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As "performances" ou arte de ac????o

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Dentro das variadas formas da express??o art??stica p??s-moderna, difunde-se cada vez mais a performance, uma ac????o na qual o próprio sujeito ?? o elemento constitutivo da obra art??stica
As "performances" ou arte de ac????o

A data que inicia o estilha??ar da arte tal como havia sido concebida durante os s??culos anteriores pode situar-se na primeira década do s??culo XX. Mas atinge o seu auge transgressor nos anos 60, uma década onde se tentou conquistar a liberdade em todas as frentes: sexual, social, art??stica, varrendo todas as conven????es.

 

A ruptura com a beleza ?? a ponta vis??vel de um iceberg constitu??do pela quebra volunt??ria com os fundamentos que tinham sustentado até ent??o a forma de viver e entender o mundo: se não queremos beleza, que ?? o resplendor da verdade e do bem, muito menos nos importam estes, poder??amos concluir. Algumas vanguardas art??sticas -como as performances- nasceram indissoci??veis do sexo livre, de Freud e da psican??lise, em resumo, de uma transgress??o da ordem moral estabelecida.

 

??mpeto provocador


O artista de performance sai do seu est??dio para passar ?? ac????o directa

 

Esse ??mpeto provocador deu lugar a certos movimentos art??sticos que procuram as suas origens, especialmente a performance art, no início do s??culo XX, com as ac????es ao vivo de artistas de movimentos de vanguarda. S??o criadores ligados ao futurismo, ao construtivismo, ao dada??smo e ao surrealismo.

 

As primeiras actividades do Fluxus - um movimento ligado ?? performance- foram efectuadas no princ??pio dos anos 60, entre os m??ltiplos movimentos anti-arte que se sucederam: as ideias de Marcel Duchamp, o neo-dada em Nova Iorque, o nouveau r??alisme em Paris, e Zero em D??sseldorf. O Dada foi influenciado pela primeira guerra mundial, que acentuou entre muitos jovens a sensa????o de que era preciso derrubar essa velha ordem cultural que tinha justificado conflitos desse calibre.

 

Huelsenbeck e Tzara, Arp e Ball foram alguns dos que fugiram para a Su????a e fundaram em 1916 o Cabaret Voltaire, onde tiveram lugar ser??es poéticos e actos culturais provocadores. O esc??ndalo como técnica particularmente dada??sta encontrou aqui o seu primeiro desenvolvimento. Esc??ndalo e provoca????o juntamente com a ruptura relativamente ??s formas habituais de conceber a arte são ingredientes do nascimento e evolução das performances ou arte de ac????o.

 

O Fluxus, como salienta Arthur Danto, "desterrou da concepção existente de arte quase tudo aquilo em que supostamente se baseia essa distin????o, como no seguinte cat??logo parcial tomado do Manifesto Fluxus (1966) de George Maciunas: Exclusividade, Individualidade, Ambi????o ... Transcend??ncia, Raridade, Inspira????o, Habilidade, Complexidade, Profundidade, Grandeza, Valor Institucional e Comercial". (El abuso de la belleza, Paid??s, p. 63).

 

A ideia ?? o que importa

 

Se a ideia ?? o que importa, não h?? raz??o para se "materializar" num objecto, mas sim expressar-se ao vivo

 

Estas novas formas art??sticas chamadas performances e relacionadas com o Fluxus, com o Dada e com o surrealismo, desejavam romper radicalmente com a produção de artefactos. Se a ideia ?? o que importa, não h?? raz??o para se "materializar" num objecto, mas sim expressar-se ao vivo. Concebiam uma nova forma de fazer arte ou de se relacionar com um público a partir do esc??ndalo, do risco f??sico, da experimenta????o com o próprio corpo, da violência e do sexo.

 

Performances e happenings come??aram mais ou menos em paralelo. Estes consistiam num evento sem regras nem estrutura narrativa convencional e tinham como objectivo principal aproximar-se da vida quotidiana. Allan Karpov (1927) p??s na moda esta nova forma de cria????o com a sua obra 18 happenings in 6 parts, apresentada em 1959 na Reuben Gallery de Nova Iorque. Ele próprio salientou que as ac????es não significavam nada que pudesse ser formulado claramente, e a palavra happening significava algo espont??neo, algo que acaba de se produzir. Karpov, juntamente com outros pioneiros da performance, como os seus colegas Jim Dine, George Brecht, Al Hansen e Robert Whitman, tinha recebido a influência de John Cage (1912-1992), o c??lebre m??sico, impulsionador de performances inspiradas no budismo zen.

