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Thomas Mann ou a perfeição do estilo

 Literatura
Thomas Mann ou a perfeição do estilo

Tanto a sua vida como a sua obra apresentam tr??s per??odos distintos de vinte e cinco anos cada um, que correspondem ao último quartel do s??culo XIX e aos dois primeiros do s??culo XX. Os dois factos mais importantes foram a publica????o de Os Buddenbrook e o Pr??mio Nobel que lhe foi atribuído (1929).

 

O ??xito logo no início

 

Thomas Mann nasceu em L??beck em 1875, e pertencia a uma família da alta burguesia ligada ao com??rcio. Depois de Thomas, nasce seu irm??o, Heinrich, também escritor, a que se seguiram Lula, Carla e Viktor. Depois de uma infância mimada e feliz, come??a timidamente alguns estudos universit??rios, embora canalize mais os seus esfor??os para a sua formação intelectual e literária; l?? muito e acumula experiências: Schopenhauer, Nietzsche, Schiller, perman??ncias em It??lia, assiste a saraus literários e culturais, dedica-se ao jornalismo, trabalhando ?? noite.

 

Com dezanove anos, muda-se para Munique - onde viver?? quase quarenta anos - e escreve o seu primeiro conto: A queda. De 1898, publica o seu primeiro livro, englobando os sete contos que faziam parte de O Pequeno senhor Friedermann. Thomas Mann recordar??, sempre com especial carinho, o conto que escreveu ainda quando se iniciava na literatura, Tonio Kr??ger. Cultiva o seu gosto pelo teatro e, na pr??tica conservar?? para sempre uma reconhecida facilidade para as leituras em público.

 

Em 1897, durante a sua estada em Roma, come??a a escrever o que vir?? a ser a sua primeira grande obra, Os Buddenbrook, a história de tr??s gerações de uma família de comerciantes da sua cidade natal. Apesar de ocupar dois volumes e do seu preço elevado, esta obra vende-se muito bem. Mann, precocemente, aos vinte e seis anos, j?? ?? um escritor de sucesso.

 

A carreira até Estocolmo

 

Em 1929 era-lhe atribuído o Nobel da Literatura, que distinguia, sobretudo, uma obra na traject??ria da sua vida de autor. No caso de Mann, não foi a aplaudida A Montanha M??gica, publicada seis anos antes, mas Os Buddenbrook. O próprio autor sempre pensou, e deixou-o escrito na sua obra Relato de uma vida, que a sua consagra????o vinha antes do seu livro A Morte em Veneza (1912), a sua outra grande obra literária desse per??odo.

 

A sua vida pessoal foi, nesta fase, marcada pelo casamento com Katia, de nome de solteira Pringsheim. Filha de pais judeus convertidos ao protestantismo, estudiosa e especialista wagneriana, com tanto ou ainda mais dinheiro que os Mann, as mesmas inquieta????es intelectuais, traz ao escritor uma estabilidade emocional, uma ainda maior solidez económica, al??m de todas as facilidades para que se dedique, sem qualquer obst??culo ou distrac????o, totalmente ?? sua obra.

 

Casam-se em 1905 e, em catorze anos, nascem os seus seis filhos: Erika, Klaus, Golo, Monika, Lisa e Michael.

 

Ex??lio

 

Passa os últimos anos da sua vida quase sempre fora do seu Pa??s. Em 1933 Hitler ganha as eleições e Mann vai para a Su????a. Tr??s anos mais tarde, rompe pública e definitivamente com o III Reich e consegue a nacionalidade checa. Em 1938 muda-se para Princeton e, em 1941, para a Califórnia. Ao todo vive catorze anos nos Estados Unidos, pa??s que lhe concede a nacionalidade americana em 1944, quando Thomas Mann tem 69 anos. Dois anos depois da II Guerra Mundial ter terminado, volta ?? Europa e vive em Zurique os últimos quatro anos da sua vida. Morre a 12 de Agosto de 1945, nessa cidade.

 

Temos vindo a destacar duas obras narrativas em cada uma das fases descritas acima e agora faremos o mesmo com a terceira fase: a tetralogia Jos?? e Seus Irm??os (1933-1943) e Doutor Fausto (1947).

