Leszek Ko??akowski, um fil??sofo em busca da verdade
Leszek Ko??akowski nasceu em Radom (Pol??nia) em 1927 e foi um dos fil??sofos polacos mais importantes do s??culo XX. Alcan??ou renome internacional com a publica????o, nos finais dos anos 70, de um exaustivo estudo sobre o marxismo e as suas deriva????es filos??ficas e políticas (As principais correntes do marxismo). Em tr??s grossos volumes, o fil??sofo polaco ajustava contas com a ideologia que tinha seguido cegamente depois da II Guerra Mundial, quando se filiou no Partido Comunista do seu pa??s. No entanto, cedo iniciou um processo de desmistifica????o que o levou a desconfiar de um regime marcado pelo seu carácter antidemocrático e sustentado numa ideologia com pressupostos filos??ficos d??beis.
Considerado primeiro como um revisionista, as autoridades polacas come??aram a desconfiar daquele intelectual heterodoxo que cada vez com mais ??xito criticava a falta de liberdades e o anquilosamento do sistema comunista polaco. Não ?? de estranhar que decidissem actuar contra este personagem hostil e inc??modo para o regime: em 1968, foi expulso do partido e privado da sua c??tedra de Hist??ria da Filosofia em Vars??via. Acompanhado pela mulher, Ko??akowski exilou-se e fixou-se, primeiro, na Universidade de Berkeley e, mais tarde, em Oxford, onde faleceu no passado dia 17 de Julho.
As principais correntes do marxismo, considerada a sua obra mais importante, foi um boom aquando da sua publica????o: perante a interpreta????o oficial, que sustentava que o estalinismo constitu??a uma degenera????o ou forma impura da doutrina original de Marx, Ko??akowski conclu??a que os regimes totalit??rios comunistas não eram uma falsifica????o ideológica do marxismo mas uma consequência lógica do seu sistema filos??fico. Al??m de examinar os elementos mais problem??ticos desta filosofia, em particular o seu determinismo hist??rico, Ko??akowski realizava uma minuciosa an??lise das transforma????es do pensamento marxista, desde as suas origens em Marx e Engels até ao comunismo franc??s de finais dos anos 60, passando pela Escola de Frankfurt e o comunismo chin??s. Ainda hoje As principais correntes do marxismo continua a ser um livro fundamental para compreender a import??ncia hist??rica e filos??fica do marxismo.
Tens??o especulativa
A evolução do seu pensamento assumia posi????es políticas mais liberais e o seu compromisso com a democracia e os direitos humanos acentuou-se durante a sua estada em Oxford, onde travou amizade com intelectuais da estatura de Isaiah Berlin, entre outros. Ko??akowski soube assimilar a toler??ncia e o realismo político brit??nico, sem por isso renunciar aos seus profundos anseios por melhorar a situação política e social. Como Berlin, considerava que a política devia favorecer o compromisso e o equil??brio entre valores contrapostos. E afirmava que apesar de as utopias terem a sua fun????o, "deveriam continuar a ser isso mesmo: utopias". Não teve dúvidas em apoiar no momento próprio a luta contra o regime comunista da Pol??nia, iniciada por Walesa com o sindicato Solidariedade, no princ??pio dos anos 80.
Ko??akowski nunca se considerou a si próprio como um fil??sofo político no sentido estrito da palavra. ?? verdade que a demais produção intelectual foi algumas vezes esquecida perante a magnitude e o m??rito do seu livro sobre o marxismo. No entanto, numa das suas últimas entrevistas, confessava que não considerava esta obra como a mais importante.
A maioria dos seus ensaios inscreve-se na história das ideias (A filosofia positivista, As perguntas dos grandes fil??sofos) e no campo da filosofia da religi??o (Se Deus não existe). Caracterizam-se pela amenidade, a erudi????o e, sobretudo, pela tens??o especulativa. Op??s-se tanto ao positivismo como ??s tendências filos??ficas que propunham abandonar a pretens??o de alcançar verdades definitivas. Com olhar de esperança, trabalhou para devolver ?? filosofia o que considerava ser a sua missão original: a possibilidade de fazer-se permanentemente perguntas sobre o sentido do mundo, mas tendo em conta que a busca da verdade exige por princ??pio a sua exist??ncia. O seu último livro, As perguntas dos grandes fil??sofos , ?? um bom exemplo da sua concepção filos??fica.
A religi??o ocupa um lugar de destaque na sua traject??ria. Com clareza, em Se Deus não existe, indicou que o problema principal do ate??smo racionalista ?? a sua falta de compreens??o do fenómeno religioso e o perigo de divinizar o poder do homem. Entendia que as cren??as religiosas eram uma "parte insubstitu??vel" da cultura porque nelas se condensam algumas das respostas que a humanidade deu ?? pergunta sobre o sentido e a finalidade da exist??ncia. De facto, afirmava que as normas morais adquirem a sua validade em contextos religiosos e que a diferença entre bem e mal est?? j?? dada ao homem. "Se o que buscamos são respostas reais ??s preocupações mais reais dos seres humanos - dizia -, ent??o podemos encontr??-las na religi??o. Necessitamos acreditar que a vida humana tem um sentido. Mas não encontramos esse sentido em nenhum outro empenho a não ser nas tradi????es religiosas." (Pura Sanch??z Zamorano, "Entrevista a Leszek Ko??akowski", Cuadernos de Pensamiento Pol??tico 22, Abril-Junho 2009).

