Cameron fez uma mudança de marca no seu partido
Depois dos com??cios de 6 de Maio, Gordon Brown foi o primeiro a fazer a ponte a Nick Clegg para conseguir um pacto com os liberal-democratas. O certo ?? que o l??der trabalhista ofereceu-lhe nada menos que um referendo acerca da reforma do sistema eleitoral, objectivo pelo qual o partido de Clegg andava lutando h?? décadas.
Mas o jovem candidato liberal-democrata, fiel ao que tinha dito na campanha, recordou a Brown que era ao partido com mais votos e lugares (ou seja, os conservadores) a quem correspondia dar o primeiro passo para tentar formar governo. E Cameron aproveitou a ocasi??o, limitando-se a oferecer a Clegg a concretiza????o de um comit?? que estudaria a possibilidade da reforma eleitoral. Comparada com a de Brown, a oferta era rid??cula.
Na 2?? feira, dia 10, Brown voltou ?? carga anunciando a sua demissão como l??der do partido; a ideia era abrir caminho a outro político trabalhista e assim facilitar a negocia????o com os liberal-democratas. Perante esta situação, Cameron viu-se obrigado a oferecer também a Clegg um referendo sobre a reforma eleitoral.
Depois de várias horas de negocia????o, finalmente na 3?? feira, Cameron assumiu-se como novo primeiro ministro do Reino Unido, depois do pacto com os liberal-democratas de Clegg ficando este com a pasta de vice primeiro ministro. Ambos formar??o um governo de coliga????o que, entre outras coisas, ter?? que dar resposta ?? grave situação económica que o pais atravessa.
Mudar, em qu???
- Os tr??s debates atrav??s da televis??o - os primeiros na história do Reino Unido - foram um dos elementos centrais da campanha. Alguns analistas dizem que os debates serviram para dar a conhecer melhor os programas. Outros, pelo contr??rio, queixam-se de que centraram demasiadamente a aten????o no perfil dos candidatos e pouco no conteúdo. Qual a sua opinião?
- Penso que os debates foram muito positivos e espero que continuem no futuro. De entrada, conseguiram segurar uma parte do eleitorado que, atrav??s de uma campanha tradicional, não teria aderido. Na realidade, os debates ?? que transmitiram ideias. E, se não transmitiram mais foi porque os candidatos não estavam interessados em concretizar demasiadamente as suas políticas em temas controversos, como a redu????o da despesa pública, a imigração ou as relações com a Uni??o Europeia.
?? certo que os debates puseram em relevo o perfil dos candidatos, mas julgo que isso foi positivo. Numa democracia, as decisões eleitorais baseiam-se também em opini??es sobre a personalidade dos candidatos. A maneira de ser e o carácter duma pessoa dizem muito acerca da credibilidade do seu projecto político.
- Outro dos pontos-chave destas eleições foram os desejos de mudança da sociedade brit??nica. Ao contr??rio de Brown, os candidatos Cameron e Clegg foram-se apresentando como capazes de criar expectativas. Quais s??o, concretamente, esses desejos de mudança?
- Parece-me que os desejos de mudança dos brit??nicos nascem, sobretudo, do desencanto perante a política tradicional. Acresce ainda a percepção de que Westminster (a C??mara dos Comuns) converteu-se num lugar onde os políticos se re??nem para discutir os seus próprios interesses. Esta impress??o popular seria refor??ada pelo esc??ndalo das despesas dos deputados. Tamb??m h?? muitos votantes descontentes com o sistema eleitoral brit??nico, porque pensam que o seu voto não serve para nada.
De salientar que, no momento de votar, teve muito peso o actual contexto da crise económica. Da?? que o eleitorado, com cerca de 30% de indecisos, tenha optado pelo " mal conhecido". Apesar do entusiasmo que Nick Clegg despertou entre os jovens, o verdadeiro duelo deu-se entre conservadores e trabalhistas. Isto explica-se porque, em tempos de crise, a maioria do eleitorado foge de novas experiências. Como disse Abraham Lincoln, quando se est?? a atravessar um rio não nos passa pela cabe??a mudar de cavalo.
"A proposta de mudança de David Cameron ?? muito menos radical e menos definida do que as, ent??o, apresentadas por Margaret Thatcher ou por Tony Blair"
No respeita ?? proposta de mudança de David Cameron, na minha opinião o seu programa ?? muito menos radical dos que, ent??o, foram apresentados por Margaret Thatcher ou por Tony Blair. E, sobretudo, est?? menos definido. Durante os anos que leva ?? frente dos conservadores, Cameron fez uma mudança de marca do partido. Mas as ideias do seu programa, sobretudo as relativas a uma "grande sociedade" (dar aos cidad??os mais protagonismo na vida quotidiana atrav??s das comunidades locais) são bastante difusas. Creio que o eleitorado não sabe muito bem qual ?? o pensamento de Cameron.
