John Wayne não chorava
Quando nos referimos ao "excesso de sentimentalismo" na fic????o televisiva, não estamos a falar apenas das telenovelas ma??adoras, inundadas com paix??es descontroladas. Queremos destacar que também em s??ries como 24, Her??is ou Dexter se descobrem traços dessa tendência de argumento, mesmo que se trate de outro tipo de sentimentos. O sentimentalismo não se reduz a situações ou personagens em que o amor ou os namoros são o modelo principal; Michael Scofield, protagonista de Prison Break, ?? estudado em escolas de negócios como modelo de l??der inteligente com capacidades emocionais. Outro tanto poderia ser feito com Jack Shephard ou John Locke, de Perdidos. E nenhuma dessas s??ries se centra em paix??es e namoros.
De um personagem adulto esperamos uma resposta reflexiva aos sentimentos que mostra no ecr??; se não for assim, ir?? parecer-nos infantil, imaturo ou mal constru??do
Esta cr??tica ao sentimentalismo não pretende negar ou menosprezar o valor dos sentimentos. Fazem parte da nossa natureza humana, como os afectos, a imaginação ou a mem??ria e, num nível superior, a intelig??ncia ou a vontade. Os sentimentos refor??am as tendências naturais e colaboram no forjar do nosso carácter. Para alguns, constituem uma mostra de fraqueza; mas, se os sentimentos forem em justa propor????o, ajudam o desenvolvimento pessoal e a nossa relação com os outros. S??o os sentimentos, em primeira inst??ncia, aquilo que desejam ardentemente os personagens ficcionais de origem cibern??tica (os cyborgs de Battlestar Galactica ou o robot Terminator de The Sarah Connor Chronicles, para dar exemplos próximos no ecr?? televisivo), entre outras coisas, porque os sentimentos não se podem programar e são genuinamente "humanos".
Clarificando os sentimentos
Para definir os sentimentos, mesmo que de modo gen??rico, seguimos o esquema utilizado por Javier Aranguren no manual de Antropologia (1) que editou com Ricardo Yepes Stork. Os autores decomp??em o sentimento em quatro elementos: um objecto desencadeador, juntamente com as suas circunst??ncias (um le??o no corredor); uma emo????o ou perturba????o an??mica (medo); altera????es org??nicas ou sintomas f??sicos (palpita????es e suor frio), e, por último, uma conduta ou manifesta????o (sair a correr).
?? um clássico das com??dias adolescentes a incapacidade de expressar os sentimentos
Os argumentistas aproveitam as emo????es como recurso b??sico para desenhar os seus personagens e as sequências de muitas s??ries assentam sobre este mesmo esquema. Com esta premissa, quando um personagem est?? bem desenvolvido, parece-nos "mais real" (ou mais cred??vel) porque entendemos que a sua actua????o - ac????o, emo????o, reflex??o e reac????o - se identifica melhor com o modelo de pessoa que nos formou. Os personagens menos trabalhados, pelo contr??rio, parecem-nos estere??tipos. Quando se trata de personagens adultos, esperamos intuitivamente uma resposta reflexiva aos sentimentos que mostram no ecr??. Se o personagem não d?? esse passo, vai-nos parecer infantil, imaturo ou, pior, mal constru??do.
?? um problema que se coloca normalmente em muitas s??ries de fic????o: adultos que se comportam como adolescentes e acabam por ser pouco cred??veis e, no final, aborrecidos (assim terminaram algumas sitcoms de produção espanhola que tiveram arranques prometedores, como Aqu?? no hay quien viva, por exemplo, ou Aida). Nada a ver com a perspectiva da m??tica Friends, na qual os "jovens adultos" (como agora se denomina o segmento populacional que Rachel, Joey e os seus amigos representam) tentam amadurecer, embora com ??xito duvidoso. Essa imaturidade e os seus conflitos são a base da sitcom con maior sucesso e influência da história.
O processo de amadurecimento significa, entre outros traços, o melhor domínio de sentimentos e emo????es. Os sentimentos são uma reac????o natural perante o que nos rodeia, mas essa reac????o espera ser moderada pela reflex??o (intelig??ncia e vontade): necessitamos de ajustar as nossas tendências (desejos, impulsos), manifestadas pelos sentimentos, para que se d?? um certo equil??brio entre essas tendências (o que sentimos) e a realidade que nos rodeia. Quando a realidade que percebemos e as emo????es que sentimos não caminham paralelamente, surge uma falta de harmonia, um conflito. Em determinada etapa das nossas vidas, para alguns a crise parece ter maior protagonismo. Na adolesc??ncia, praticamente para todos.
