Edgar Allan Poe, o homem que nunca sorria
Poe viveu na primeira metade do s??culo XIX. Nos seus escassos quarenta anos de vida conseguiu legar-nos uma obra de certo volume e grande influência. A sua mem??ria persiste sem dúvida devido ao prest??gio dos seus admiradores: Dostoievsky, Kafka, Cort??zar, Borges, Lovecraft, Bradbury, Val??ry, Maupassant, Verlaine, Rimbaud, Baudelaire, Nietzsche, Conrad, etc. Fernando Pessoa foi um dos seus tradutores e considerava-o uma "das figuras literárias mais not??veis da Am??rica Inglesa". Costuma ser citado como precursor do romantismo, do surrealismo e do simbolismo, para não falar da influência que teve na m??sica, no cinema, na banda desenhada e na pintura.
Poeta maldito
Alma vagabunda, perp??tuo desamparado e solit??rio, a sua vida foi um desastre, sob todos os pontos de vista: um deslizar para o abismo quase desde o princ??pio da vida, até ?? destrui????o f??sica, moral e intelectual. Tendo-lhe morrido os pais, foi aos dois anos acolhido por um tutor com quem nunca havia de se dar bem. De carácter nervoso e irrit??vel, t??mido e triste, foi um talento precoce e um homem orgulhoso e violento, apesar da sua permanente situação de pobreza (ou talvez devido a ela). Arrogante, dado ?? mentira e um tanto violento, cedeu desde novo aos excessos a que o arrastava a sua natureza: o jogo, a bebida, o ??pio e as paix??es ardentes.
Consciente do talento que possu??a, conseguiu criar inimizades com todos os escritores norte-americanos, a quem desprezava e fustigava nas suas cr??ticas. Não acabou nada do que come??ou: nem a universidade, nem a carreira militar, e também não conseguiu permanecer muito tempo em nenhum dos seus empregos em jornais e revistas. Todas as mulheres que amou ou morriam de tuberculose, ou j?? eram casadas, ou não o queriam.
Poucos ??xitos teve em vida como escritor e quase nunca editou os livros que queria. Não se sabe exactamente de que morreu (delirium tremens, tuberculose ou tumor cerebral); de qualquer modo, s?? e ?? beira da desgra??a. Deixou-nos um romance, 71 contos, várias centenas de poemas, um sem-fim de cartas; de si próprio, ficou-nos a imagem lend??ria de um artista de g??nio, que se avolumou com o tempo.
Narrativa g??tica e sobrenatural
O clima geral das suas narrativas ?? de uma extrema alucina????o rom??ntica.
As suas narrativas são constru????es lógicas, nas quais cada acontecimento e cada pormenor ambiental se orienta para um fim: produzir um efeito ??nico.
Escolhia para cen??rios ambientes exc??ntricos e escabrosos, onde podia explorar novas formas de macabro e de arrepiante. Poe era o t??pico gentleman sulista, elegante e refinado, familiarizado com o ambiente das amas negras que lhe enchem a imaginação com histórias de apari????es, cemit??rios e cad??veres. O seu carácter, a sua obsess??o pelo medo e os frequentes per??odos que passava imerso em n??voas et??licas fizeram o resto, mergulhando-o numa atmosfera de terror sobrenatural (melhor dito, supersticioso) e de morte que alimenta a maior parte das suas cria????es.
Poe ?? sin??nimo de narrativa g??tica. Edif??cios e casas abandonadas, a morte encarada sob todos os pontos de vista (apari????es, m??mias, necrofilia, metempsicose, campas, cemit??rios, espectros, sombras, catalepsias), tens??es provocadas ao medo e escurid??o. Alguns dos seus contos mais conhecidos seguem esta linha: Manuscrito Encontrado numa Garrafa, Ligeia ou A Queda da Casa de Usher.
Um segundo e menos importante grupo de narrativas inclui as suas explora????es do passado e do futuro, as narrativas em que se debru??a sobre estados de esp??rito, os textos grotescos e os contos sat??ricos. Obras como A Extraordin??ria Aventura de um tal Hans Pfall ou The Balloon Hoax antecipam as fantasias cient??ficas que mais tarde tornar??o famosos H. G. Wells ou J??lio Verne.