 

Thomas Mann e a política

 

Se Mann era protagonista na vida política, intelectual e literária do seu pa??s, a sua família, ainda que com menor visibilidade, não lhe ficava atr??s. O seu irm??o, Heinrich (O Anjo Azul, O S??bdito, A Juventude de Henrique IV e A Maturidade de Henrique IV) não passa hoje de um escritor quase desconhecido, t??o prol??fero como descuidado e, de um modo geral, sem interesse. Contudo, chegou a ser um escritor importante na altura. Para isso talvez tenha contribu??do a enorme polémica, por raz??es políticas, que manteve com seu irm??o, Thomas. Heinrich distanciou-se da atitude militarista da Alemanha na I Guerra Mundial que, segundo ele, não tinha qualquer justificação; criticou duramente o seu irm??o por não ter agido da mesma maneira e um c??lebre artigo seu, publicado em 1915, marca a ruptura entre os dois irm??os. A reconcilia????o não ser?? feita antes de 1922: Thomas passou do nacionalismo para a democracia. Por outro lado, sempre detestou - em privado - os livros do seu irm??o: essa posi????o não mudou.

 

Viveu duas guerras mundiais, que tiveram como alvo principal o seu pa??s, e a sua postura foi evoluindo: de conservador nacionalista (com laivos, hoje escandalosos, de militarismo e anti-semitismo) a defensor da democracia, a princ??pio pouco empenhado, e, mais tarde, a sua luta intensa quase termina em socialismo. Grandes especialistas que estudaram a sua obra pensam que, na verdade, a política nunca lhe interessou realmente; em vez disso, interessou-se muito pela realidade social do seu pa??s e, sempre e acima de tudo, pela arte. Deste modo assumiu a sua responsabilidade como intelectual e deu voz, de muit??ssimas maneiras, ?? causa da liberdade. Mais importante para ele era o povo alem??o, a defesa do esp??rito nacional, que est?? presente desde as suas primeiras obras até ao Doctor Faustus. As suas obras de cariz político ocupam metade da sua obra não ficcional.

 

Para conhecer a sua obra

 

Desde jovem que Mann foi um trabalhador incans??vel. Nos seus Di??rios, aparecem inúmeras actividades (viagens, conferências, ch??s e jantares com convidados, concertos, passeios, visitas, prestar aten????o aos seus seis filhos, abundant??ssima correspond??ncia, etc.), que deixam muito pouco tempo para a escrita criativa. Al??m disso, ele insistia que cada par??grafo tinha de ser suado.

 

Pois bem. Apesar de tudo, deixou-nos quatro abundantes romances com cerca de mil p??ginas, cada um (Os Buddenbrook, A Montanha M??gica, Jos?? e os seus Irm??os e Doutor Fausto), quatro romances de tamanho normal (Alteza Real, Carlota em Weimar, O Eleito e Confiss??es do Impostor F??lix Krull), cinco romances mais curtos (A morte em Veneza, Homem e o seu C??o, M??rio e o Mago, As Cabe??as Trocadas e cerca de trinta contos (entre os quais se destacam Tonio Kr??ger e Trist??o) e uma pe??a de teatro Fiorenza. A estas obras h??, ainda a acrescentar a sua enorme produção como pensador: um sem número de artigos, conferências, ensaios, discursos, leitura de breves trechos na r??dio e mensagens: tudo sobre temas biogr??ficos, literários ou político-sociais.

 

Kr??ger e a voca????o art??stica

 

Tonio Kr??ger ?? a imagem do artista que sofre, sobre o qual pesam, com a mesma intensidade, a sua própria exist??ncia e o mundo exterior. Sente de um modo mais profundo e intenso do que qualquer outra pessoa, disp??e do poder mais sublime da terra, o da palavra e o do esp??rito, que o torna mais perfeito, selecto, delicado, subtil, que se irrita contra tudo o que ?? banal, extremamente sens??vel em questões de delicadeza e gosto.

 

Em vez de representar o humano deve renunciar a fazer parte dele e interroga-se: ??Pode afirmar-se, sem qualquer restri????o, que o artista ?? um homem???. Mais adiante: ??Quem me dera poder viver e amar as coisas na sua ditosa vulgaridade sem a maldita raz??o e sem o tormento da cria????o da cria????o art??stica??. ?? o drama da solidão e da extravagância. Sem dúvida que esse foi, em boa parte, o caso de Thomas Mann e de outros escritores (n??o de estranhar que estas afirma????es entusiasmem um sofredor por voca????o, como o foi Kafka).