Vampiros e adolescentes
Como explica Aranguren, os sentimentos não t??m ainda "maioridade; a verdade ?? que quando são deixados actuar sozinhos, podem crescer desmesuradamente e causar anomalias e patologias". Anomalias e patologias habilmente exploradas, por exemplo, na fic????o com vampiros. Come??ou com Buffy, que acrescentou ??s suas fileiras o vampiro bom (que, certamente, conseguiu de imediato a sua própria s??rie); mas Buffy passou da high school para o college e perdeu parte do seu encanto (embora tenha acabado por se converter num simp??tico musical). Na televis??o brit??nica inventaram o Young Dracula, mas foi despedido ao fim de meia d??zia de temporadas e o jovem Dr??cula não deixou de ser um pre-teen. A seguir entraram os vampiros adolescentes, pela m??o dos livros e dos filmes subsequentes.
Em televis??o souberam j?? explorar o fil??o de emo????es efervescentes e vampiros. Tanto em True Blood - com argumentos menos previs??veis e conteúdo adulto-, como em The Vampire Diaries - vampiros adolescentes, com tudo o que acarreta de estereotipo e superficialidade-, os sentimentos (sem se discutir se são bons ou maus) são critérios de conduta. Não podia esperar-se menos de criaturas que s??o, por defini????o, paradigma de afectividade exaltada (os adolescentes, não os vampiros). No entanto, o tom destas duas s??ries ?? radicalmente oposto; em True Blood, o vampirismo ?? um acrescento aos enredos s??rdidos de telenovela com ar de thriller e termina por reduzir o ??mbito da sua audi??ncia. Pelo contr??rio, The Vampire Diaries, como os romances e filmes da saga Crep??sculo, incluem uma maior carga de sensualidade e intriga.
Sabes como me sinto?
O sentimentalismo pode ser um problema porque implica deixar a nossa conduta nas m??os de uma parte da nossa personalidade que não controlamos totalmente. Os sentimentos não são sempre d??ceis para a nossa intelig??ncia ou para a nossa vontade.
Em s??ries e outros programas de TV, verifica-se muitas vezes esta disfun????o. Os participantes no concurso do Big Brother (neste contexto consideramo-los também um programa de fic????o) confessam os seus amores e desencontros, que não passam de mero sentimento, pondo em evid??ncia a sua falta de maturidade afectiva. De igual modo, os pseudo-adolescentes de Sensaci??n de vivir (seja o original Beverly Hills 90210 ou o seu recente remake) movimentam-se continuamente pelo puro sentimento: poucos se det??m a raciocinar ou reflectir sobre "o que sentem", embora todos falem disso, e com todos.
Em Gossip Girl, Serena e Blair, as duas protagonistas, não param de falar sobre como se sentem; também os rapazes falam entre eles sobre os seus sentimentos -impag??vel a relação do paran??ico Chuck como mentor do confuso Eric-; mas nem umas nem outros parecem parar para reflectir sobre como deveriam actuar "apesar do que sentem". Os rapazes e raparigas de F??sica ou Qu??mica, pelo contr??rio, parecem movimentar-se mais por instinto: "Isso, o que ??? -perguntava um personagem da s??rie, referindo-se a um dos casais protagonistas-: uma relação sentimental ou um document??rio de animais?"
O medo, um sentimento natural, pode desembocar em cobardia e levar a actuar precipitadamente. Mas, que acontece quando a ac????o pretende simular situações reais, mesmo que extremas? Os l??deres dos Estados Unidos retratados em muitas s??ries acabam por actuar com base nos sentimentos e nas emo????es imediatas, com pouca margem para a reflex??o volunt??ria. E temos assim histórias em que a ac????o da justi??a termina em vingan??a (24, FlashForward e Prison Break, por exemplo) ou, na vida real, fenómenos como a guerra preventiva contra o terrorismo.
Os argumentos da 24, a s??rie que Kiefer Sutherland protagoniza como o agente anti-terrorista Jack Bauer, esclarecem-nos sobre os sacrif??cios que devem fazer aqueles que nos defendem do terrorismo (a vida familiar de Jack Bauer ?? uma catástrofe) e sobre os dilemas ??ticos que enfrentam os defensores da lei. Nessas trepidantes jornadas de 24 horas, os responsáveis políticos costumam deparar com situações sem precedentes, que exigem decisões rápidas e não podem esperar o funcionamento dos mecanismos legais porque talvez as ac????es que resultem das suas decisões não tenham justificação legal. Com desesperante frequ??ncia, comprovamos que esses l??deres políticos retratados, no momento da verdade, actuam atormentados pelas suas emo????es... ou por uma aus??ncia total de sentimentos. De qualquer forma, muito pouco humanos.
