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O escritor V.S. Naipaul, em Lisboa, a 22 de Novembro

 Literatura
O escritor V.S. Naipaul, em Lisboa, a 22 de Novembro

Em busca de identidade e enraizamento

 

A atribui????o do Pr??mio Nobel de Literatura a V.S. Naipaul, em 2001, salienta a crescente import??ncia de autores que, oriundos de ex-col??nias brit??nicas, se sentem herdeiros da tradi????o literária inglesa, contribuindo para a sua renova????o, mediante as suas obras. Nos livros de Naipaul aparecem, com frequ??ncia, problemas relacionados com a identidade, o desenraizamento e o ex??lio, caracter??sticos de um mundo p??s-colonial e também a projecção das experiências pessoais do escritor.

 

V. S. Naipaul, um dos escritores do nosso tempo mais originais e polémicos de l??ngua inglesa, nasceu em 1932, em Trinidad, ilha das Antilhas, numa comunidade rural hindu, denominada Chanaguas. Em meados do s??culo XIX, aquando do movimento massivo de trabalhadores entre as diferentes col??nias brit??nicas, o av?? emigrou da ??ndia para Trinidad. Desde criança, o pai, Seepersad Naipaul, jornalista, fomentou no filho o amor ?? literatura e entusiasmou-o a ser escritor. Aos 18 anos, conseguiu uma bolsa para Oxford e, desde ent??o, passou a viver em Inglaterra. Foi em Oxford que conheceu a sua primeira mulher, Patricia Hale, falecida em 1996. Actualmente ?? casado com a jornalista paquistanesa, Nadira Alvi.

 

Escritores p??s-coloniais

 

Naipaul iniciou a sua carreira no Reino Unido, trabalhando como jornalista em diferentes meios de comunicação, tais como a BBC e a revista New Statesman. Com cerca de trinta obras publicadas, entre colect??neas de contos, uma autobiografia, livros de viagens, ensaios, cr??tica cultural e romances, Naipaul foi galardoado com os melhores prémios literários em l??ngua inglesa e inclusivamente foi-lhe concedido pela coroa brit??nica o título honor??fico de Sir.

 

Pertence a um grupo de autores que, embora nascidos fora das ilhas brit??nicas, estão a renovar a literatura inglesa, ampliando o elenco de temas tratados e promovendo experiências com a l??ngua e com a forma literária. Neste grupo, incluem-se figuras como Salman Rushdie, Timothy Mo, Kazuo Ishiguro, Andrea Levy, Hanif Kureishi e Ben Okri. As suas obras fazem com que os ingleses tomem consciência e enfrentem os efeitos culturais de s??culos de imperialismo. Utilizando a l??ngua inglesa, a criatividade de escritores com origens africanas, indianas ou das Cara??bas, est?? a reescrever a história e a dar a conhecer a vers??o alternativa ?? oficial.

 

Quando a Academia Sueca destaca Naipaul pela forma como "uniu a percepção narrativa e um exame implac??vel em obras que nos obrigam a ver a presen??a de histórias ocultas", assinalou um dos traços que definem este escritor. Consciente das suas ra??zes asi??ticas, Naipaul elaborou histórias que v??o construindo a forma de compreender a identidade e o ??mbito em que nos movemos.

 

Sentir o desenraizamento

 

A sua história pessoal est?? intimamente ligada ?? sua obra criativa. "Venho de uma sociedade pequena, explica. Era muito consciente de que não tinha influência no mundo: estava ?? margem dele. Al??m disso, pertencia a um grupo minorit??rio, emigrei, converti-me num estrangeiro e fiz-me escritor: como se pode apreciar, são muitas as coisas que me impedem de sentir-me enraizado". A partir desta "des-localiza????o", Naipaul produziu, em l??ngua inglesa, uma das obras literárias mais complexas e exigentes.

 

A sua experiência em Trinidad ??? pa??s de relações raciais rigidamente hierarquizadas, de tens??o religiosa e corrupção política ??? e a ida para Inglaterra ??? onde, uma vez mais, se encontrava deslocada dada a sua qualidade de expatriado ??? enformam o seu modo de ver o mundo. O seu pensamento caracteriza-se por una ideia pragm??tica, e por vezes pessimista, da história e por evitar dar uma vis??o sentimental da Inglaterra ou das suas antigas col??nias.

