A Narra????o e os novos meios na comunicação política
Não constitui novidade a import??ncia da presen??a da literatura, da arte da informação, no cen??rio da política: são j?? muitas as eleições que confirmam a rentabilidade de aplicar recursos humanos ao chamado storytelling. A novidade encontra-se, talvez, no novo espa??o comunicativo, onde se insere a referida estratégia de marketing político. De facto, centralizar uma campanha na r??dio ??? como fez, na sua ??poca, F.D. Roosevelt ??? ou optar pela televis??o ??? ineg??vel protagonista nas eleições das últimas décadas ??? não tem o mesmo efeito que centraliz??-la nos meios digitais mais modernos.
As raz??es da viragem estratégica de Obama, para as novas tecnologias da informação, são atribuídas, por alguns, a motivos económicos e a necessidades conjunturais de financiamento.
Os que defendem estas raz??es, opinam, ainda, que ele não teve outra sa??da sen??o recorrer a Silicon Valley, centro da indústria das novas tecnologias dos Estados Unidos, porque Hillary Clinton tinha monopolizado as fontes de financiamento tradicionais do Partido Democrata (a indústria do cinema, os sindicatos, os escritérios de advogados e parte de Wall Street).
Sejam estes ou outros os motivos, o certo ?? que a combina????o entre história e redes funciona. Difundindo-se a?? as ideias do neomarketing, que introduz o consumidor ??? o eleitor - na distribuição teatral do mercado e da política. Assim, ???You are the story??? ?? a nova vers??o do ???we can???, todavia, em ambos os casos trata-se de inserir os cidad??os comuns num argumento de uma legislatura que ?? hist??rica desde que nasceu.
Entrar numa história
Nas redes digitais existe um elemento da arte de contar histórias para a qual as novas tecnologias estão especialmente preparadas. Trata-se da facilidade que estas t??m para incluir os cidad??os nessa (mesma) história desenhada e relatada pelos políticos. Consegue-se, desta forma, aquilo que entusiasmou a romancista inglesa George Eliot a dizer: a vida privada nunca devia estar separada da vida pública. Esta estratégia de incluir o usu??rio no discurso narrativo ?? o que veio a chamar-se storytelling revival ou também narrative turning. Para esta nova técnica, os meios digitais são adequados.
A título de exemplo: Obama não anunciou a sua decisão de nomear o candidato Joe Biden para a vice-presid??ncia pelo m??todo tradicional, o de convocar os jornalistas para uma conferência de imprensa. N??o, também nisto alterou o m??todo habitual. Enviou SMS aos milhares de membros da sua rede social, antecipando-lhes a decisão que tornaria pública, pouco depois, perante os meios convencionais. E, se ganhou o apoio dos seus eleitores quando lhes contava atrav??s do Twitter, a sua chegada aos jardins do Capit??lio, para a sua investidura hist??rica, foi o seu modo de introduzi-los na Hist??ria, na sua história. Consegue-se, assim, o que dizia Richard Ford, também romancista, num artigo recente: ??? muitos americanos ??? esses que sent??amos estar a perder, pouco a pouco, o controlo das nossas vidas ??? estamos praticamente seguros de que este ?? o lugar no qual vamos ficar; este ?? o lugar onde a nossa condi????o de cidad??os conta mais???.
Videojogos políticos
Mas a explos??o da política nos novos meios tecnológicos, chega também aos videojogos em rede. Nestes a viragem narrativa ?? mais evidente. O cidad??o faz-se protagonista do acontecimento com enorme facilidade. Assim o entendeu Obama, quando promoveu a sua campanha política, nalguns estados, atrav??s do Xbox Live da Microsoft, introduzindo vários banners e cartazes seus nos cen??rios de jogos como o Guitar Hero 3.
Numa recente comunicação, pronunciada no ??mbito do XXIII Congresso Internacional de Comunica????o sobre o tema ???Excel??ncia e inova????o na Comunica????o???, na Universidade de Navarra, Jay David Bolter, director do Wesley Center for New Media Research and Education, defendeu/assegurou que ???os videojogos estão a converter-se num meio político???. Exemplificou isto, referindo algumas das aplica????es que tiveram melhor acolhimento na Internet. Mencionou September 12th, de Gonzalo Frasca, um jogo b??lico que convida a reflectir sobre o conceito de ???danos colaterais???, e Disaffected, de Ian Bogost, sobre os conflitos no mundo laboral dos Estados Unidos, o qual, segundo Bolter, se pode entender como ???uma cr??tica ao mundo capitalista???.
Vistas assim as coisas ??? ?? ineg??vel a transformação coperniciana impressa ao marketing político ???, abre-se uma inc??gnita curiosa relativamente aos conteúdos. Delineava-a Bolter, na citada conferência, quando se perguntava qual ?? a ideologia dos novos meios tecnológicos. A sua ess??ncia participativa e, aparentemente, descentralizada ?? mais ou menos eficaz para a transmissão de ideias do que os sistemas convencionais? O cen??rio americano parece um bom modelo para analisar uma questão que, de momento, h??-de ficar necessariamente em aberto, pois seria prematuro avan??ar com reflex??es sem deixar que as ??guas desta nova presid??ncia corram ainda mais um pouco.