Sentimentos e avalia????o moral
Se os sentimentos resultam num perigo quando se tomam como modelo de conduta, mais perigosa ainda pode vir a ser a posi????o dos que baseiam as suas avalia????es morais em sentimentos ou emo????es. Isso porque, nesse caso, a ambiguidade que se gera entre ac????es e intenções acaba por ofuscar o mais clarividente.
Em Her??is, um dos personagens chega ?? (suposta) justificação moral dos que actuam movidos pelos seus sentimentos, sejam nobres ou n??o: ningu??m nos pode exigir responsabilidades por ac????es em que incorremos espontaneamente, porque são naturais e, por conseguinte, não critic??veis. Sylar, um dos personagens mais completos da s??rie Her??is, utiliza sentimentos e emo????es, numa longa conversa com o seu pai biológico, como justificação moral definitiva. Acaba por concluir: "A moralidade não faz sentido: os p??ssaros voam, os peixes nadam, os assassinos matam."
Mas a evasiva completa sobre o valor dos sentimentos na conduta e, consequentemente, o seu valor como critério de comportamento social, chega-nos pela m??o de Dexter, o forense demente que compagina as suas actividades de polícia com as suas tendências assassinas: "Qualquer pessoa pode ser encantadora se não se importar em mentir e em calar todas as coisas est??pidas, ??bvias e nauseabundas que a consciência costuma reprimir na maioria de n??s. Por sorte, não tenho consciência. E digo-as".
Harmonia sentimental
No início falava-se da import??ncia da gestão dos sentimentos, do auto-domínio. A gestão mais eficaz adverte para a hierarquia entre as faculdades humanas: a vontade ?? superior ao sentimento, por exemplo; não t??m a mesma fun????o os sentidos, a percepção, a imaginação, a mem??ria, a intelig??ncia ou a vontade. H?? faculdades inferiores (sentidos, imaginação, mem??ria) que servem as superiores (intelig??ncia, vontade).
Infelizmente, esta ordem nem sempre ?? completa nem ??bvia e acontecem na nossa conduta situações em que as faculdades superiores exercem uma espécie de ditadura (o pragmatismo ou o voluntarismo). S??o essas pessoas - personagens, na fic????o - que qualificamos como frias e cerebrais. As s??ries de ac????o acostumaram-nos aos espi??es, agentes duplos, sic??rios e outros que "n??o t??m sentimentos". Pelo contr??rio, o protagonista costuma acabar por ser um agente (como Alias, por exemplo, ou Paco, o comiss??rio local em Espanha) que tenta compaginar ambas as facetas.
Noutras situações, a conduta dominada pelo sentimento em vez da reflex??o termina numa depend??ncia dos estados de ??nimo, das circunst??ncias. Nas telenovelas -ou suced??neos sofisticados, tipo Mulheres desesperadas ou Gossip Girl -, abunda este outro tipo de personagens. Susan Mayer ?? a "mulher desesperada" paradigma do sentimentalismo na hora de actuar; Bree Hodge, outra "desesperada", ?? justamente o modelo contr??rio: fria e calculista, mas s?? para guardar as apar??ncias, porque foi educada para esconder os sentimentos, embora os possua da mesma forma que as suas amigas.
O importante ?? a conduta
Como enfrentarmos os nossos sentimentos? Como saber quando actuamos movidos por eles?
A conduta, embora ??s vezes seja involunt??ria ou pouco consciente, ?? aquilo que na verdade p??e em relevo os sentimentos. O importante não ?? como uma pessoa se sente em relação a outra, mas como actua relativamente a ela: diz que gosta de mim - sentimento -, mas ignora-me ou maltrata-me - atitude, conduta -. Uma boa norma de actua????o seria, sem negar a influência dos sentimentos, considerar até que ponto as nossas avalia????es correspondem ?? realidade. Por vezes, vamos descobrir que a nossa reac????o (amor, ??dio, temor, apreço...) era desproporcionada. Chegados a este ponto, partimos do princ??pio de que a audi??ncia compreende a larga dist??ncia que separa da realidade as famílias, casais e indiv??duos de programas como Beverly Hills 90210, The O.C., Gossip Girl, Dawson Creek e um longo etc.