 

Quando afirma que a "Inglaterra ?? muito pequena para mim, porque não abrange elementos como o meu nascimento nas Cara??bas, a minha condi????o natural forjada na ??ndia mesmo antes de nascer, a minha identidade asi??tica", Naipaul aponta para um processo de convers??o a uma nova identidade nacional e cultural, sugerindo ao mesmo tempo, que a identidade dos sujeitos p??s-coloniais requer uma constante revis??o. O seu desejo de viajar, que deu como frutos livros de viagens ?? ??ndia, Congo, Espanha, Paquist??o, Ir??o, Venezuela, Argentina e Estados Unidos, aliado ao seu vasto conhecimento da história, manifestam a sua preocupa????o pela condi????o do homem do nosso tempo.

 

Recriar um lugar

 

Entre as primeiras obras de Naipaul destaca-se Miguel Street (1959), que ganhou o Somerset Maugham Award. Esta colect??nea de contos relata a vida de um bando de rapazes num bairro de Trinidad. ?? essencialmente uma mem??ria da infância, recordada pelo protagonista, um mi??do que pouco depois ir?? para Inglaterra. Este ciclo antecipa j?? um tema recorrente de outras obras de Naipaul: o cont??nuo desenraizamento do lugar onde se vive e sugerindo que a aliena????o dos sujeitos p??s - coloniais ?? inevit??vel.

 

Não obstante, a necessidade que o autor manifesta de criar e recriar espa??os tanto na fic????o como no ensaio, parece dar a entender que o sentido ?? determinado pelo ??mbito existencial de cada pessoa. Na medida em que cada indiv??duo se apropria desse espa??o, criando um centro, um ponto de partida para a defini????o de si próprio, a partir do qual pode propor as suas metas e actuar no mundo. Quando não é possível conseguir esse espa??o, como Naipaul sugere no caso dos imigrantes indianos em Trinidad e depois na Inglaterra, complica-se a dial??ctica de perten??a e aliena????o.

 

A consciência de pertencer ?? di??spora indiana também ?? um tema importante nestes prim??rdios de aproxima????o ?? criatividade literária. O seu primeiro romance de maior relevo foi A House for Mr. Biswas (1961) (cf. serviço 172/99, edi????o impressa), considerada j?? um clássico da literatura p??s-colonial, onde reconstr??i imaginativamente a experiência indiana em Trinidad, baseando-se na vida do seu pai. O protagonista deste romance luta pela independ??ncia pessoal e familiar e, simultaneamente, pela defini????o da sua identidade. Apropriando-se de uma das met??foras mais significativas da literatura inglesa ??? a casa de família ???, Naipaul utiliza o desejo que Biswas tem de possuir a sua própria casa, como um sinal da busca da identidade e de um lugar próprio, por parte do sujeito colonial. Mais tarde, Naipaul retoma a tem??tica paterna quando publica a correspond??ncia trocada entre ambos nos anos 50, em Between Father and Son (1999).


Lutas em territórios p??s-coloniais

 

Depois de Biswas, o autor come??a a analisar criativamente a sua experiência pessoal de indiano nascido nas Cara??bas, o seu ex??lio e frustra????o em Inglaterra, bem como a vida solit??ria de um escritor. Ao mesmo tempo adopta um enfoque mais político dos temas. ?? o que se reflecte na novela The Mimic Men (1967) e na colect??nea de relatos A Flag on the Island (1967). Concretamente, na obra The Mimic Men, cria um narrador que ser?? o prot??tipo de outros futuros narradores: um homem de origem hindu que, atrav??s do relato e da arte de escrever, procura investigar a sua própria vida. Este narrador pode confundir-se facilmente com o próprio Naipaul, cuja produção art??stica est?? ligada ?? sua vida e preocupações reais.

 

A partir daqui, Naipaul come??a também a analisar as lutas em territórios p??s-coloniais, onde os ocidentais sonham viver aventuras ex??ticas que fracassam porque eles não compreendem as sociedades onde se inserem. Na sua obra In a Free State (1971), faz uma an??lise do problema da liberdade do indiv??duo do mundo p??s-colonial, mistura de autobiografia e fic????o, galardoada com o Booker Prize. A novela Guerrillas (1975) enquadra-se nas manifestações do black power e num movimento guerrilheiro de Trinidad. Nesta obra demonstra uma magnífica elabora????o da fic????o e do ensaio jornal??stico. A Bend in the River (1979) ?? um romance pessimista situada num pa??s africano imagin??rio, cujo protagonista, Salim, ?? um indiano muçulmano que descobre que não tem lugar nesse pa??s.

 

Entre a autobiografia e a fic????o

 

Naipaul tem falado muito da morte do romance na sua forma clássica, porque pensa que o modelo tradicional deste g??nero não ?? adequado para reflectir a condi????o do homem moderno. Por consequência luta para criar uma configura????o literária com uma estrutura capaz de exprimir essa condi????o. Duas das suas obras mais emblem??ticas são o resultado da sua experiência com a mistura de g??neros. Embora sejam catalogadas normalmente como romances, deviam ser classificadas preferencialmente como document??rios ou ensaios autobiogr??ficos.