 

Em 1952, Cage tinha organizado no Black Mountain College, na Carolina do Norte, um espect??culo que inclu??a a interpreta????o de um fragmento de m??sica para piano de David Tudor, uma dan??a improvisada por Merce Cunningham, com leitura de poemas inclu??da, enquanto o próprio Cage dava uma conferência e Robert Rauschenberg expunha quatro pinturas brancas penduradas do tecto. Nesta montagem, intitulada Theater Piece N?? 1, tudo acontecia de forma simult??nea, sem que houvesse um gui??o nem um ensaio prévio. Uma experiência que passou ?? história por se considerar o precedente dos happenings.


Uma ac????o ao vivo

 

O artista de performance sai do seu est??dio para passar ?? ac????o directa, a qual prefere realiz??-la no presente, vivendo isso como uma experiência: da?? que se chame arte de ac????o, pois isso ?? o que "produz", uma ac????o, não um objecto. Trata-se de privilegiar o acto criador sobre a própria cria????o e sair dos circuitos habituais de difusão da arte e romper a relaci??n entre artista, galeria e museu. No entanto, quase desde o início nenhum se oporia a que as rel??quias ou restos das suas ac????es ef??meras fossem recuperadas pelo sistema e entrassem nos templos art??sticos da modernidade.

 

Yves Klein, gra??as ??s suas performances conseguiu converter-se numa figura m??tica. Considerava este tipo de ac????es como um meio de "derrubar a m??scara velada do est??dio, com o objectivo de não conservar nada do seu processo criador." Precisamente, as suas antropometrias são um resto dessas performances que hoje se exp??em em diversos Museus.

 

Joan Casellas, artista de performer, na revista Exit (Novembro 2009), diz: "A energia de provoca????o que dada??stas e surrealistas cultivaram com entusiasmo, foi associada ?? arte de ac????o. As ac????es (isto ??, as ac????es performativas) mais reconhecidas costumam ter um elevado grau de risco, de escatologia, de violência ou destrui????o, costumam ser ???fortes' de algum modo que ultrapasse os parâmetros art??sticos". E conclui que a performance ou arte de ac????o não ?? um movimento ou tendência art??stica, mas um procedimento.

 

Sem c??digos definidos

 

El??stica, h??brida e perme??vel tanto nos seus prim??rdios como hoje, a arte de ac????o, as performances não t??m c??digos definidos, como salientou Nieves Correa, que juntamente com Hilario ??lvarez organizou Acci??n!09MAD. Por volta dos anos 60, as performances abasteciam-se da arte tradicional -artes pl??sticas, m??sica, poesia, teatro e dan??a- da arte popular -saltibancos, cabaret e circo-. Hoje alimentam-nas o cinema experimental, a videoarte, a instala????o e a arte digital, ao mesmo tempo que fontes extra-art??sticas como a antropologia, o jornalismo, a sociologia, a semi??tica, a lingu??stica e tradi????es populares. Interdisciplinar, ?? uma arte que transita pelos resqu??cios.

 

Se esta arte se desvinculou da produção do objecto, para assumir o corpo como sujeito, hoje as performances mais medi??ticas, famosas ou representativas, sucumbiram para se perpetuarem -como as da famosa Marina Abramovic- em fotografias e v??deos que alimentam as galerias, na rede e servem de publicidade e de ferramenta medi??tica. A transgress??o como motor da performance e a sua ruptura com os sinais de identidade da arte tal como tinha sido entendido até ent??o, estão hoje afectadas pela transgress??o constante que alimenta o meio televisivo. E a ruptura com as conven????es que marcou os anos sessenta, suavizou-se de tal modo que muitas daquelas reclama????es de liberdade sem limites são hoje objecto de leis. J?? pouco resta para transgredir, quando as próprias instituições financiam os seus cr??ticos e os seus performers.

 

Patricia Morodo

 

Dois exemplos de performances

 

Esther Ferrer no Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro, 3-04-2007

 

INTERAKCJE 2009 fragments