Pesquisa

Fundador da comunidade de Santo Eg??dio

Andrea Riccardi, prémio Carlos Magno 2009

 História
Andrea Riccardi, prémio Carlos Magno 2009

Algu??m que "vive o esp??rito da Europa"

 

Atribu??do pela cidade de Aix-la-Chapelle, o prémio reconhece a ac????o desenvolvida ao serviço dos ideais da Europa. J??rgen Linden, presidente da c??mara da antiga capital do imp??rio de Carlos Magno e membro do j??ri, explicou que se pretendeu deliberadamente não atribuir este ano o prémio a um político: "escolhemos [Riccardi] para animar as pessoas correntes a trabalhar a partir das bases pela unidade da Europa", admitiu Linden.

 

Riccardi, de quem o j??ri disse que "vive os valores da Europa", foi igualmente elogiado pelo j??ri "pelo seu extraordin??rio empenho cívico em favor de uma Europa mais humana e solid??ria aqu??m e al??m fronteiras, da compreens??o entre os povos, as religi??es e as culturas, por um mundo mais pac??fico e mais justo". Alguns meios de comunicação referiram-se ao historiador como o "outsider por excel??ncia", que clama por uma paz urgente e não ?? movido por interesses políticos nem económicos ao intervir nos problemas que procura solucionar.


Media????o em conflitos internacionais

 

A iniciativa pela qual Riccardi foi premiado nasceu h?? quarenta anos, quando ele e um grupo de ex-colegas de escola decidiram fundar uma comunidade de leigos no bairro romano do Trastevere, com o fim de proporcionar aos pobres alimentos e roupas. A organiza????o, com sede na par??quia de Santo Eg??dio, conta presentemente com 50.000 membros, abarcando as suas actividades frentes que v??o desde a media????o em conflitos internacionais ?? assist??ncia a condenados ?? morte atrav??s de interc??mbio epistolar.

 

Igualmente proposto para o Nobel da Paz Riccardi teve com a sua organiza????o um papel importante nos acordos de paz de vários pa??ses africanos, especialmente Mo??ambique, onde em 1992 conseguiu entre o governo e a guerrilha um entendimento que p??s fim ?? guerra civil.


O ecumenismo, condi????o de paz

 

Para Riccardi, a divis??o entre duas Europas foi renovada por aquilo a que chama a "recupera????o das identidades subjacentes": uma reac????o ao mundo globalizado que vincula a religi??o ?? consciência nacional, tal como acontecia nos come??os do s??culo XX, antes da implanta????o do comunismo. "O problema da rotura entre o leste e o oeste ?? antigo, e acentuou-se com a Guerra Fria", sustenta Riccardi. "Mas ?? também o problema de uma Europa do leste que teve de se confrontar com a vit??ria do modelo ocidental, que não ?? um modelo católico nem protestante, mas de uma sociedade secularizada, consumista, capitalista, desenvolvida. Neste contexto, torna-se decisivo o repto ecum??nico".

 

Para o historiador (uma autoridade em Hist??ria do Papado na Idade Moderna e Contempor??nea) este ecumenismo não ?? mera discuss??o teológica, mas igualmente vontade de aproxima????o entre dirigentes religiosos. Segundo Riccardi, ganham neste campo import??ncia capital certas personalidades do mundo ortodoxo que representam uma aproxima????o ?? modernidade, coisa que ainda constitui um problema para esta Igreja, e que, por seu lado, o catolicismo enfrentou e resolveu no Conc??lio Vaticano II.

 

Este esp??rito de ecumenismo deve também manter-se em relação ?? R??ssia e ao isl??o, "que na Europa são ambos problemas de fronteira". Para o primeiro caso, explica Riccardi, trata-se de um problema interno, pois a R??ssia não est?? fora da Europa. Para o segundo, diz ele, "?? necessário deixar a porta aberta, impondo condições no que se refere aos direitos humanos e ?? imigração". Em relação a um tema que volta a ser actual, dizia Riccardi em 1999 que "precisamos da Turquia nos Balc??s, em particular para lidar com o isl??o europeu de ???linhagem antiga', que não ?? produto da imigração".

 

Precisamente a propósito de imigração, Riccardi declarou recentemente que o verdadeiro problema por ela reflectido não ?? o que acontece na Europa mas a mis??ria que se vive nos pa??ses de origem, contra cuja for??a centr??fuga não h?? barreiras nem patrulhas mar??timas que sejam eficazes. Embora Il Professore admita ter na sua juventude alinhado no discurso terceiro-mundista ("em 68 tinha 18 anos", justifica-se ele), a sua opinião actual rende-se ?? evid??ncia: "O Terceiro Mundo j?? não existe. A ??sia ?? uma realidade; a Am??rica Latina ?? outra. Mas o problema de ??frica persiste, e a Europa não o pode ignorar".


Religi??o e laicidade

 

Em entrevista concedida ao El Mundo em 2007, ao ser questionado sobre a situação em Espanha, Riccardi referiu-se ao conflito entre laicos e católicos como "coisa do passado". Menosprezar a dimens??o cristã da cultura nos pa??ses de que ela fez parte ?? o mesmo que conden??-los ?? insignific??ncia: "Em minha opinião, tanto para crentes como para não crentes, um discurso de f?? religiosa ou de cultura das tradi????es cristãs ?? um recurso de relevo. A história da It??lia, da Espanha ou da Fran??a não ?? a história da cristandade, mas o cristianismo ?? um aspecto fundamental da nossa história."

 

No ??mbito da entrega do prémio Carlos Magno a Riccardi, foi organizada em Aix-la-Chapelle uma mesa redonda subordinada ao tema "A civilização da paz: religi??es e culturas em diálogo", na qual participaram David Brodman, rabino-mor de Savyon, em Israel; o professor Mohammed Amine Smaili, da Universidade de Rabat; Mons. Heinrich Mussinghoff, Arcebispo de Aix-la-Chapelle; Nikolaus Schneider, presidente da Igreja Evang??lica da Ren??nia; e o Arcebispo Serafim, metropolitano da igreja ortodoxa romena para a Alemanha e a Europa central.

 

Aceprensa