 

Na obra The Enigma of Arrival (1987) conta a história da luta que travou para ser escritor e encontrar um mundo onde pudesse realizar-se, num estilo que explora continuamente as fronteiras entre a autobiografia e a fic????o. De certo modo, o autor fala da sua conquista pessoal da Inglaterra, ao estabelecer-se ali como escritor. Não ?? uma história de assimila????o da cultura e da sociedade brit??nica; bem pelo contr??rio, Naipaul argumenta que os indiv??duos nascidos em pa??ses colonizados são herdeiros da tradi????o literária inglesa e, como tal, também donos da mesma. O que Naipaul prop??e ?? que os pa??ses colonizados também t??m o seu lugar na história e na cultura inglesas, j?? que estão a modific??-la de uma forma muito inovadora, como parte do processo que Salman Rushdie designa como "o Imp??rio contra ataca". A Way in the World (1994) mistura epis??dios fragment??rios da própria vida do autor com "histórias não escritas". Duas destas são dramatiza????es de sucessos da história de Trinidad. O livro sugere que a história ?? constitu??da de m??ltiplas camadas, e que as culturas se constroem tanto sobre o passado conhecido, como sobre o desconhecido.

 

Livros de viagens

 

O primeiro dos seus livros de viagens, The Middle Passage (1962), deve-se a uma bolsa concedida pelo governo de Trinidad que lhe permitiu visitar o seu pa??s. Tamb??m ?? desta ??poca The Loss of El Dorado (1969), a história antiga de Trinidad, que se situa entre e a pesquisa do ouro e as revolu????es americanas, francesas e sul-africanas. As diversas estadas no pa??s dos seus antepassados deram lugar a várias obras not??veis, como An Area of Darkness (1964), uma história pessimista da sua desilus??o e reconhecimento de uma situação de desenraizamento provocada pelo colonialismo.

 

Enquanto estava a residir na ??ndia, escreveu Mr. Stone and the Knight's Companion 1963), o seu primeiro romance situado em Inglaterra. Naipaul tem plena consciência daquilo que designava como trag??dia da ??ndia, desde as conquistas islâmicas até ?? di??spora de milhões de cidad??os indianos para todo o mundo. Algum tempo depois escreveu ??ndia: A Wounded Civilization (1977) (ver serviço 81/98, edi????o impressa), onde defende algumas políticas muito discut??veis, levadas a cabo pelo governo de Indira Gandhi, como a imposi????o do Estado de Emerg??ncia nos anos 70. Apresentar?? novas perspectivas numa obra posterior, ??ndia: A Million Mutinies (1990), evidenciando sinais positivos de renova????o na vida e cultura da ??ndia. Como refere Naipaul, o seu papel como escritor ?? ???olhar e voltar a olhar, olhar e re-pensar".

 

Parte do seu g??nio reside em ser politicamente incorrecto. Na realidade, Naipaul parece divertir-se no papel de enfant terrible das letras inglesas e provocar esc??ndalos com as suas declara????es. Um dos membros do Comit?? Nobel classificou-o inclusivamente de "egoc??ntrico, perverso, com um carácter dif??cil... mas com as ideias muito claras e uma forma de escrever ??nica ". Tamb??m ?? not??ria a sua capacidade de se hostilizar com outros escritores (o caso mais famoso ?? o da sua relação com Paul Theroux, que escreveu um livro mordaz, Sir Vidia's Shadow [1998], sobre o final da sua amizade). ?? um intelectual polémico, que criticou duramente os pa??ses do Terceiro Mundo e certos grupos ??tnicos e sociais, responsabilizando-os pela sua própria falta de desenvolvimento. Por exemplo, o outro Pr??mio Nobel Derek Walcott, também caribenho, criticou-o pelo que qualifica ser o seu "??dio aos negros".

 

Rejei????o religiosa

 

Al??m disso, ?? patente a sua atitude anti-religiosa. O seu rep??dio da religi??o ?? global mas centra grande parte da sua animosidade no Islão. A este tema dedicou duas obras ??? Among the Believers: An Islamic Journey (1980) e Beyond Belief: Islamic Excursions about the Converted Peoples (1998) ??? cujo g??nero oscila entre o relato de viagem e a an??lise cultural. Naipaul censura os islâmicos pela sua rejei????o da civilização ocidental, ao mesmo tempo que aproveitam os seus avan??os tecnológicos. Critica também a perda das valiosas tradi????es pr??-islâmicas nos pa??ses que visita (Ir??o, Paquist??o, Indon??sia e Mal??sia), bem como o fanatismo associado ao fundamentalismo.

