Acerca da laica ignor??ncia
Para quem não conhece o cristianismo e não tem pelo menos no????es elementares de mitologia clássica, os museus do Ocidente s??o, em grande medida, um livro fechado. Isto ?? comprovado pelos professores de história da arte, aos quais chegam alunos cada vez mais mal preparados. Os mestres não se queixam de que os disc??pulos não tenham lido o perceptivo Gombrich, mas de que não tenham aberto a B??blia.
A esta laica ignor??ncia dedicou Rafa Julve uma reportagem em El Peri??dico de Catalunya (20-04-2009). O jornalista recolhe o lamento de professores como Teresa Vicens, que ensina iconografia medieval na Universidade de Barcelona: ??Em 30 anos de doc??ncia, tenho notado uma grande diminui????o da cultura religiosa por parte dos alunos que chegam ?? universidade. Esta falta de bases afecta negativamente a possibilidade de apreenderem algumas ??pocas e obras, porque ?? necessário conhecer a história religiosa como facto cultural??. Assim, precisa esta docente, um dos problemas mais graves destes jovens ?? não terem a mais pequena ideia das questões b??sicas da B??blia. Alguns nem sequer são capazes de explicar quem são Ad??o e Eva.
A mesma professora refere outro caso extremo - ainda que, infelizmente, nada excepcional - de incultura religiosa entre os estudantes: não poucos, diz, ??nem sequer sabem o que se celebra na Semana Santa??. ?? precisamente para isso que tende a política implantada na escola infantil e prim??ria Cervantes, de Barcelona; neste estabelecimento, aquilo a que escolas menos preocupadas com a laicidade continuam a chamar Natal e Semana Santa recebe o nome de ??f??rias de Inverno?? e ??f??rias de Primavera?? (cfr. El Peri??dico de Catalunya, 12-04-2009).
Este newspeak laicista recorda o almanaque dos revolucion??rios franceses, com a desvantagem de ser ainda mais rid??culo. Semelhantes eufemismos não podem eliminar a realidade que tentam silenciar. Algum dia um aluno mais esperto h??-de perguntar por que raz??o as crianças do hemisf??rio sul t??m f??rias nas mesmas datas... Como salienta, na reportagem mencionada acima, Josep Maria Escol??, professor de cultura clássica na Universidade Aut??noma de Barcelona, que se op??e ao laicismo radical que pretende apagar a marca da religi??o na sociedade: ??Não se pode anular uma tradi????o??. E Laura Torralbo, professora de arte catal?? medieval na mesma universidade, real??a que as ideias religiosas ??fazem parte da nossa formação antropológica; não se pode obviar que a nossa cultura ?? cristã??.
Parcialidade no respeito pelas sensibilidades
Por seu lado, a directora da escola Cervantes justifica a medida dizendo que foi adoptada para ??n??o ferir susceptibilidades?? de pessoas com outras cren??as; em particular pretendeu-se ??piscar o olho ??s famílias laicas da Catalunha, que cada vez são mais numerosas??. Tamb??m os jovens ignorantes são cada vez mais numerosos, como lamentam os professores universit??rios citados acima, e o número continuar?? a aumentar merc?? de escolas como esta onde, por mor da separa????o entre a Igreja e o Estado, se apartam os alunos do patrim??nio cultural comum. Com a censura que ali ?? imposta a tudo o que ?? religioso, os jovens dificilmente poder??o entender as obras do escritor que d?? nome ?? sua escola.
Quanto ao desejo de não ferir susceptibilidades, ?? significativo que tal delicadeza raras vezes seja usada com os cristãos. Outro exemplo recente ?? dos Estados Unidos, comentado por Gary Bauer - que foi vice-secret??rio de Educa????o na ??poca de Ronald Reagan - em The Christian Science Monitor (22-04-2009).
Bauer refere-se a um estudo publicado no ano passado por Gilbert Sewall, director do Conselho Americano de Manuais Escolares, sobre o que se ensina acerca do Islão nas escolas públicas do pa??s. Ao rever os manuais mais usados nas aulas de história no secundário, Sewall detectou muita cosm??tica, claramente pensada para não ferir sensibilidades muçulmanas. Bauer considera compreens??vel que, em temas delicados como esse, as escolas tenham o cuidado de não ofender ningu??m. Assim, diz, os manuais ??devem salientar a piedade e a caridade que praticam centenas de milhões de muçulmanos no mundo, e o mesmo devem dizer dos cristãos??. O problema ?? que os manuais maquilham ou omitem os temas controversos.
Por exemplo, o termo jihad não significa ??guerra santa??, ainda que muitos islamistas radicais o usem para significar o seu empenho como uma causa nobre inspirada no Cor??o, mesmo quando inclui ac????es terroristas. Mas um manual do ensino secundário muito difundido define a jihad unicamente na sua acep????o espiritual: ??fazer todo o possível para resistir ?? tenta????o e vencer o mal??. T??o-pouco se pode identificar sem mais a sharia com a discrimina????o das mulheres e as amputa????es para castigar acusados de roubo ou outros crimes; mas em diversas ??pocas e lugares a sharia tem sido e continua a ser aplicada assim. No entanto, um dos manuais revistos por Sewall diz somente que a sharia ??estabelece recompensas por bom comportamento e penas por delitos??.
O carácter tendencioso de tais eufemismos torna-se evidente quando eles são comparados com o que esses mesmos livros dizem do cristianismo. Segundo um dos manuais, as Cruzadas foram ??guerras religiosas que os cristãos europeus empreenderam contra os muçulmanos??. Mas quando são os muçulmanos que atacam e ocupam os territórios de cristãos, trata-se da ??formação de um imp??rio??. Com estas contor????es da história, o desejo de evitar preconceitos anti-mul??umanos pode acabar por fomentar a incompreens??o para com os cristãos. A verdade aberta e honestamente procurada ?? o cimento da conviv??ncia entre religi??es diferentes.

