Destino: China
Os livros publicados no pa??s, com pouca difusão no Ocidente, são herdeiros do realismo socialista. Embora haja excepções, como Mo Yan, e como est?? a acontecer também no cinema, a literatura que se produz na China depende do que o Partido Comunista permitir publicar.
Tem mais interesse a literatura escrita por dissidentes chineses exilados ou por escritores nascidos no estrangeiro, mas de origem chinesa. Afastados dos ditames do regime de Pequim, os seus livros reflectem com mais acerto as contradi????es de que sofre a sociedade chinesa actual.
Tr??s gerações
Para nos situarmos na história da China contempor??nea, vale a pena recordar Cisnes selvagens (Quetzal, 2002), o sucesso da escritora chinesa Jung Chang. Cisnes selvagens não ?? um romance, mas sim o relato da vida de tr??s mulheres que resumem as vicissitudes da história da China ao longo do s??culo XX. Primeiro, narra-se a vida de Yu Fang, av?? de Jung; depois a da m??e, Bao Qin/De-Hong (cisne selvagem, em chin??s).
A vida de Yu Fang, a av??, explica bastante bem o que aconteceu na China antes da chegada de Mao ao poder. A av?? foi concubina de um dos generais dos senhores da guerra, durante o per??odo de de- cad??ncia do imp??rio da Manch??ria. Toda esta parte tem um sabor tradicional ineg??vel.
A seguir, a passagem de testemunho ?? feita ?? m??e de Jung Chang, Bao Qin/De Hong que casou com um revolucion??rio comunista, um dos personagens mais comoventes do livro. No entanto, a pouco e pouco, o casal come??a a descobrir como o comunismo deriva na justificação da repress??o e da violência. Durante os anos da Revolução Cultural, os pais de Jung são denunciados e sofrem a política da insensatez. A terceira parte do livro ?? a vida da própria narradora até conseguir passar a viver na Gr??-Bretanha.
Os relatos narrados por Jung Chan são reais e aterradores. Embora por vezes seja dur??ssima a sua leitura, servem para explicar a história colectiva do povo chin??s sofredor. Como escreve a autora, "rodeada de sofrimento, de morte e de desola????o, tinha contemplado a indestrut??vel capacidade humana de sobreviver e de procurar a felicidade"(...).
Recuperar as ra??zes
Os livros de Amy Tan, residente nos Estados Unidos, explicam a realidade chinesa vista ?? dist??ncia. Merece destaque O clube da sorte e da alegria (Dom Quixote, 1993), o romance que lhe deu mais fama internacional , em que várias mulheres desfiam as suas vidas até formar um mosaico em que ?? reflectido mais de meio s??culo da história da China e dos Estados Unidos.
Teve também bom acolhimento A esposa do Deus do fogo (ASA, 1993). Muito menos interesse tem Um lugar chamado Nada (Casa das Letras, 2007), romance posterior a Os cem sentidos secretos (Presen??a, 1996), em que Tan volta a contrapor a mentalidade norte-americana ?? cultura oriental, mediante a cria????o de duas personagens atractivas. Ol??via, a narradora, ??, como Amy Tan, de origem chinesa mas nascida nos Estados Unidos e integrada na vida americana. Quando est?? prestes a divorciar-se, decide escrever para explicara sua relação com Kwan, sua meia-irm??.
O pai, pouco antes de morrer, revelou que tinha deixado na China uma filha da qual até esse momento ningu??m tinha tido notícia. Por morte do pai., Kwan viaja aos Estados Unidos para irromper em cheio na vida da família e em especial de Ol??via, na altura com seis anos. Kwan ?? a personagem mais conseguida deste romance.
A filha do curandeiro (Presen??a, 2002), outro romance de Amy Tan, narra a vida de uma mulher nascida na China no princ??pio do s??culo XX e que ap??s a revolução comunista emigrou para os Estados Unidos. A segunda parte da sua história, que decorre na Am??rica, ?? contada pela filha a partir de San Francisco.
Na primeira parte, Tan descreve com mestria e lirismo a paisagem e a mentalidade do pa??s dos seus antepassados. Os capítulos que falam da vida norte-americana da filha são lugares-comuns. (...)
Os olhares do ex??lio
A literatura de Ha Jin (Liaoning, 1956), escritor exilado h?? anos, assenta sobre sucessos mais contempor??neos, embora também fa??a incurs??es no passado. Em 1999 recebeu o National Book Award com o romance ?? espera (Gradiva, 2000). Ambientado nos anos 60, centra a sua cr??tica da burocracia comunista na história do m??dico Lin Kong, obrigado a ocultar os seus verdadeiros sentimentos para não ser considerado um perigoso burgu??s.
(...) Mais hist??rico ?? Destro??os de guerra ( Gradiva, 2007), presum??veis mem??rias de Yu Yan durante os seus anos como prisioneiro de guerra da Coreia, no início da década dos 50. Yu Yan ?? um dos militares integrados nos chamados Volunt??rios do Povo Chin??s, artif??cio ret??rico inventado para justificar a interven????o a favor dos norte-coreanos. Poucos meses depois, ?? feito prisioneiro por um destacamento dos Estados Unidos e a partir desse momento come??a o seu peregrinar como prisioneiro de guerra.
