Gaza e a guerra pela opinião pública
Numa guerra de - na qualifica????o de Bento XVI, durante a hom??lia da sua primeira missa de 2009 -, "violência massiva como resposta a outra violência", o desejo por distinguir os bons dos maus adquiriu contornos de um forte duelo medi??tico, onde as modalidades mais recentes de comunicação se incorporam como componente da estratégia b??lica. Assim o reconheceu Avital Leibovich, porta-voz das For??as Armadas Israelitas, admitindo que "a blogosfera e os novos media são outra zona de guerra" e concretizando que "devemos destacar-nos a??".
A import??ncia do apoio popular
Nesta nova ofensiva, o Estado de Israel parece decidido a combater, por todos os meios da "hasbana" (propaganda), a corrente de opinião hostil que, em 2006, durante o conflito no L??bano, contra o Hezbollah, conseguiu provocar o descrédito da ac????o militar em curso junto dos próprios cidad??os israelitas. As conclus??es da Comissão Winograd sobre aquele conflito são enf??ticas no que concerne ?? necessidade de utiliza????o adequada dos media, o que motivou a diplomacia da ministra Tzipi Livni a desencadear uma intensa "campanha de relações públicas", com o objectivo de convencer o mundo que o bloqueio contra Gaza ?? consequência da conduta do Hamas.
Enquanto alguns analistas próximos de Telavive se felicitam pelos resultados alcançados por esta política, outros parecem preocupados em perder apoio internacional em face do que não se sabe, sobretudo, o efeito que poder?? ter a tomada de posse de Barack Obama, no próximo dia 20 de Janeiro, como Presidente dos Estados Unidos da Am??rica.
YouTube e Twitter
Preocupado em demonstrar a precis??o dos seus bombardeamentos, o ex??rcito de Israel inaugurou o seu próprio canal YouTube, de forma a difundir os seus v??deos. O consulado israelita em Nova Iorque abriu a primeira conta Twitter oficial do governo israelita, atrav??s da qual promoveu recentemente uma "conferência de imprensa de cidad??os", a qual permitia aos utilizadores dirigir perguntas a um representante diplom??tico desse pa??s.
No entanto, parece que alguns dos v??deos colocados no YouTube foram eliminados pela administra????o do portal. Neste sentido, uma nota na web do canal pr??-israelita do YouTube comenta o seguinte: "Lamentamos que o YouTube tenha rejeitado alguns dos v??deos exclusivos demonstrativos do ??xito das For??as de Defesa Israelitas, na Opera????o Chumbo Fundido contra os extremistas do Hamas na Faixa de Gaza (...). Tamb??m ?? de notar que um dos v??deos retirados detinha o número mais alto de visitas (mais de 10.000) no momento em que o retiraram".
Reciprocamente, a embaixada israelita em Espanha reprovou os meios de comunicação pela difusão de "duras imagens de vítimas inocentes em Gaza, entre elas, mulheres e crianças". Classificando de trag??dia a morte de civis inocentes, o comunicado da embaixada adverte, no entanto, que "as imagens provocam emo????es fortes, mas não devem fazer-nos esquecer a voz da raz??o: a responsabilidade pelas consequências da actual opera????o recai unicamente sobre o movimento islamita Hamas, por atacar a povoa????o civil israelita e por se escudar entre a povoa????o civil de Gaza, ambas ac????es consideradas como crimes de guerra pelo Direito Internacional".
M??nica G. Prieto, correspondente do El Mundo para Israel e para os territórios palestinianos entre 2005 e 2007 - motivo pelo qual viveu em Gaza a vit??ria eleitoral do Hamas, as consequências do bloqueio e a situação depois da guerra civil palestiniana -, afirma que "ver a cobertura dos acontecimentos em Gaza nos canais de televis??o ??rabes e nos ocidentais ?? como observar dois mundos diferentes".
Numa an??lise especial publicada, no dia 30 de Dezembro, por aquele di??rio espanhol, a referida jornalista elaborou uma lista de conceitos que, segundo afirma, foram assimilados pelos media europeus e americanos, sob influência da corrente de opinião promovida pelo governo Bush, "ignorando a situação global na Faixa de Gaza e muitos dos recentes acontecimentos políticos, imprescind??veis para compreender o que est?? a acontecer".
As meias verdades sobre Gaza
Num artigo publicado pelo International Herald Tribune (9-01-09), Rashid Khalidi, professor de Estudos ??rabes, na Columbia University, tece uma s??rie de precis??es sobre os aspectos falseados do conflito de Gaza.
?? semelhança do texto publicado em El Mundo, da autoria de M??nica Prieto, Khalidi estrutura o seu artigo em forma de uma sinopse do erro, insistindo nas precis??es que ?? necessário fazer sobre cada um dos aspectos falseados deste conflito.
- A maioria da popula????o residente na Faixa de Gaza, diz Khalidi, não escolheu viver naquele território. Oriundos de povos e cidades como Ascal??n e Beer Sheva, foram conduzidos para Gaza pelo ex??rcito israelita em 1948.
- O território de Faixa de Gaza viveu sob a ocupa????o de Israel, desde a Guerra dos Seis Dias, em 1967. Embora tenha havido a retirada das tropas e colonos pela na????o hebraica, em 2005, o consenso internacional ?? amplo no reconhecimento de Israel como for??a de ocupa????o. Controla o acesso ?? zona, o seu espa??o a??reo e costeiro, e os seus efectivos militares entram ?? vontade na Faixa de Gaza. Como for??a ocupante, a Quarta Conven????o de Genebra atribui a Israel a responsabilidade de velar pela popula????o civil daquele território.
- O bloqueio de Israel sobre Gaza, que estrangulou lentamente o movimento de pessoas e de bens b??sicos ao ponto de criar problemas sanit??rios que representam um perigo para a vida da popula????o, aumentou desde a vit??ria do Hamas nas eleições ao Conselho Legislativo da Palestina em Janeiro de 2006.
- A tr??gua unilateral pela qual o Hamas havia deixado de lan??ar rockets contra Israel (salvo como retalia????o aos seus bombardeamentos, o que provocou uma redu????o na ordem das centenas, durante os meses de Maio e Junho, e para menos de 20, nos quatro meses seguintes) esperou em v??o o levantamento do bloqueio, que não s?? não ocorreu, mas que se extremou, ao ponto de que as for??as israelitas impedissem o acesso ?? ajuda da ONU. Em princ??pios de Novembro, Israel lan??ou, ali??s, ataques por mar e por terra provocando a morte a seis homens do Hamas.
- Ainda que Khalidi reconhe??a o valor singular de todas as vidas perdidas, salienta os números: quase 700 palestinianos mortos nos últimos ataques, civis na sua maioria, perante uma dezena, aproximadamente, de baixas israelitas, entre as quais vários militares.
Para o analista, os resultados alcançados pela negocia????o foram frustrados pela negativa de Israel em satisfazer os termos em que foi acordada a tr??gua e o levantamento do bloqueio. Na opinião de Khalidi, as palavras proferidas, em 2002, por Moshe Yaalon, ent??o chefe do Estado Maior das For??as Israelitas de Defesa, d??o a chave do pressuposto com que a na????o ocupante aborda este conflito: "Os palestinianos devem assumir no último reduto das suas consciências a ideia de que são um povo derrotado".

