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O Papa e os abusos nos Estados Unidos: o que o ???Times??? não conta

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O Papa e os abusos nos Estados Unidos: o que o ???Times??? não conta

O artigo de Laurie Goodstein no New York Times defende que em 1966 o Card. Joseph Ratzinger, na altura prefeito da Congrega????o para a Doutrina da F?? (CDF), não teve em consideração as peti????es do arcebispo, Mons. Rembert Weakland, para que se abrisse um processo contra um sacerdote acusado de abuso de menores. Goodstein baseia-se em documentos eclesi??sticos "recentemente vindos a lume", no decorrer de uma ac????o judicial iniciada contra a arquidiocese por cinco das vítimas. Os advogados dos queixosos facilitaram os documentos.

 

Segundo Goodstein, os factos sucederam do seguinte modo:

 

- O sacerdote acusado, Lawrence Murphy, trabalhou de 1950 a 1974 numa institui????o para crianças surdas, St. John's School, da qual foi nomeado director em 1963. Ali abusou sexualmente de muitos alunos, talvez 200.

 

- Apesar das den??ncias que come??aram a chegar, os superiores nunca julgaram nem castigaram Murphy; apenas, em 1974, o afastaram de St. John's mudando-o para a diocese de Superior, onde passou os seus restantes 24 anos de vida "trabalhando livremente com crianças" em par??quias, escolas e um centro de reclus??o para jovens delinquentes.

 

- A arquidiocese nunca informou as autoridades civis. Mas a polícia e os fiscais, por sua vez, não fizeram caso das den??ncias apresentadas pelas vítimas.

 

- Como em 1993 chegaram mais den??ncias ?? arquidiocese sobre abusos anteriores a 1974, Mons. Weakland fez com que uma assistente social, especialista em ped??filos, examinasse Murphy. A conclusão de tr??s dias de entrevistas foi que Murphy tinha confessado os factos, que provavelmente tinha tido contactos com uns 200 rapazes e não mostrava arrependimento.

 

- Mons. Weakland, contudo, até 1996, não tentou que Murphy fosse excluído do minist??rio sacerdotal. Nesse ano, escreveu duas cartas sobre o caso ao Card. Ratzinger, das quais não teve resposta. Ao fim de oito meses, o secret??rio da Congrega????o, Tarcisio Bertone - actualmente cardeal secret??rio de Estado - informou que se havia aberto um processo can??nico contra Murphy.

 

- Murphy escreveu ao Card. Ratzinger em 1998 a pedir que se desistisse do processo aberto contra ele. Alegava que estava em idade avan??ada e com sa??de fr??gil, e que as normas can??nicas fixavam o espa??o de um m??s entre o cometimento do delito e a abertura do processo.

 

- Na sequência deste recurso de Murphy ao Card. Ratzinger, Mons. Bertone "parou" o processo.

 

- Em Maio de 1998 houve uma reunião no Vaticano, em que Mons. Weakland - segundo ele próprio disse ?? jornalista - não conseguiu convencer Mons. Bertone e outros membros da Congrega????o a autorizarem o processo para afastar Murphy do sacerd??cio. Murphy morreu de morte natural em Agosto seguinte.


Relato Selectivo

 

Goodstein argumenta que o prefeito e a Congrega????o primeiro foram atrasando, depois puseram obst??culos e, por fim, impediram o processo contra Murphy. Contudo, o exame dos documentos publicados permite descobrir que esta tese se apoia numa exposição selectiva dos factos.

 

Goodstein não explica por que chegou o caso Murphy ?? Santa S??. Weakland dirigiu-se a Ratzinger, quando soube que alguns dos delitos denunciados eram de solicita????o, ou seja, comprometidos pelo confession??rio. Da?? se concluiu que estavam sob a jurisdi????o da CDF, e era necessária autoriza????o para prosseguir.

 

Seja qual for a raz??o por que Ratzinger ou a CDF não tenham respondido de imediato, isto não impediu a abertura do processo penal contra Murphy, aspecto que Goodstein nem menciona. O seu relato salta da carta de Ratzinger em Julho de 1996 para a resposta de Bertone em Mar??o de 1997 com as instru????es para abrir o processo. A documenta????o mostra que Weakland j?? o tinha iniciado em 22-11-1966.

 

Ao confirmar a autoriza????o para processar Murphy por solicita????o, Bertone adiantou, al??m disso, que as normas processuais vigentes, que deveria seguir, eram as de uma instru????o de 1962 sobre o modo de investigar e julgar tais delitos. Por isso se abandona o processo original e se come??a outro, conforme ao procedimento espec??fico.

 

Depois, o tribunal apercebe-se de que, segundo a instru????o de 1962, o bispo competente para julgar o caso ?? o da diocese onde vive o acusado, neste caso, a de Superior. Isto obriga a encerrar o processo em Milwaukee e pedir a Mons. Fliss para abrir outro, o que ele faz em 14-12-1997.

 

A abertura sucessiva dos processos inv??lidos, antes de iniciar o terceiro e definitivo, ocasionou demoras, mas a culpa não foi da CDF.