Gao Xingjian, Pr??mio Nobel
Tamb??m saiu da China Gao Xingjian (1940), Pr??mio Nobel de Literatura no ano 2000. Entre a sua variada dedica????o art??stica ??? poeta, dramaturgo, ensa??sta, pintor... - destacam-se dois romances estranhos, monumentais, que abordam os s??mbolos chineses com um olhar mais ocidental. S??o A Montanha da Alma (Dom Quixote, 2002), que ?? considerada a sua grande obra (boicotada pelas autoridades comunistas) e O Livro de um Homem S?? (ainda sem tradu????o portuguesa). Talvez possa servir como introdução a este autor, nada f??cil, o seu livro de relatos Uma cana de pesca para o meu av?? (Dom Quixote, 2001; também editado com os livros do P??blico) (...).
A loucura da Revolução Cultural
A Revolução Cultural, grande tema literário para os escritores do ex??lio, ?? o contexto do romance autobiogr??fico O Teatro dos L??rios (s?? editado no Brasil), de Lulu Wang, autora que vive na Holanda. A protagonista ?? Lian, uma jovem educada segundo os c??nones da ditadura comunista; juntamente com a m??e e outros intelectuais, durante os anos da Revolução Cultural, ?? enviada para um campo de reeduca????o. Pare se evadir do ambiente opressivo, escapa-se para o que ela denomina o Teatro dos L??rios, onde em contacto com a natureza fala com as r??s e as cigarras sobre a sua própria vida. O lirismo destas passagens contrap??e-se ?? descri????o de situações complicadas e duras.
(...) De inten????o cr??tica, mas num contexto mais próprio do pa??s ??? a ??pera chinesa ??? ?? o tema de Adeus minha concubina, de Lilian Lee (ASA, 1994; e edi????es sucessivas em 96, 97, 2002). Conta com uma adapta????o cinematogr??fica feita pelo realizador Chen Caige.
Muito divertida e original, apesar de contar sucessos dram??ticos sem dúvida ?? Balzac e a costureirinha chinesa (Terramar, 2000), de Dai Sijie, escritor e cineasta a viver em Fran??a. Durante a Revolução Cultural mao??sta, o narrador, um alter-ego do próprio autor e Luo, ambos com menos de 18 anos, são enviados para uma aldeia rural chinesa pobre. Outro jovem, que também est?? a ser reeducado numa aldeia próxima, empresta-lhes uns quantos romances de autores ocidentais, artigos totalmente proibidos na altura. O enfoque ?? muito original, tal como a cr??tica ao regime chin??s.
Dai Sijie publicou depois O complexo de Di (Dom Quixote, 2005), retrato da China actual com um argumento estramb??lico, mas com menor qualidade literária e menos capacidade de surpreender.
O romance policial, recurso para a den??ncia
Com maior influência do mundo ocidental ?? a literatura de Wei Hui, autora que conseguiu um ??xito importante com Shangai baby (Quetzal, 2002), romance em que o ??nico aliciante parece provir da liberdade sexual da protagonista.
As mudanças mais recentes na China são também o pano de fundo de vários romances policiais, como o escrito por Diane Wei Lang, O olho de jade (por agora, s?? editado no Brasil)... Wei teve que abandonar o pa??s ap??s as mortes na Pra??a de Tiananmen em 1989, e vive actualmente em Londres.
O olho de jade ?? protagonizado pela detective Mei Wang, uma jovem moderna, independente, que cria a sua própria ag??ncia de detectives em Pequim. A?? recebe a incumb??ncia de averiguar o paradeiro de um valioso olho de jade, desaparecido do museu na ??poca da Revolução Cultural. O romance centra-se nestas investigações e na vida da própria Mei. Seguindo as perip??cias de Mei, vemos as mudanças que se estão a operar na sociedade chinesa, a presen??a omnipotente do .Partido Comunista, os novos valores da juventude, a espantosa influência da cultura ocidental, o contraste entre a mentalidade chinesa tradicional e os novos tempos... E os diferentes bairros de Pequim, cidade que também se converte em protagonista.
(...)
Literatura mais comercial
J?? fora do romance policial e a resvalar para a ??rbita do best-seller encontra-se Lisa See (norte-americana de origem chinesa), que triunfou h?? anos com O leque secreto (Presen??a, 2006).
Recentemente, foi traduzido O Pavilh??o das Pe??nias (Ed. Biz??ncio, 2008), romance de amor que decorre na China milenar. O melhor do romance ?? a ambienta????o hist??rica e o recriar de modos de vida e de costumes.
Aqui também entrariam os livros de Anchee Min (Shangai, 1957), como A cidade proibida (ainda não editado em portugu??s), embora a autora tenha escrito dois testemunhos demolidores sobre a história chinesa recente durante a ??poca mao??sta: Madame Mao (Teorema, 2001) sobre a mulher de Mao e A imperatriz orqu??dea (Teorema, 2005), ambientada durante a tristemente c??lebre Revolução Cultural. Anchee Min vive exilada nos Estados Unidos.
Outros olhares, outras histórias, outros cen??rios. Tamb??m cada vez menos exotismo, pois a globaliza????o acabou por aproximar a realidade distante.
Alguns autores imitam os modelos europeus e norte-americanos, deixando-se influenciar, por vezes talvez em demasia, pela literatura mais comercial. Outros escritores continuam apegados ?? realidade chinesa, olhada a partir de dentro, como no caso de Mo Yan. E também h?? aqueles que, do ex??lio e com acentuada nostalgia, escrevem de outra maneira sobre o passado mais recente, como faz Ha Jin, e sobre o presente mais problem??tico.
N.R.: S??o j?? numerosas as edi????es portuguesas de autores oriundos da China. A redac????o de www.aceprensa.pt seleccionou, do texto original, apenas os autores j?? editados na nossa l??ngua. Na sua maioria, trata-se de tradu????es a partir do ingl??s e, nalguns casos, também do franc??s. O texto integral pode ser lido em www.aceprensa.com

