Pesquisa

Sexo: o que o gui??o não exige

 Cinema
H?? dias saltou para os meios de comunicação uma notícia curiosa. O canal americano ABC despediu um actor por se ter negado a rodar cenas de sexo
Sexo: o que o gui??o não exige

A notícia deu p?? a inúmeros coment??rios e explicações. Os media publicaram o motivo da recusa: McDonough ?? católico, com firmes convic????es religiosas, tem mulher e tr??s crianças pequenas. Por isso se nega a interpretar este tipo de cenas.

 

Nos meios digitais - mais prop??cios a estes debates - milhares de internautas apoiaram massivamente a decisão do actor. A julgar pelos coment??rios feitos ?? notícia, positivos na sua esmagadora maioria, deduz-se que a coer??ncia continua a ser um valor em alta. S??o em maioria as pessoas que louvam a decisão de McDonough e elogiam o facto de ter sido capaz de perder um milh??o de dólares (foi o que deixou de receber) por actuar em consciência e por respeito ?? mulher e ?? família.

 

Os que criticam a decisão do actor - al??m do canal, obviamente - apontam que não actuou do mesmo modo ao interpretar pap??is violentos.


Sexo e violência, muito diferentes

 

Muitos coment??rios destes sites manifestam um bom senso, bem lógico. Como o de quem declarava que, se o marido fosse actor, preferia mil vezes v??-lo aos tiros do que metido na cama com outra mulher. Chegados a este ponto, ?? bom reler o que a este respeito diz o cr??tico franc??s Andr?? Bazin, mentor de Truffaut e Rohmer, inspirador da Nouvelle Vague e impulsionador da revista Cahiers du cinema. Na sua c??lebre obra O que ?? o cinema? Bazin explica como a representa????o do sexo e da violência são absolutamente diferentes.

 

Para Bazin a grande diferença est?? em que as cenas de violência se representam enquanto as sexuais, de certo modo, se vivem. "Se aparecem no ecr?? um homem e uma mulher vestidos de tal modo e em posi????es tais que seja inveros??mil não existir pelo menos um come??o de consuma????o sexual a acompanhar a ac????o, também eu teria direito a exigir num filme policial que se matasse realmente a vítima ou pelo menos que ficasse ferida mais ou menos gravemente. Esta hip??tese não tem nada de absurdo, porque ainda não h?? muito que os assassinatos deixaram de ser espect??culo. Para os romanos, os jogos de circo mortais eram equivalentes a uma orgia".

 

Segundo Bazin, no cinema, de modo diferente ao que se passa noutras artes representativas, como por exemplo a pintura, "pode-se desejar expressamente e acariciar uma mulher nua, mas se queremos permanecer no nível da arte devemos manter-nos no imagin??rio. Devemos poder considerar o que se passa no ecr?? apenas como um relato que não chega nunca ao plano da realidade; caso contr??rio, torno-me c??mplice em diferido de um acto, ou pelo menos de uma emo????o, cuja realiza????o exige intimidade. O que significa que o cinema pode dizer tudo mas não pode mostrar tudo. Pode-se falar de todo o tipo de condutas sexuais mas com a condi????o de se recorrer ??s possibilidades de abstrac????o da linguagem cinematogr??fica, de maneira que a imagem não adquira nunca um valor documental".

 

Kaurism??ki: "Todas essas sequências parecem sempre a mesma; penso que em Hollywood t??m um stock de recurso

 

"Nesta perspectiva, entende-se que haja realizadores que se neguem a incluir cenas de sexo nos seus filmes e prefiram recorrer ?? elipse. O realizador finland??s Aki Kaurism??ki, comenta este facto com eloqu??ncia. Nos seus filmes, por vezes muito obscuros, retrata a vida de prostitutas ou amantes mas nunca mostra sexo nos ecr??s. "Quando vejo um filme e surge a cena de sexo fico sempre muito incomodado, e imagino que também acontece o mesmo ao público. S??o situações privadas e sinto-me um voyeur. Todas essas sequências parecem ser sempre a mesma; penso que em Hollywood devem ter um stock de recurso".

 

Quando perguntaram recentemente ao espanhol Patxi Amezcua por que ?? que no seu filme 25 kilates havia pouco sexo e poucos palavr??es, comentou que "n??o era preciso dizer "filho da puta" para que se note que o personagem est?? zangado ... E a maior parte das vezes o sexo confunde".

 

Quando os outros recursos falham

 

A abund??ncia de sexo ?? uma exigência da publicidade para que se fale do filme ou uma tentativa para salvar um mau gui??o

 

De facto, as pessoas que v??m muito cinema, como por exemplo, os cr??ticos chegam ?? conclusão de que, salvo raras excepções, o excesso de sexo num filme pode obedecer a dois motivos: ou ?? uma exigência publicit??ria do filme para se falar dele por ser escandaloso ou um modo de tentar salvar um mau gui??o.

 

A tese de Bazin refere também que ?? margem de outras questões morais, muitos actores confessam que se sentem incomodados quando rodam estas cenas. Outros consideram-nas como um preço a pagar para entrar no mundo do cinema, mas recusam faz??-lo quando atingem um certo cachet. ?? o caso, por exemplo, de Brad Pitt que, h?? anos declarou que não voltaria a aparecer nu num filme. "Não quero sentir-me envergonhado quando os meus filhos forem mais velhos e virem os meus filmes", comentou.

 

Quanto ao espectador, querer?? o espectador m??dio ver sexo no grande ecr??? A julgar pelos resultados de bilheteira parece que n??o. Entre os 10 filmes mais vistos em 2009 s?? um - A Ressaca - tem conteúdos sexuais.

 

Em resumo, toda esta história revela que uma das frases cunhadas no mercado do cinema - o sexo vende - não ?? no fundo verdadeira e que o sexo nos ecr??s tem mais inconvenientes que vantagens. Faz perder dinheiro aos produtores e distribuidores, rotula os actores, incomoda o espectador, não ajuda a criatividade dos realizadores e não convence os cr??ticos.

 

Al??m de ser bom actor, Neal Mc Dougahn demonstrou também ser coerente e inteligente.


Ana S??nchez de la Nieta