A economia, tema capital
- Tendo em conta os debates televisivos, fica-se com impress??o de que os problemas que mais preocupam agora os brit??nicos são de ??ndole pr??tica: redu????o do deficit público, reforma eleitoral, política fiscal ou financiamento dos serviços públicos. Com efeito, apenas houve um ??nico debate acerca dos valores e princ??pios que inspiram cada partido.
- Efectivamente, o discurso dos liberal-democratas foi muito parecido ao dos trabalhistas, cujo eixo central ?? o conceito de "fair society". Não podemos esquecer que o Partido Liberal-Democrata ?? um dos mais antigos do Reino Unido e alberga diferentes tendências. Isto dificulta a tarefa de articular uma mensagem comum.
"Cameron recorreu ?? ideia de "a grande sociedade", sem que as pessoas tenham tido tempo de a assimilar"
Os conservadores tentaram fazer um processo de redefini????o a partir da ideia do novo " centro compassivo". Mas esta mensagem foi desaparecendo da agenda de Cameron ?? medida que se aproximavam as eleições. Ent??o recorreu ?? ideia de "a grande sociedade", sem que as pessoas tenham tido tempo de a assimilar.
Presentemente, o tema que mais preocupa os brit??nicos ?? a economia. Como vamos solucionar o nosso deficit público? Esta ?? a grande pergunta que domina a mente dos eleitores.
- Parece que o novo primeiro ministro não vai ter a vida nada f??cil. H?? alguns dias, o governador do Banco de Inglaterra, Mervyn King, referiu, em conversa privada, que o novo governo teria que adoptar medidas t??o impopulares para sair da crise económica, que não voltaria a governar durante uma gera????o. Estar?? King a exagerar?
- Na verdade, a mensagem de King assusta. Os brit??nicos sabem que tempos dif??ceis estão a chegar; vai haver penaliza????es s??rias que ir??o sentir-se em todos os sectores do pa??s. Mas nas circunst??ncias actuais, em que o mais prov??vel ser?? termos um governo formado por acordo entre dois partidos, a responsabilidade ficaria repartida. Isto faria ver ?? sociedade brit??nica que a única op????o seria a austeridade. Por outro lado, não podemos esquecer que muitos culpam os trabalhistas da actual situação económica. Isto, em minha opinião justificaria parte da hostilidade referida por King.
Ent??o, com que Cameron ficamos?
- Apesar das tentativas de Cameron se apresentar perante o eleitorado como algu??m próximo e am??vel, alguns meios brit??nicos julgam que o l??der tory não conseguiu erradicar a desconfian??a que pesa sobre o seu partido. Que problema t??m os conservadores no Reino Unido?
- O problema existe, sobretudo, na Esc??cia. Ali continua a ter muito peso a rejei????o ao legado de Thatcher e, concretamente, ao estilo radical com que implantou o seu modelo económico. Nalguns sectores, este facto alimentou um ressentimento em relação ?? sua pessoa - que quase ro??a o ??dio - e, por extens??o, aos conservadores.
No resto do Reino Unido também aparece este problema nalgumas zonas. Por exemplo, quando eu vivia em Sheffield - cidade tradicionalmente industrial, famosa pelo a??o e minas de carv??o - as reformas de Thatcher tiveram um efeito devastador, deixando muita gente no desemprego. Não ponho em causa que essas medidas fossem necessárias, mas o mais grave foi não ter havido a seguir nenhum plano de apoio nem de reinser????o desses trabalhadores.
A este estado de coisas haver?? que acrescentar um problema de "famílias políticas". H?? pessoas que nunca votar??o nos conservadores, porque os associam com a classe privilegiada. E, nem os antecedentes de Cameron nem os da sua equipa mais próxima contribuíram para desfazer esta percepção, por muito que se esfor??assem em ser am??veis.
- Antes de Cameron adoptar a ideia do novo "bloco central" - centrado na promo????o da justi??a social, nos valores familiares e na sociedade civil - alguns analistas puseram em dúvida o entusiasmo do l??der tory por estes valores. Quem ??, realmente, David Cameron?
- Dentro dos conservadores existem muitas tendências. Alguns são liberais: querem estender os direitos individuais com a menor interven????o do Estado na vida das pessoas. Aqui entra, por exemplo, o debate ?? volta das uni??es do mesmo sexo; Cameron p??s muito empenho em transmitir ?? opinião pública que os conservadores não são um partido anti-gay, como talvez acontecesse na ??poca de Thatcher.
O l??der tory escolheu a bandeira da inclus??o, querendo satisfazer todas as tendências do seu partido. Mas, ao mesmo tempo, penso que sabe perfeitamente que uma sociedade que não protege a institui????o do casamento ?? uma "sociedade partida". Esta foi uma das ideias do seu programa, que se concretizou no planeamento de uma política fiscal favorável ?? Fam??lia. Na minha opinião, Cameron sabe que, sem casamentos s??lidos, a sociedade fica a perder.

