A eterna moda do romance hist??rico
Javier de Navascu??s
H?? dez anos j?? era possível comprovar uma certa inclina????o a propor vers??es alternativas ??s impostas durante s??culos pelo poder. Esta reescrita história fundamentava-se no af?? p??s-moderno de destruir a hegemonia dos ???grandes relatos??? da modernidade (conforme terminologia do guru Lyotard), de maneira que seria mais interessante reflectir a vis??o dos vencidos, as minorias derrotadas por uma vis??o euroc??ntrica do passado. Actualmente, estas estratégias continuam a verificar-se em muitos novelistas hist??ricos, ainda que tenham evolu??do ligeiramente.
Uma reescrita feminina da história
Uma tendência not??ria dos últimos anos ?? a prolifera????o de novelas que têm mulheres como protagonistas que jogam o seu destino com uma determina????o mais firme que a dos homens em todos os aspectos: nas batalhas mais terr??veis ou nas intrigas palacianas, nos assuntos familiares ou nas explora????es de novas terras. Com frequ??ncia esta for??a de carácter também se manifesta nas relações amorosas mais próprias da nossa era p??s-moderna que de qualquer outro per??odo hist??rico. Um caso interessante ?? o de Isabel, a Católica, que vem sendo alvo de fic????o h?? bastantes anos, quando Salman Rushdie num conto e Alejo Carpentier na sua última novela a pintaram como uma desinibida amante de Crist??v??o Colombo.
Outros narradores voltaram o olhar para as mulheres com um papel mais obscuro. Ao p??r o acento em personagens secund??rias, não h?? apenas uma vontade de fabular, de escrever com liberdade sem as ataduras da história conhecida por todos, mas também pelo desejo de mostrar uma vers??o alternativa. O mundo feminino pertence a esse ??mbito, sem dúvida, como o das minorias ??tnicas ou os grupos de ???perdedores??? da história (judeus e muçulmanos na Espanha medieval, por exemplo).
Um denominador comum que descobrimos nestas novelas ?? o facto de se colocar em cena uma nova hero??na que compete com o var??o apesar das conven????es sociais. Neste sentido, o tempo predilecto parece ser a Idade M??dia. Por exemplo, a última novela de Rosa Montero (Hist??ria do Rei Transparente), serve-se de numerosos relatos e lendas medievais ?? volta de uma rapariga que se veste de homem para guerrear. Outras escritoras também recriam a vida de mulheres fortes que dominaram a sociedade como rainhas, princesas, abadessas... ??ngeles de Irisarri (El viaje de la re??na,Isabel la reina, etc.), Toti Martinez de Lecea (La abadesa), Almudena Arteaga (A princesa de ??boli, Mar??a de Molina), etc. A esta lista também se acrescentam autores masculinos como C??sar Vidal (Yo, Isabel). Ainda que nos parecesse injusto valorizar um romance apenas pela sua fidelidade hist??rica, não h?? dúvida de que os erros modernos sobre a Idade M??dia sobrevivem em algumas das romancistas mencionadas.
Fus??o do romance hist??rico com o romance policial
Se o romance hist??rico ?? um g??nero muito perme??vel aos gostos do mercado, não causar?? ent??o estranheza que os seus limites se confundam com os de outras modalidades de ??xito comercial, como o relato policial. ?? o que acontece, por exemplo, com as divertidas novelas de Lindsay Davis sobre Marco D??dio Falco, detective romano, ou a recente El enigma de la calle Blanc-Manteaux de Jean-Fran??ois Parot, situada no Paris rococ??.
Tamb??m podemos recordar um dos últimos best sellers, El Club Dante de Matthew Pearl, ambientado em Nova Iorque nos anos da Guerra da Secess??o. Desempenha um papel importante a tradu????o da Divina Com??dia a cargo de uma s??rie de poetas norte americanos e que tem como protagonista um improv??vel detective negro.
Em Espanha P??rez Reverte j?? deitou a m??o ao mesmo recurso a partir de "O mestre de esgrima" e, supostamente, não lhe faltaram imitadores. A exitosa saga do capit??o Alatriste (folhetim, aventuras e intriga no S??culo de Ouro) tornaram possível novelas como "El manuscrito de Calder??n" de Jos?? Calvo Poyato. De qualquer modo, uma vez mais a origem destas misturas t??o interessantes para as economias das editoriais h?? que procur??-la em "O nome da rosa", onde Umberto Eco unia as investigações dos protagonistas Guilherme de Baskerville e o seu disc??pulo Adso (isto ??, Sherlock Holmes e Watson) com um fundo medieval recheado de refer??ncias ?? filosofia escol??stica e ?? espiritualidade p??s-franciscana.