 

Explica que, sendo o Islão originariamente uma religi??o ??rabe, qualquer muçulmano não ??rabe ?? um convertido. Isto, argumenta, leva a que na????es inteiras, como o Paquist??o, se separem da sua própria história e das suas tradi????es. Estes livros foram criticados pelo que muitos consideram a sua vis??o estreita e parcial do Islão, e por afirma????es problem??ticas como "talvez não tenha havido um imperialismo como o do Islão e dos ??rabes". Não obstante, mostra sempre compreens??o para com o indiv??duo oprimido e nas suas obras encontram-se retratos muito positivos do homem simples e indefeso. Tamb??m falou com muita for??a de todos os abusos contr??rios aos direitos humanos.

 

H?? quem opine que, em certas ocasi??es, a concess??o do prémio Nobel não ?? alheia a raz??es políticas, como aconteceu com a escritora sul-africana Nadine Gordimer, que o recebeu pouco depois da queda do apartheid. Neste caso se Naipaul tivesse sido uma pessoa mais liberal, e menos do g??nero "reaccion??rio carrancudo", t??-lo-ia recebido antes por raz??es estritamente literárias, como refere Stuart Wavell. As suas palavras ?? imprensa ao receber a notícia foram um indício do que pode ser uma nova atitude: "Estou absolutamente encantado. ?? um elogio inesperado e uma grande homenagem para a Inglaterra, para o meu pa??s, e para a ??ndia, pa??s dos meus antepassados". Palavras que colocam em evid??ncia quer a sua preocupa????o hist??rica, quer o seu reconhecimento de que j?? encontrou um espa??o, de que conseguiu resolver alguns problemas que constam nas suas obras.

 

Experimentar com a linguagem

 

Mas Naipaul ??, em primeiro lugar, um escritor consciente da sua voca????o. A sua decisão de lutar por ser escritor, muito antes de que estivessem na moda as palavras "p??s-colonial" ou "multicultural", foi verdadeiramente ousada. Apresentando um domínio do ingl??s surpreendente na sua precis??o, faz experiências com regionalismos, muitas vezes com fins humor??sticos. Tem uma especial sensibilidade para o pormenor que converte a sua prosa s??bria numa experiência poética em perfeita sintonia com o som, o ritmo e técnicas ret??ricas da prosa. Al??m disso, Naipaul destaca-se pela capacidade de encontrar aspectos c??micos, inclusive em temas s??rios e tr??gicos da vida das suas personagens e de certas tradi????es.

 

A intertextualidade das suas obras, a sua permanente experimenta????o com a autobiografia e a fic????o, a sua constante preocupa????o pela situação p??s-colonial com as suas consequências para o sujeito que procura definir a sua identidade, experimentam-se sob diferentes formas em todos os seus escritos. Uma dessas preocupações de fundo articula-se na projecção das experiências da sua própria vida na sua obra literária. A sua experiência da falta de uma história e espa??o próprios, de viver entre culturas, de procurar uma ordem narrativa para a sua experiência, da necessidade de criar e experimentar com a linguagem e, para que possa exprimir tudo, torna-se um corpus art??stico plural e enriquecedor.

 

Curiosamente, muitos dos seus personagens são também escritores, ou desejam s??-lo, e refere-se muito ao papel da literatura na vida quotidiana. Como Naipaul se considera um historiador do seu tempo, também povoa os seus romances com historiadores. ?? interessante analisar a vis??o que Naipaul apresenta da história contempor??nea, sobretudo no que se refere ao processo de descoloniza????o na ??ndia, ??frica e nas Cara??bas, ao crescente conflito entre o fundamentalismo islâmico, ao capitalismo e individualismo ocidental, ??s relações raciais nos Estados Unidos e Inglaterra.

 

Consciente dos problemas do mundo p??s-colonial, Naipaul luta na sua obra criativa a favor de uma ordem que rompa as algemas da história. Sugere que a literatura ?? que pode proporcionar esta ordem, e que, atrav??s da palavra, podemos vencer as cadeias do passado para reescrever a história e encontrar o seu sentido mais profundo e mais real. Considerando-se a si mesmo "escritor do mundo", afasta-se das tradi????es estabelecidas, obrigando assim os seus leitores a reequacionarem muitas questões vitais.

 

*Roc??o G. Davis e Rosal??a Baena, Professoras de L??nguas e Literaturas Modernas (Universidade de Navarra).