 

Os Buddenbrook

 

A decad??ncia de uma família e a da sua empresa ao longo de várias gerações. O talento art??stico dos últimos descendentes vai substituindo a energia dos fundadores. ?? o romance de Mann mais próximo da realidade e, por esse motivo, o mais vibrante e, talvez, o de maior ??xito popular. ?? um retrato do ambiente feito com uma perspic??cia implac??vel e, por sua vez, um magistral estudo psicológico das personagens. A vivacidade de Johann d?? lugar ?? melancolia de Jean, daqui ao perfeccionismo voluntarioso de Thomas, homem cheio de ambi????o que s?? poder?? transmitir ao seu herdeiro, Hanno, a quarta gera????o, um carácter sens??vel e doentio, mas dotado para a arte do que para a ac????o.

 

O estilo ?? o mesmo dos outros romances, elaborado e elegante, mas h?? uma s??rie de ideias que se tolera mais; paix??es e personagens mais próximas da realidade e um tom menos ensa??sta. Para Faulkner, leitor pouco dado a excessos nos seus coment??rios, trata-se do melhor romance do s??culo XX.

 

Uma pequena obra-prima

 

A Morte em Veneza em que ?? narrado o triste final de um escritor maduro, austero e admirado, dedicado unicamente ao seu trabalho intelectual. A meio de uma viagem, a vis??o do menino polaco Tadzio, destr??i, em poucos dias, a ordem ??tico racional que o mantinha. Não chega a tocar-lhe nem trocam uma palavra, mas descobre que na sua vida existem mais coisas do que aquelas que os outros admiram. Raz??o, ordem e valores contra os instintos.

 

Na sequência da publica????o dos Di??rios de Mann não restaram dúvidas sobre a origem da inspira????o para escrever esta obra. Nos Di??rios, Thomas Mann exp??e o quanto sofreu, toda a sua vida, por causa das suas paix??es por rapazes jovens, impulsos que manteve sempre, mas num registo plat??nico.


A Montanha M??gica

 

Hans Castorp ?? um jovem que vai visitar o seu primo a uma sanat??rio su????o em Davos. Hans deveria permanecer algum tempo com esse seu primo. Essa estada no sanat??rio que, em princ??pio, era para ser de tr??s semanas, foi-se prolongando até sete anos. Algumas das pessoas que conhece contribuem para aumentar as suas inquieta????es intelectuais e para moldar a sua personalidade: o italiano Settembrini, directo e provocador, o jesu??ta Naptha, a senhora Chaucat, por quem se apaixona. O tempo tem outra dimens??o l?? em cima e a variada sequência de refei????es, passeios, tratamentos, conversas e reflex??es concedem um valor desconhecido a todas as coisas c?? de baixo aos olhos do ainda mold??vel Castorp, transbordante (plet??rico), pela primeira na sua vida, de ??mpetos morais. O estilo ?? perfeito e pormenorizado até ?? min??cia, as descri????es são extensas e cheias de profundidade e conteúdo as longu??ssimas conversas Castorp-Settembrini-Naptha. Humanismo, civilização e democracia perante a religi??o, totalitarismo e comunismo.

 

Seria infind??vel enumerar os assuntos tratados neste romance, em que a própria narrativa j?? não tem a ver, directamente, mais com algum deles, mas com o tempo, a morte, ou as relações interpessoais.

 

Doen??a, dor, bot??nica, honra; Naphta, opositor, na altura, do republicanismo ateu e ma????o do h??bil Settembrini, debate a metaf??sica, a história, a economia, a teoria do conhecimento; mais ainda: o espiritismo, anti-semitismo, guerra. Est??o em confronto, mundo, duas for??as, a raz??o, a ci??ncia e o direito contra a for??a e a supersti????o; a liberdade contra a tirania, movimento e progresso contra o conservadorismo. ?? o que se debate durante todas as conversas, nas quais se analisam as consequências desta luta nos campos do amor, da política ou da arte; isto tudo com um brilhantismo que se pode esperar de personagens t??o bem preparados como o seu próprio criador e que j?? estão livres das preocupações dos de c?? de baixo, dist??ncia que refina a sua lucidez sem diminuir o seu entusiasmo (te??rico) por cada uma das questões.

 

?? um romance de dimensões que pode espantar qualquer um, sobretudo quando o rigor e a eleva????o intelectual do seu riqu??ssimo conteúdo nos deixam, praticamente, sem respira????o. Apenas uma declaração de amor, um suic??dio e um duelo ?? pouco conteúdo para mil p??ginas. Aqui encontramos um Thomas Mann exuberante, com personagens e temas de sobra, gigantesco como a montanha em que os situa, que nos diz que estamos perante um ??romance de formação??, que nada tem a ver - e assim ?? realmente - com um romance no sentido habitual do termo.

