George Orwell ou a derrota da verdade
?? dif??cil que o leitor actual possa temer o ??Big Brother?? de que falou Orwell: esse s??mbolo do controlo omnipresente que foi materializado pelo nazismo e, anos depois, pela ditadura comunista de Estaline. ??A ideia de um aparelho político que controla a vida inteira dos homens (...) ?? algo que pertence ao passado, ?? uma imagem que não consegue alarmar-nos, pois se nos afigura impossível que volte a ter realidade??.
Mas seria um erro pensar que a advert??ncia de Orwell contra o totalitarismo tenha perdido actualidade. Se olharmos para o fundo do romance, como sugere Alfredo Cruz, encontraremos um inquietante paralelismo com a ??poca actual. ??Pode ser que as ideologias messi??nicas, a instrumentaliza????o sistem??tica dos indiv??duos ou a política da suspei????o e dela????o estejam longe de n??s e seja dif??cil o seu regresso. Mas a hostilidade ?? verdade, o questionamento céptico de que ela possa existir realmente, e o esfor??o para ampliar o campo da manipulação, e aperfei??oar os seus m??todos, acompanha-nos todos os dias??.
Quem afirma que em política não h?? lógica, e que, portanto, tudo ?? possível e aceit??vel, dado que carecemos de princ??pios, valores e argumentos racionais, pode acabar por governar um pa??s democrático; enquanto que quem reconhece publicamente que não pode sustentar que ser homossexual seja equivalente a ser heterossexual se v?? declarado inapto para a actividade parlamentar.
??Quem se atreve hoje a dizer abertamente que aquilo que foi concebido por uma mulher s?? pode ser outro ser humano porque, de contr??rio, ela mesma também o não seria? Quem se aventura a sustentar que todo o ser humano ?? homem ou mulher antes de ter uma orienta????o sexual, e que a única orienta????o sexual normal, razoável ?? a que corresponde ao que cada um ??; ou que a única forma de conviv??ncia conjugal que ?? verdadeiramente de interesse social ?? o casamento entre um homem e uma mulher???
Debates proibidos
??O perigo que corre quem afirme tais coisas não consiste em que as suas afirma????es possam ser discutidas, como t??o pouco consiste em que possam sair dessa discuss??o finalmente refutadas. O perigo est?? em que nem sequer se admitir?? come??ar a discuti-las. E não admitir a discuss??o pressup??e não admitir, por princ??pio, a possibilidade de que determinada ideia seja verdadeira. Por outras palavras, pressup??e ter feito da diferença entre verdade e falsidade uma quest?? oque vem depois, dependente da posi????o adoptada pela nossa vontade??.
Na nova sociedade opressiva, a tentativa de introduzir certas ideias no discurso público ?? considerada uma ousadia. Não h?? lugar para o debate racional; não se admite, por princ??pio, a possibilidade de chegar a preferências razo??veis. Esta ??, segundo Alfredo Cruz, a ess??ncia do totalitarismo para o qual Orwell alertava: eliminar, a partir do poder, a diferença entre o real e o inventado.
??Quando não h?? verdadeiro debate e argumenta????o; quando não se afrontam as questões consideradas em si mesmas; quando os racioc??nios são puramente t??cticos e falazes, e apenas se nutrem do recurso pregui??oso a clich??s e palavras de ordem, a questão da verdade tornou-se irrelevante. Não ?? que o poder crie a verdade, como pretende o Partido no romance de Orwell; o poder tem agora a possibilidade de se desligar dessa tarefa totalit??ria porque, muito simplesmente, o facto de algo ser verdadeiro ou falso perdeu todo o interesse, o que abre uma via mais c??moda para o totalitarismo??.
A aus??ncia de um debate de ideias s??rio d?? lugar a uma batalha campal, onde os preconceitos e os slogans servem como armas de arremesso. Não importa se uma ideia ?? verdadeira ou falsa, ??mas se ?? progressista ou conservadora, de esquerda ou de direita, cr??tica ou dogm??tica, feminista ou machista, ou outras coisas do mesmo estilo (...); o ??nico que verdadeiramente conta ?? o peso destas etiquetas, produzidas por essa estranha mescla de simplicidade intelectual, af?? de desforra e necessidade de se redimir??.
Desta forma, cumpre-se ?? letra o romance de Orwell: o totalitarismo aparece quando o Partido tem sempre o controlo da verdade. Os que renunciam ?? discuss??o racional ??constituem o tipo de tropa, d??cil e disciplinada, de que o totalitarismo necessita, pois ser??o sempre outros, com mais poder e influência que eles, a decidir a cada momento o que passa a ser de esquerda e o que passa a ser de direita; que etiqueta vai colada a cada ideia??.

