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M?? vida, boa imprensa

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M??  vida, boa imprensa

Os mesmos meios que se não cansam de atacar Berlusconi, não j?? apenas pela sua conduta política, mas também pelos seus devaneios de play boy, e pelos seus devaneios privados. H?? que reconhecer que o político italiano proporciona muitos flancos para o ataque. Não deixa por??m de ser escandalosa essa espécie de epidemia moralista, que noutros casos poderia ter sido apelidada como de "excesso de puritanismo". A vida privada de Berlusconi converte-se assim em assunto público. ?? verdade que ?? rico e desbocado. Por??m, durante meses, a imprensa mais cr??tica de Berlusconi não parou de falar de festas na quinta da Sardenha em ambiente de luxo e frivolidade, de convites a mulheres jovens, de presentes, de grava????es feitas por uma prostituta... Neste caso, convencionou-se que estava em perigo não s?? a democracia, mas também a sanidade moral da juventude.

 

Esperar-se-ia que esses meios reagissem com o mesmo grau de indigna????o ao estalar o chamado caso Mitterrand. Ao Ministro da Cultura, que havia defendido sem reservas o cineasta Polanski, relembram pela televis??o aquilo que ele mesmo havia confessada em La mauvaise vie, novela de inspira????o autobiogr??fica publicada em 2005. A?? reconhecia o seu turismo sexual na Tail??ndia, em busca de rapazes jovens, (gar??ons): "Todos estes rituais de feira de efebos, de mercado de escravos, excitam-me enormemente". Mitterrand exprime a?? as suas contradi????es, a sua separa????o entre o desejo e a culpa, a sua torturada viv??ncia do sexo.

 

No fragor da polémica, esclareceu posteriormente que esses efebos eram de facto jovens, mas não menores, e que se tratava de uma relação consentida. Reconhecia por??m também no seu livro: "O dinheiro e o sexo estão no cora????o do meu sistema; o que afinal de contas funciona, uma vez que sei que me não v??o escorra??ar". Assegura também que condena o turismo sexual, e que h?? que não confundir homossexualidade com pedofilia. Assim sendo, e de acordo com estes pressupostos, não v?? qualquer raz??o para pedir a demissão de Ministro.

 

Normal. Mais marcante, por??m, ?? a não habitual compreens??o que encontrou por parte daqueles meios que habitualmente fazem gala num acerado sentido cr??tico. Claro que se reconhece que ?? feio o turismo sexual com jovens de um pa??s pobre, que est?? mal, ?? "um erro", mas não ?? um crime...


Ca??a ao homem

 

Uma reac????o t??pica ?? a do editorial assinado pelo director do Le Monde, Eric Fottorino, que conclui, dizendo: "O livro era conhecido? Sim. Mitterrand cometeu uma viola????o? N??o. Ser?? a homossexualidade um crime, um delito? De todo. Ent??o? Pois se o Ministro da Cultura não mentiu sobre a idade dos seus partners sexuais, o linchamento de que ?? vítima ?? uma mancha sobre todos aqueles que, em nome de interesses mesquinhos, "bailam ao som da m??sica que tocam".

 

Ent??o? Ser?? pelos vistos um delito pensar sequer sobre se uma personalidade com tal perfil e antecedentes, ser?? a mais adequada para representar a cultura francesa no mundo. Pelos vistos, o pressuposto de que a homossexualidade não seja um crime, justificar?? que ningu??m se permita fazer seja que ju??zo for acerca da conduta do Ministro.

 

O Le Monde e outros meios que denunciavam o risco que corre a liberdade de imprensa em It??lia porque Berlusconi pretende calar as cr??ticas, consideram agora que os ataques contra Mitterrand não são mais que "uma ca??a ao homem", um "linchamento" medi??tico. Se o atrevimento de Berlusconi em defender a sua conduta era qualificado de "descaramento", as confiss??es de Mitterrand no seu livro não são mais que um exercício de "sinceridade".

 

Para al??m disso, o primeiro ataque contra Mitterrand foi lançado por Marine Le Pen, membro da direitista Frente Nacional. E j?? se sabe que qualquer coisa que venha da Frente Nacional, s?? pode ser desprezada por um democrata; seja ou não verdade, isso pouco interessa.

 

Imaginemos o que se teria dito se algu??m tivesse provas de que Berlusconi se dedicara ao turismo sexual, comprando jovens em pa??ses pobres, ainda que com o cora????o despeda??ado. Conceder-se-lhe-ia o benef??cio da dúvida acerca da idade das jovens prostitutas? Considerar-se-ia o acto como um simples erro?

 

Coura??a medi??tica

 

?? dif??cil explicar este tipo de tratamento desigual, a não ser por essa defer??ncia que hoje se tem na imprensa de muitos pa??ses europeus para com as celebridades homossexuais. Porque ainda que muitas vezes se apresentem os homossexuais como vítimas dos preconceitos, na realidade muitas vezes a homossexualidade funciona hoje como uma espécie de coura??a para justificar condutas que seriam inadmiss??veis noutros casos.

 

Os que apoiam Mitterrand argumentam que o que agora ?? motivo de esc??ndalo, era conhecido desde que o livro havia sido publicado, em 2005, altura em que foi aplaudido pela cr??tica, devido ?? sua "aud??cia literária" e ?? sua "an??lise desinibida" da homossexualidade. Tudo isto leva a questionar se a cr??tica poderia ter aceite com a mesma complac??ncia um caso de turismo sexual não protagonizado por um gay. Vive-se tanto o costume de incensar o mero facto de "sair do arm??rio", que parece de mau tom questionar se aquilo que sai ?? vista ?? ou não algo de que cada um tenha boas raz??es para se envergonhar. Mitterrand ?? um homossexual que nunca ocultou a sua condi????o. Mais, a sua escolha para ministro por parte de Sarkozy, foi muito justificada pelo apelido que tinha, e pela sua orienta????o sexual, como mais uma demonstra????o da política de abertura do Presidente. No entanto, quem sobe ??s luzes da ribalta política, tem também que estar aberto ?? cr??tica. E se algu??m conta as suas intimidades num livro, deve estar aberto ?? reac????o dos leitores. A política não ?? um mero passeio tur??stico.


Ignacio Ar??chaga