O niilismo na crise da literatura
Todorov refere o seu passado na Bulg??ria comunista dos anos cinquenta, ???onde se verificava uma curiosa invers??o do papel que os livros desempenhavam???. Nessa ??poca, ???os jornais e os livros contempor??neos, que deveriam dar a conhecer o mundo em que viv??amos, na realidade falavam de um mundo imagin??rio, onde trabalhadores felizes viviam junto a camponeses sorridentes, todos perfeitamente unidos pelo amor ao comunismo, ?? p??tria e ao grande irm??o sovi??tico???.
Contra essas falsas leituras da realidade, voltava-se a valorizar outra literatura: ???Eram os clássicos ??? Gogol ou Dostoievski, Balzac ou Stendhal, Cervantes ou Shakespeare ??? os que contavam a verdade e não mundos de fantasia em que era conveniente pensar. Eles não mentiam, não falsificavam, não procuravam agradar aos poderosos de turno. Pareciam ter outros objectivos: compreender melhor a condi????o humana, distinguir o bem do mal, enriquecer o mundo com sentido e beleza. A literatura levava-nos a olhar melhor para dentro de n??s próprios, transformando-nos. Não era s?? uma divers??o. Ajudava-nos a viver???.
A partir desta reflex??o, refere-se ao momento actual da literatura, neste Paris que agora habita e interroga-se sobre os motivos que explicam a perda de prest??gio que sofre hoje a literatura. Todorov aponta um: ???Parece como se entre a literatura e o mundo exterior não existisse nenhuma relação significativa, como se se tivesse produzido uma ruptura entre a realidade que relata e aquela em que vivem o escritor e os seus leitores???. E aponta uma tendência filos??fica que inunda hoje a literatura: ??? ?? possível encontrar um indício desta ruptura no espa??o crescente que ocupa aquilo a que podemos chamar a corrente literária niilista. Incluo aqui aquelas obras que apresentam o mundo sob a única presen??a de for??as destrutivas, de violência, de crueldade. Um mundo abominível, uma exist??ncia horr??vel, de seres humanos dedicados unicamente ?? barb??rie???.
Todorov compreende que podem existir autores que ???se sintam desgostosos com a vida, não vendo nela sen??o os aspectos mais sinistros???. Mas dirige sobretudo a sua reprova????o a uma cr??tica literária que premeia esta tendência: ???O que mais me surpreende ?? o acolhimento favorável que d??o a esta concepção do mundo aqueles que deveriam orientar os leitores nas suas escolhas e ju??zos. Refiro-me aos cr??ticos dos jornais e revistas???. Passa, depois aos exemplos: ???Um autor ?? elogiado por saber ???mostrar o g??nero humano em toda a sua decad??ncia??? e pela sua ???comovedora crueldade???. Nessa mesma p??gina, um segundo autor ?? elogiado por ter livrado o mundo ???dos enganos do amor, das baixezas que se d??o na vida do casal ou da violência frustrante das m??es???. E assim, p??gina ap??s p??gina, semana ap??s semana???.
????? necessário concluir ??? termina interrogando-se Todorov ??? que os leitores e os escritores devem renunciar, na sua vida, a estes ???vis rem??dios??? do amor passional, conjugal, paterno ou materno? Ou, pelo contr??rio, que são precisamente estes valores os que nos garantem uma boa vida enquanto que a sua nega????o assegura uma boa literatura????.
Todorov adverte que esta separa????o em compartimentos estanques entre o real e o imagin??rio contribui para o descrédito da literatura.