E, como contrapartida para o "excesso de sentimentalismo", examinemos também se nos faltam esses sentimentos, porque a sua aus??ncia converte a nossa vida num deserto mon??tono. Uma s??rie sem emo????es? Poesia sem sentimento? Podemos gostar de um personagem desassossegado; mas, um personagem sem alma? ?? aborrecido.
Temos também e aprender a manifestar os sentimentos: ?? um clássico das com??dias adolescentes a incapacidade de expressar os sentimentos -normalmente, porque ningu??m lhes ensinou a reflectir sobre eles e a mostr??-los; como cantava Serrat: "en ten??em prou amb tres frases fetes, que hav??em apr??s d'antics comediants, d'hist??ries d'amor, somnis de poeta" (2)-; esses torpes sentimentalismos são um condimento imprescind??vel: j?? protagonizam a sua própria s??rie, The Big Bang Theory (as duas primeiras temporadas foram brilhantes), mas podem ver-se os seus traços em muitos outros programas, nem sempre pelo lado c??mico. Por exemplo, os rapazes de El Internado s??o outro modelo de sentimentalismo inadaptado: Marcos e, sobretudo, Iv??n avivam os enredos desse estere??tipo (nas suas m??ltiplas relações, na sua desvergonha para mostrar os seus sentimentos, na sua confus??o para os definir...), movendo-se sempre em torno desse fio condutor t??o socorrido da "tens??o sexual não resolvida" -um recurso narrativo que explora precisamente a deficiente gestão dos sentimentos-.
Sentimentos para cantar
As artes visuais são ve??culos fant??sticos de express??o de sentimentos e emo????es. Cinema e televis??o entram dentro dessa categoria (?? certo que por vezes "arte" visual se torna desmedido). Mas essa restri????o não invalida o coment??rio de Aranguren quando vai ao ponto de dizer que talvez a arte seja "o modo mais sublime de expressar os sentimentos, e entre todas as artes, a m??sica ?? o ve??culo privilegiado. A m??sica tem un enorme poder de evocar e despertar os sentimentos sem os nomear, de um modo possivelmente confuso, mas que faz mover o interior das pessoas. A m??sica potencia, acompanha e expressa os sentimentos. A alegria ?? cantada, a pena também".
Nem sempre a fic????o televisiva utiliza este recurso; um tema de produção e or??amento mais do que um problema criativo. No entanto, o valor acrescentado de can????es pop e rock em muitas s??ries - The O.C., Smallville ou Dawson Creek são bons exemplos -, p??e em relevo o tom emocional que acaba por passar ao lado de grande parte da audi??ncia.
Algumas produções locais, como a surpreendente Los Protegidos - de feitura simples, mas bem trabalhada no argumento e personagens-, apontam nesse sentido com pe??as simples, em ocasi??es repetitivas, que ajudam a situar a carga sentimental das cenas. O ??xito recente de Glee, a s??rie convertida em musical ou vice-versa, ?? um bom exemplo do potencial da m??sica para o retrato de emo????es; al??m disso, o grupo de inadaptados sociais que figuram nos seus enredos acrescentam o toque "adolescente" que t??o bem se conjuga com o sentimentalismo.
Como poderemos avaliar ent??o os sentimentos na sua justa propor????o? Recordando que não s?? se mede a reac????o an??mica ou f??sica que provocam, mas sobretudo a conduta que causam. Nem sempre a reac????o an??mica ser?? imediata e duradoura, mas isso não retira valor ao sentimento. Podemos sentir amor pelos nossos pais, sem que isso signifique que nos emocionemos de cada vez que pensamos neles. O sentimento pode ser profundo mesmo que a emo????o seja passageira. A const??ncia no dia-a-dia não ser?? um carrocel de emo????o, mas manter-se-?? soando como o leitmotiv de uma boa banda sonora: umas vezes casual e divertido, outras ??pico ou nost??lgico, mas permanecer?? sempre reflectindo, e os seus silêncios ser??o também sonoros.
Mario L??pez de Astea
Notas
(1) Ricardo Yepes Stork e Javier Aranguren. Fundamentos de Antropolog??a. Un ideal de la excelencia humana. EUNSA (2001). 5?? ed.
(2) Paraules d'amor, de Joan Manuel Serrat "Bastavam-nos tr??s frases feitas, que hav??amos aprendido de velhos actores, de histórias de amor, sonhos de poeta".