Pa??ses e ??pocas de moda
?? do conhecimento público que a moda do romance hist??rico não afecta s?? a Espanha. Na maior parte dos pa??ses ocidentais ?? enorme o número desta espécie de livros editados por ano. Conforme cada um dos pa??ses, pode observar-se uma preferência por esta ou por aquela ??poca, de acordo com as circunst??ncias sociopolíticas do momento presente.
Em Fran??a, por exemplo, durante a década de noventa um bom número de romancistas (Claude Simon, Jean Rouaud, Pierre Bergounioux, Richard Millet, etc.) escreveram sobre a Primeira Guerra Mundial. Na Argentina, observa-se, ao contr??rio, uma inclina????o para o s??culo XIX, ??poca em que se constituiu a na????o.
Outro pa??s com forte tradi????o hist??rica ?? a Inglaterra. A excelente saga n??utica de Patrick O`Brian e a vulgar s??rie de aventuras do fusileiro Richard Sharpe acerca das guerras napole??nicas, exaltam o poder da Gr??-Bretanha num tempo em que o pa??s se consagrou como primeira pot??ncia mundial. Não ?? necessário ser muito perspicaz para advertir uma profunda nostalgia por detr??s de tudo isto. Em Espanha, pelo contr??rio, a tendência parece indicar uma atrac????o pelo S??culo de Ouro, cujo ??xito foi capitalizado por P??rez Reverte. De certo modo estas novelas espanholas são como que a imagem invertida das novelas brit??nicas.
Não h?? dúvida de que as ??pocas que parecem estimular o entusiasmo dos leitores aficionados ao g??nero, são a Antiguidade e a Idade M??dia. O interesse por Alexandre Magno e, sobretudo, por Roma, tem os seus antecedentes nos romances piedosos do s??culo XIX (do tipo Os últimos dias de Pompeia, Ben-Hur ou Fab??ola). Sem dúvida, no s??culo XX as interpretações são mais diversificadas. Se encontramos defensores dos valores do Cristianismo (Taylor Caldwell), a Roma pag?? também se revela sumamente atractiva e os cristãos quando reagem são uns fan??ticos violentos. Temos o exemplo de alguns romances sobre o enigm??tico imperador Juliano o Ap??stata.
No que se refere ?? Idade M??dia, pode, sobejamente, advertir-se, que a tendência geral ?? a destrui????o do sistema de valores que lhe deu vida. Certos romancistas dos anos oitenta, como Peter Berling ou Umberto Eco, prepararam o caminho. No entanto, encontram-se pontos de vista mais equilibrados como as de Jesus S??nchez Adalid (El moz??rabe) ou C??sar Vidal (El m??dico de Sefarad).
O romance de investiga????o hist??rica
Não ?? precisamente um romance hist??rico, mas O C??digo da Vinci gerou uma s??rie de imita????es directas ou indirectas (La B??blia de barro de J??lia Navarro), em que o enredo do romance se baseia numa investiga????o, totalmente ap??crifa, que altera o que até agora se havia considerado como verdadeiro. Neste tipo de livro costuma acontecer, al??m de outras coisas, que pelo meio se encontra alguma misterios??ssima e secreta organiza????o com fins pouco claros, mas muito eficaz em tudo aquilo que se refira ?? manipulação de dados.
Tratar-se-ia, uma vez mais, dessa tendência generalizada de desconfiar das vers??es tradicionais da história, em formato de best seller e com poucas explicações enfadonhas sobre o rigor das novas teorias. Não h?? dúvida de que a receita tem ??xito! A citada J??lia Navarro com outra novela sua, La hermandad de la S??bana Santa conseguiu vender meio milh??o de exemplares no ano passado.
Geralmente estas novelas não pretendem recriar uma ??poca ou uma personagem, mas sim introduzir-se no despenhadeiro de uma investiga????o. Por vezes recorrem a variantes mais rom??nticas como a do arque??logo (El Egipt??logo de Arthur Phillips) ou a dos que procuram vampiros disfar??ados de eruditos, como acontece com a amea??a fantasma da temporada, a historiadora de Elizabeth Kostova.
