servindo-se do termo criado por Nietzsche - tem a sua express??o mais acabada, segundo explica, no conceito de "prosumidor" (neologismo que integra as palavras produtor e consumidor), posto a circular h?? algumas décadas por Toffler. O impulso que o boom dos blogs e de p??ginas como o Youtube tem dado ?? exposição indiscriminada de qualquer bem anteriormente circunscrito ?? esfera da vida privada, constitui para Siegel um verdadeiro motivo de esc??ndalo.

 

O que o indigna ?? a puerilidade de uma cultura em que se pretende que tudo ?? f??cil, e na qual o direito a tudo conseguir se promove como a conquista suprema. A cultura da imagem despojou a fama do seu conteúdo ??tico e tornou-a simplesmente est??tica: o importante ?? "aparecer", ser visto. Porque o "prosumidor", que consome os bens da Internet para exibir o seu produto, sai decidido, ?? falta de outro melhor, a p??r-se a si mesmo na montra virtual com a ilus??o de que algu??m o descubra, isto ??, o compre. O valor do que tem a oferecer importa pouco: o importante ?? que caia em gra??a; que consiga desenvolver uma personalidade viral, capaz de contagiar-se violentamente aos demais (bela met??fora da mercadotecnia virtual a partir da pandemia da sida).

 

Actualizando-a com os exemplos mencionados e com outros como o c??lebre reality-show da televis??o norte-americana American Idol (correspondente da nossa Opera????o Triunfo, e vers??es na sua esteira), Siegel reconhece a concepção feita h?? j?? alguns anos por Christopher Lasch na Cultura do narcisismo. Ao antigo "vale tudo" do relativismo t??bio sucedeu um desavergonhado e audaz "todos valemos", que encontrou nas p??ginas interactivas da Net algo como o cambalacho do tango, onde "tudo ?? igual/nada ?? pior/tanto um burro/como um grande professor".

 

Ressentimento contra a autoridade

 

Claro que o tango não ?? novo: ainda que Siegel tente tra??ar uma linha divis??ria entre o tempo das vanguardas hist??ricas e a nossa ??poca (e assim distingue, por exemplo, entre cultura para as massas e cultura feita pelas massas), os seus argumentos recordam vozes que h?? tempo ecoam entre n??s.

 

Entre elas a de Ortega y Gasset, cuja c??lebre Rebeli??o das massas caracterizava j?? o snob:"sempre disponível para fingir ser qualquer coisa. S?? tem apetites, pensa que s?? tem direitos e não pensa que tem obriga????es; ?? o homem sem a nobreza que obriga - sine nobilitate -, snob".

 

Descri????o que se assemelha muito ?? que faz Siegel sobre as pessoas que "acabam repetindo simplesmente o seu direito a serem o que gostam de ser, uma declaração constante do eu que, com frequ??ncia, adquire o estilo de chacota ou raiva dirigida contra elites privilegiadas, as quais são tidas como obst??culo ?? tendência maiorit??ria". O norte-americano, que reconhece um "ressentimento contra a autoridade" por tr??s destas ??nsias infantis de reclamar quotas gratuitas de figura????o, coincide em tal nomenclatura com outro cr??tico como Harold Bloom, reivindicador do c??none literário.

 

Não deixa de ser preocupante que a vis??o de um cr??tico da cultura actual coincida, em t??o grande medida, com a que tinha a l??cida sentinela que era Ortega y Gasset ante a perspectiva das monstruosas barbaridades político-sociais que iam levando o s??culo XX pelos caminhos que agora conhecemos. O c??mulo para Siegel ?? que a nossa ??poca queira engendr??-las em nome da democracia: "Qual o problema dos privilegiados ou das elites aprenderem uma habilidade ou manifestarem uma excel??ncia inata numa arte e al??m disso poderem viver dela? ?? uma maneira poderosa para que a gente desfavorecida possa saltar as barreiras sociais. A democracia ?? o que faz com que tais transforma????es sejam possíveis".

 

Por outro lado, o que Siegel qualifica de "igualitarismo antidemocrático" ?? um recurso alienante para "permitir que a reivindica????o mais firme menospreze o talento mais escrupuloso". Against the machine torna-se também uma advert??ncia contra as maneiras de justificar as modalidades p??s-modernas e descafeinadas do totalitarismo: "Paradoxalmente, no seu propósito de serem iconoclastas e de atacarem os grandes meios de comunicação, os ??bloguistas?? favorecem as for??as políticas e financeiras que querem apenas que os meios cr??ticos e anal??ticos desapare??am".

 

Informação vs Conhecimento

 

Com a difusão de novos suportes electr??nicos para a leitura (como o Kindle de Amazon e o leitor da Sony), que, segundo uma sondagem entre profissionais do negócio, poder??o superar o livro tradicional num lapso de tempo de dez anos, as novas gerações pertencer??o j?? a uma tradi????o textual não de ??ndole fixa, mas caracterizada pela flexibilidade, a interac????o com a imagem e o consumo instant??neo.

 

A era das letras que aparecem e desaparecem ?? também a da informação, cuja din??mica imp??e não s?? os ritmos mas também os objectivos do ler e o horizonte de expectativas do leitor. Trata-se, pois, de uma leitura que não est?? concebida para deixar marca mas, ao contr??rio, para deixar passagem: a outra que a desactualiza e que de imediato ser?? desactualizada pela seguinte.

 

Por isso, Siegel distingue entre a transmissão do conhecimento e a da mera informação: "Deseja-se ter conhecimentos para si mesmo, não para querer saber o mesmo que os outros ou para os transmitir a outras pessoas. O conhecimento garante a independ??ncia. Por outro lado, quando nos informamos pensamos da mesma maneira que todos os outros que assimilam a mesma informação".

 

Se as competências do leitor da era digital complementam as do leitor tradicional ou as substituem, ?? algo que se continua a discutir. Não são poucos os que sustentam que o correio electr??nico e os blogs devolveram ao texto um interesse que lhe tinha sido arrebatado pela televis??o. Ainda que Siegel se interrogue se tudo o que pode inventar-se deva efectivamente ser inventado, dever?? concluir-se como ele que "a tecnologia ?? neutra e sem valor, não ?? intrinsecamente boa nem m??. S??o os valores que determinam que a tecnologia seja uma ajuda ou um obst??culo para a vida humana". As coisas ser??o orientadas consoante os critérios que se defendam e os objectivos que se queiram conseguir.

 

Xavier Reyes Matheus

 

(1) Lee Siegel, na vers??o espanhola: El mundo a trav??s de una pantalla, Urano. Barcelona (2008). 188 pp. 15 ???.

 

T.o.: Against the Machine.