 

Dados silenciados

 

Nem se concluiu o processo em Superior, segundo Goodstein, porque a CDF aceitou os argumentos de Murphy na sua carta de 12-01-1998 a Ratzinger. "O cardeal Bertone - l??-se no início do artigo - parou o processo, depois de o Padre Murphy ter escrito pessoalmente ao cardeal Ratzinger alegando que não devia ser levado a tribunal, porque j?? estava arrependido e a sua sa??de era m??, e porque o caso havia prescrito". At?? ao fim, Goodstein insiste: "a tentativa de expulsar o Padre Murphy teve um final s??bito depois de o sacerdote ter apelado ao cardeal Ratzinger".

 

?? aqui que as omiss??es de Goodstein operam a maior deturpa????o. Primeiro, o final não foi propriamente "s??bito", pois as acusa????es não foram retiradas sen??o sete meses depois da carta de Murphy e quatro depois de Bertone ter informado Fliss das alega????es do acusado, para que as tivesse em conta. Nem Goodstein disse que, em 19-08-1998, quando Weakland comunicou ?? CDF que abandonava o caso, acrescentou que come??aria imediatamente um processo administrativo para declarar Murphy incapaz de exercer o seu minist??rio.

 

?? verdade que, na sua carta a Fliss (6-04-1998), Bertone p??s em causa a conveni??ncia prosseguir a causa penal contra Murphy, e recomendou que se tomassem primeiro medidas pastorais; e, em posterior reunião no Vaticano com ele, com Weakland e outros (30-05-1998), insistiu no mesmo. Mas Goodstein silencia dados cruciais.


Outro caso semelhante

 

Não disse que, na carta a Ratzinger de 17-07-1996, Weakland, referiu também um outro caso antigo de um sacerdote acusado de abuso de menores e solicita????o. A resposta de Bertone (24-03-1997) refere-se aos dois casos e autoriza a abertura dos dois processos. O do outro sacerdote terminou com a condena????o e exclus??o do estado clerical (est?? pendente o recurso).

 

A tese expressa no título do artigo, "o Vaticano recusou expulsar um sacerdote dos Estados Unidos que abusou de crianças" (para evitar um esc??ndalo que mancharia o bom nome da Igreja, segundo a interpreta????o de Goodstein), levanta dúvidas se ?? que, num caso simult??neo e paralelo, a mesma CDF não faz nenhum reparo. A que se deve a diferença?

 

Como se pode ler nos documentos, o segundo acusado tinha confessado os seus delitos perante tr??s testemunhas, não vítimas, que assim o declararam sob juramento. No que diz respeito a Murphy, s?? havia um relatório manuscrito da assistente social que o entrevistou; mas o próprio negou sempre os factos, tanto na fase de investiga????o como nas suas declara????es uma vez levado a julgamento.

 

Por isso, na reunião de 30-05-1998, Bertone e outros da CDF defenderam que não havia base suficiente para um processo penal. O longo tempo decorrido, 24 anos sem novas den??ncias, tornava muito dif??cil comprovar a solicita????o no julgamento, a falta de confiss??o da parte. E se não havia indícios de abusos desde 1974, Bertone não via a utilidade das ac????es penais contra um acusado que parecia prestes a morrer.

 

A recomenda????o de Bertone foi a de proibir Murphy de todo o minist??rio com surdos e admoest??-lo a manifestar arrependimento, advertindo-o de que, se o não fizesse, ser-lhe-iam impostas san????es mais pesadas, inclusive e em último caso, a exclus??o do estado clerical.

 

Bertone não estava enganado. Como se comprovou, antes que passassem tr??s meses, o processo não se havia podido concluir: Murphy morreu no dia 21-08-1998.


Sem Ratzinger não haveria história

 

O mais censur??vel no modo como foi conduzido o caso Murphy ?? que para as primeiras den??ncias não tinha havido reac????o eficaz por parte das autoridades eclesi??sticas. Nem intervieram as civis, que rejeitaram as acusa????es duas vezes, em 1973 e 1974, porque os factos tinham prescrito. Alguma coisa fez a diocese, ao afastar Murphy de St. John's. Mas nem a diocese, nem a polícia investigaram mais para averiguar se Murphy tinha cometido abusos mais recentes ou se continuava a ser um perigo para os menores. Foi preciso passarem quase vinte anos para que novas den??ncias sobre a ??poca de Murphy surgissem a tentar esclarecer os factos.

 

Isto nunca se conseguir??. Uma boa parte dos documentos obtidos por Goodstein tinham sido tornados públicos o ano passado pela organiza????o de vítimas que interp??s um processo civil ?? diocese. O que parece revelar Goodstein pela primeira vez ?? a correspond??ncia entre os bispos e o Vaticano. Por a?? se v?? que a notifica????o ?? CDF chegou ao fim, quase vinte e cinco anos depois das primeiras den??ncias, e quando come??ava a ver-se próxima a morte de Murphy. A interven????o do dicast??rio no decurso do último ano e meio não teria podido recuperar o que não se fez nas duas décadas anteriores.

 

Mas ?? frente da CDF estava o actual Papa, e ?? isto que proporciona a história ?? jornalista. Goodstein poderia ter intitulado: "O Vaticano autorizou a expuls??o de um sacerdote dos Estados Unidos que abusou de crianças", referindo-se ao outro acusado de Milwaukee. O interesse de Goodstein, contudo, parece ser relacionar Bento XVI com algum caso passado de abusos mal conduzidos, como o de Munique. F??-lo com uma apresenta????o selectiva de dados, o que equivale a desinformação.

 

Rafael Serrano