Existem também romances s??rios que têm vindo a testemunhar este processo tortuoso e dif??cil que visa chegar ?? verdade hist??rica, porque os historiadores, como os demais seres humanos, podem ver-se enganados pelos seus próprios erros, fobias e filia????es. No ??mbito hispânico, existem livros de culto nesta direcção, como Respira????o artificial do argentino Ricardo Piglia. Tiveram também grande import??ncia outros como Santa Evita ou La novela de Per??n, do seu compatriota Tom??s Eloy Mart??nez. Em Espanha, um dos melhores romances da última década, Soldados de Salamina de Javier Cercas, relata uma investiga????o acerca da Guerra Civil: novela que, a pesar das suas virtudes literárias e da sua estratégia inovadora acaba por se submeter ?? vers??o hist??rica politicamente correctano momento em que se escreve.
O direito de mudar a história
Sendo assim, se a história não ?? neutral, o romance com a sua mistura de fic????o e subjectividade, muito menos. Na realidade, deparamos aqui com o terreno eri??ad??ssimo dos direitos dos romancistas de entrar em pleno no campo da história. Um mestre do g??nero, o cubano Alejo Carpentier, escudava-se em Arist??teles para as suas fic????es que, deliberadamente, mudavam a história: ???Não ?? of??cio do poeta (isto ??, do novelista) contar as coisas como aconteceram, mas sim como deveriam ou poderiam ter acontecido???.
Ora bem, se podemos aceitar este racioc??nio aristot??lico, não conv??m sequer pensar que no romance hist??rico vale tudo. Na realidade, quando lemos este tipo de textos inevitavelmente vamos julgando as situações com os olhos da nossa mentalidade contempor??nea. Por isso ?? necessário que interpretemos que o enredo do romance alude a problemas que não pertencem exclusivamente ao passado, mas sim que afectam também o nosso presente.
Sugest??es de romances hist??ricos
Mundo Cl??ssico Idade Moderna (s??culos XVI, XVII, XVIII)
Thornton Wilder: Los idos de Mar??o
Elaborada com uma estrutura original epistolar, recria os proleg??menos de J??lio C??sar.
Marguerite Yourcenar: Mem??rias de Adriano
Este livro de 1951 ?? fundamental não s?? pelo seu estilo depurado, mas ainda por ser um dos primeiros a explorar o recurso das falsas mem??rias do protagonista. Robert Graves no seu Yo, Claudio (1935) também influiu grandemente.
Alessandro Manzoni: Os noivos
A primeira obra mestra do g??nero depois da sua funda????o. No patamar do romantismo e realismo, Manzoni conta as aventuras e desventuras de um casal enamorado no meio daLombardia do s??culo XVII.
Ismail Kadar??:Los tambores de la lluvia
Uma curiosa novela b??lica que enfrenta um poderoso ex??rcito turco que trata infrutiferamente de conquistar uma fortaleza albanesa.
Leo Perutz: El Judas de Lepnardq
No meio de uma invulgar recria????o do Mil??o de Ludovico, Moro, conta uma história que p??e ?? prova o valor do amor e a arte frente ao dinheiro. Pode servir como ant??doto cultural contra a espectacular vulgaridade do C??digo Da Vinci.
Idade M??dia
???Walter Scott: Ivanhoe
Uma Idade M??dia de cart??o de pedra que, sem dúvida, teve uma enorme influência nos novelistas hist??ricos do s??culo XIX.
Robert L. Stevenson: A flecha negra
Novela trepidante de aventuras durante a Guerra das Duas Rosas (s. xv) em Inglaterra. O que distingue Stevenson consiste em que não ?? nada ret??rico nas cenas de ac????o nem melindroso ao descrever as caracter??sticas femininas.
Sigrid Undset: Cristina, Filha de Lavrans
Magn??fica trilogia sobre a vida de uma mulher, desde a sua juventude até ?? sua morte, ambientada na Escandin??via medieval. A escritora, prémio Nobel, também sobressai com outra novela de tema e extens??o semelhantes, Olav Audunsson.
C??sar Vidal: O m??dico
Novela contra a corrente das vers??es mais divulgadas sobre a mentalidade medieval e o ???encontro???de culturas. No mesmo ano apareceu a sua continua????o, El m??dico del Sult??n.
Amin Maalouf: Le??o, o africano
Maalouf, liban??s radicado em Fran??a, proclama nas suas novelas a necessidade do diálogo entre as culturas.