 

Doktor Faustus

 

Adrian Leverkh??n (1885-1941) ?? o fruto da sua imaginação mais amado por Thomas Mann. Serenuns Zeitblom conta a vida do compositor por quem sente uma exaltada e inabal??vel devo????o. Adrian revela, desde jovem, um grande talento para a m??sica, com preferência pelos sistemas e matem??tica, com arrog??ncia em relação aos outros e indiferente a quase tudo.

 

Os m??ritos naturais não são devidos a ele próprio, são dons de Deus que o dem??nio se encarrega de fazer esquecer; se não formos humildes, a complac??ncia para com o outro torna-se ingratid??o para com aquele que nos d?? esses dons. Adrian ?? advertido mas não faz caso e estabelece pactos com Satan??s que aperfei??oa o seu talento cobrando, no entanto, um preço muito elevado.

 

O dem??nio e a sua relação com o g??nio (com o louco, com o artista, com o criminosos), a luta entre o bem e o mal, a tenta????o, o talento, a liberdade; o alem??o, a afirma????o do carácter nacional, os judeus, a religi??o, a moral (no sentido mais espiritual do que ??tico) formam os ingredientes do romance mais intelectual de um escritor de romances de ideias, embora consiga agradar mais no plano romanesco do que A Montanha M??gica. A Montanha M??gica ?? um romance extremamente interessante e digno de ser estudado, mais duvido que se deva analis??-lo em termos de gostar ou n??o. O Doktor Faustus tem, a esse nível, mais for??a. O mistério da vida de Leverkh??n fica a conhecer-se a partir da metade do livro, mas a personagem consegue cativar: fica-se com curiosidade de saber em que ?? que vai dar a sua natureza enigm??tica, a atmosfera tensa e de solidão que o torna t??o atraente como inacessível aos outros.


Temas, tom e estilo

 

A escrita de Thomas Mann ro??a a perfeição. Mann ?? mais um escritor de ideias do que de personagens e de narra????o de acontecimentos, e a sua prosa que absorveu esta qualidade de conteúdo, deslumbra mais do que emociona. Como todos os escritores que cultivam o estilo, as suas frases respiram virtuosismo e t??m, independentemente da natureza do que escreve, um inconfund??vel sopro de obra de arte.

 

O tom da sua maneira de contar tende a ser mais o da exposição. O escritor v?? muito, aprofunda e necessita de p??ginas e p??ginas e longas frases para matizar os pormenores. Não ??, realmente, um escritor que divirta. As vezes usa a ironia, mas este recurso tem uma tal carga intencional e uma exigência intelectual que impede o riso f??cil e sem sentido. ?? um modo de comunicar mais do que uma amabilidade em busca de emo????es imediatas.

 

Mann concebe a composi????o narrativa em prosa como um tecido de temas espirituais. Em todas as suas narrativas est?? subjacente um mundo especulativo protagonista que pode contornar os problemas da cria????o art??stica, ou do fasc??nio pela beleza, para indicar apenas os temas mais recorrentes.

 

A questão religiosa est?? praticamente ausente na sua obra. Este facto surpreende num escritor com a formação e o talento de Thomas Mann. Certamente que, neste aspecto, tiveram influência os seus mestres: um pessimismo, herdado de Schopenhauer, uma paix??o pela morte e um desejo de destrui????o da exigência moral que aparecem muitas vezes em Nietzsche e uma grande confian??a nas possibilidades do saber no homem aonde podemos adivinhar Goethe.

 

Mann exigiu, desde os seus primeiros trabalhos, a responsabilidade cr??tica, moral e did??ctica da literatura. Manteve este propósito. Aquele que ?? conhecido por alguns como ??o pr??ncipe dos escritores burgueses, um monstruoso homem enciclop??dico cheio de ideias e com uma maravilhosa utiliza????o da l??ngua, ser??, seguramente, um homem sempre mais admirado do que querido. Contudo, deve ser lido porque revelou coisas interessantes. Destacaria, pelo menos, tr??s títulos Os Buddenbrook, Morte em Veneza e, apesar da dificuldade, A Montanha M??gica. Os que continuarem interessados encontrar??o abundantes pistas sobre os outros livros neste artigo.

 

Javier Cercas Rueda