Estes dois grupos de contos acusam a passagem do tempo, sobretudo no estilo. ?? a prosa palpitante dos extremos, de um classicismo florido e de uma intensidade mel??dica. S??o narra????es que se recreiam no espantoso, escritas num estilo sat??rico e par??dico, estridente e colorido, concebidas para impressionar e surpreender, com as quais o autor demonstra o seu talento heterog??neo cheio de humor negro.
Baudelaire afirmou que nunca escritor algum tinha narrado com tanta magia as "excepções" da vida humana, o absurdo dominando a realidade da raz??o e da lógica, a histeria usurpando o lugar da vontade. As personagens do autor de Boston, dir?? Edmund Wilson, agem como her??is rom??nticos, que se enfrentam com os valores, com as leis humanas e religiosas do seu tempo. O leitor recebe, no momento preciso em que a personagem se enfrenta com o facto misterioso e os nervos se lhe desequilibram, uma espécie de ilumina????o, vislumbra um espa??o supra-real onde o homem procura equilibrar-se entre a realidade e um mundo desconhecido.
Poe defende um credo pragm??tico de cariz jornal??stico: laconismo, unidade de efeito, sensacionalismo m??rbido. Em palavras suas: "O absurdo a raiar o grotesco, a apreens??o matizada de horr??vel, o singular revestido de estranho e de m??stico. Poder-se-ia dizer que tudo isto ?? de mau gosto."
Contos de racioc??nio
As obras que mais vivas permanecem são as de mistério e an??lise, com laivos de aventura, ou numa perspectiva detectivesca.
Talvez as obras que mais vivas permanecem sejam as de mistério e an??lise, quer com laivos de aventura e de enigma (O Escaravelho de Ouro), quer numa perspectiva detectivesca (o ciclo de Auguste Dupin, constitu??do por Os Crimes da Rua Morgue, O Mist??rio de Marie Rog??t e A Carta Roubada).
Para muitos, Dupin ?? o mais bem conseguido. ?? o triunfo do m??todo sobre a intui????o e da an??lise sobre o cálculo, sabe olhar com vis??o de conjunto, aceder ?? mente do opositor e antecipar-se. ?? o rei da dedu????o. S??o as mais realistas narrativas de Poe, sem prescindir de um certo toque de fantasia. S??o estes contos que melhor se l??em hoje em dia, apesar de o estilo ser ainda cansativo (sobretudo em Rog??t) ou os ingredientes fantasiosos (veja-se quem ?? o assassino de Morgue) ou aventurosos (Escaravelho) poderem, segundo algumas opini??es, afast??-las da literatura s??ria. Estes contos ir??o preparar a chegada de personagens c??lebres como Sherlock Holmes ou o Padre Brown.
Em cada narrativa, Poe procura um efeito. Come??a com os olhos postos no desenlace, demora-se com pormenor na descri????o de ambientes e de estados de ??nimo, é preciso e eficiente nas frases. Os finais abruptos e incompletos prolongam um estado an??mico de incerteza e de ang??stia. Nas suas narrativas não h?? concess??es ?? vacuidade nem ?? incoer??ncia de cariz rom??ntico: são constru????es lógicas, de uma precis??o clínica, nas quais cada acontecimento e cada pormenor ambiental se orienta para a produção de um efeito ??nico e traum??tico.
Edi????es do Bicenten??rio
Em Lisboa, acaba de ser reeditado Hist??rias Extraordin??rias, em formato de livro de bolso, na colec????o BIS, do grupo Leya. Por ocasi??o do col??quio "Poe e Criatividade G??tica", de 18 a 20 de Mar??o a tradutora Margarida Vale de Gato apresentou a Obra Po??tica Completa, da editora Tinta-da-China. Em Abril/Maio, est?? prevista a sa??da dos Contos Completos na Quetzal.
A verdade costuma estar entre os extremos (Borges: "n??o se concebe a literatura actual sem as suas narrativas"; Bloom: "?? um escritor atroz"). Não restam dúvidas de que foi o primeiro em muitas coisas, e isso conta, e que a sua fórmula (mistura de comicidade grotesca, personagens caricaturescas e vis??es opi??ceas) impressionou gerações de escritores e de leitores. Este anivers??rio ?? uma boa oportunidade para nos aproximarmos da sua vida (Baudelaire dizia que levava a palavra desmancha-prazeres escrita nas rugas da testa) e das suas melhores narrativas.
Javier Cercas Rueda
(com contributos de www.aceprensa.pt nas refer??ncias a edi????es portuguesas )