Tracy Chevalier: A jovem do brinco de p??rola
De acordo com a variante da novela hist??rica de artista, esta obra ?? uma f??bula sobre a g??nesis de um dos quadros mais famosos de Jan Vermeer. O resultado ?? uma história de amor contada com delicadeza.
Ram??n J.Sender: A aventura equinocial de Lope de Aguirre
Gra??as ?? sobriedade do seu estilo, ?? a melhor de uma s??rie de novelas dedicadas ao genu??no anti-her??i da conquista espanhola da Am??rica.
Thornton Wilder: A ponte de S. Lu??s Rey
Extraordin??ria novela sobre o destino de um pequeno grupo de personagens que sofrem um acidente no Per?? do s??culo XVII.
Leonardo Sciascia: El archivo de Egipto
Situada na Sic??lia no s??culo XVIII, ?? uma reflex??o sobre a manipulação interessada da história desde a perspectiva esquerdista deste autor italiano.
Italo Calvino: El bar??n rampante
F??bula ir??nica acerca da situação do intelectual ilustrado perante os fenómenos revolucion??rios.O texto mais difundido e engenhoso do seu autor.
Idade Contempor??nea (s??culos XIX e XX ) ( Cont. )
Patrick O`Brian: Capit??n de mar y Guerra
Primeira entrega da famosa s??rie de vinte novelas sobre a armada inglesa no tempo de Nelson. Al??m das suas qualidades e da sua amenidade, nesta obra, o autor manifesta um excelente domínio da vida quotidiana nos barcos da ??poca.
Benito P??rez Gald??s: Trafalgar
O primeiro livro dos Epis??dios Nacionais continua a ser a melhor novela b??lica da literatura espanhola.
Patrick Rambaud: La batalla y Nevaba
Estas duas novelas fazem parte de uma excelente trilogia sobre as guerras napole??nicas (a terceira ainda não est?? traduzida ). Redac????o cuidada e documenta????o excelente.
Lev Tolstoi: Guerra Y paz
Um dos expoentes m??ximos da novela hist??rica. Al??m do interesse novelesco e filos??fico do texto, chama a aten????o a for??a dos numerosos epis??dios b??licos, a cuidada documenta????o e as digress??es sobre teoria da história.
Giuseppe Tomasi di Lampedusa: El gatopardo
Uma excelente obra mestra do g??nero. Narra a decad??ncia dos salina, família aristocr??tica da Sic??lia, na passagem do Antigo para o Novo Regime.
Jean Giono: El h??sar el tejado
No meio de um espect??culo desolador de morte e destrui????o durante a epidemia de c??lera na Proven??a em meados do s??culo XIX, o livro d?? entrada a um punhado de personagens heróicas.
Stephen Crane: La roja ins??gnia del valor
Recolhe a viv??ncia de uma batalha da Guerra da Secess??o norte americana na perspectiva de um soldado novato. Um clássico da literatura do seu pa??s.
Willa Cather: Pioneros
Amena reconstrução da vida quotidiana dos primeiros colonos no m??dio Oeste norte americano. A autora, titular de um estilo poderoso e expressivo, também situou outras excelentes fic????es suas no s??culo XIX, como La muerte llama al arzobispo.
Arturo Uslar Pietri: Las lanzas coloradas
Novela hist??rica dos anos trinta sobre as guerras da independ??ncia a Venezuela. Mostra, com uma rara objectividade, a violência das batalhas, o recrutamento, os saques, etc.. ?? a melhor obra de Uslar.
M??rio Vargas Llosa: La guerra del fin del mundo
Vargas Llosa estudou a Guerra civil de Canudos, em fins do s??culo XIX no noroeste brasileiro. O resultado ?? esta novela dif??cil, densa, violenta e ambiciosa, que procura demonstrar o absurdo dos fanatismos ideológicos. Acusa, pelo contr??rio, um forte relativismo.
Joseph Roth: La marcha Radetv??y
Bela recria????o da decad??ncia do Imp??rio austro - h??ngaro, simbolizada no fracasso vital do último descendente de uma família ilustre, os Trotta.
Javier Cercas: Soldados de Salamina
Uma das melhores novelas que se escreveram sobre a Guerra Civil Espanhola, pelo interesse da sua estrutura, facilidade do seu estilo e a novidade, s?? aparente, das suas interpretações ideológicas.
Fonte: Aceprensa, n.?? 119/05
