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Claude L??vi-Strauss: A igualdade radical do ser humano

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Claude L??vi-Strauss: A igualdade radical do ser humano

O primeiro livro foi o seu ??nico estudo de campo, no Brasil, numa tribo da Amaz??nia. A partir da?? caracterizou-se sobretudo por especula????o baseada no estruturalismo, sofistica????o derivada de comprovar algo t??o elementar como isto: subjacentes ??s mudanças e transforma????es culturais h?? estruturas , regras ou sistemas de funcionamento de dura????o muito maior ou até permanente. O que sucede com a l??ngua, acontece com a organiza????o familiar, a gastronomia, a economia, praticamente com tudo.

 

O estruturalismo, como moda, j?? passou h?? tempos. Mas o que L??vi-Strauss veio recordar ?? algo bem conhecido e antigo: que h?? muitas coisas comuns nas culturas humanas; que as diferenças são quase sempre acidentais; que o homem ?? homem em toda a parte, com a mesma dignidade... Isto ??, afirma????es que a boa filosofia (e antes, algumas religi??es) tinham feito por sua própria conta sem terem que esperar pelo estruturalismo. A cera humana pode ser moldada em m??ltiplas figuras e modalidades, mas ?? sempre a mesma.

 

Desse estruturalismo pode haver muitas vers??es: umas espiritualistas, outras materialistas. L??vi-Strauss apostou por um materialismo em que o ser humano era "uma coisa entre coisas". Materialismo que não ligava bem com a emo????o que soube transmitir num dos seus melhores livros, possivelmente o melhor, Tristes tropiques (1955), que não ?? literatura cient??fica, mas sim um relato de fic????o.

 

O estruturalismo significou um certo tratamento de urg??ncia para uma filosofia demasiado gen??rica e "abstracta". O estruturalismo convinha aos c??rculos filos??ficos positivistas, porque se apresentava como ci??ncia estrita. Mas, ao mesmo tempo, nesses anos, muitos intelectuais estavam ainda na gal??xia marxista e tiveram que fazer uma alian??a entre o marxismo e o estruturalismo.

 

O marxismo de L??vi-Strauss foi muito discutido, mas o autor nunca o negou. Em Tristes tr??picos, l??-se: "pelos meus 17 anos fui iniciado no marxismo... A leitura de Marx arrebatou-me tanto mais que, atrav??s deste grande pensador, me punha pela primeira vez em contacto com a corrente filos??fica que vai de Kant a Hegel. A partir desse instante, esse fervor nunca se viu contrariado e raramente me ponho a resolver um problema de sociologia ou de etnologia sem vivificar previamente a minha reflex??o com algumas p??ginas do 18 Brum??rio de Lu??s Bonaparte ou da Cr??tica da economia política". O que pode dizer muito ou quase nada. Sobretudo hoje, altura em que a obra de Marx se pode estudar serenamente e distinguir entre contributos de an??lises e erros e falsifica????es de fundo.

 

Enterrar um autor com quase 101 anos ?? como enterrar um monumento hist??rico. Os tempos e as modas são implac??veis. A paisagem cultural em que L??vi-Strauss foi famoso h?? muito que nada mais ?? que um palco gasto. Restam de si, tecnicamente, umas an??lises quase de matem??ticas gerais sobre aspectos da cultura. E para o grande público, o seu empenho em demonstrar a vacuidade do termo ra??a e a defesa da igual dignidade entre o primitivo e o civilizado. Por detr??s da m??scara do homem tecnológico não est?? o homem primitivo, mas sim a m??scara que o primitivo usava, tal como o de hoje, para representar o seu lugar no mundo.


Rafael G??mez P??rez