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O universo literário de Ismail Kadar??

 Literatura
O universo literário de Ismail Kadar??

O nome do escritor alban??s tem soado como um forte candidato ao Pr??mio Nobel nos últimos anos. Não se trata, neste caso, do t??pico escritor desconhecido, resgatado de uma literatura ex??tica, como muitos recentes Nobel. Kadar?? ?? um autor sumamente celebrado no Ocidente. Em Fran??a, por exemplo, tem toda a sua produção traduzida e, em 1992, foi finalista do prestigioso prémio Femina. Como ?? que teve tanto ??xito no estrangeiro um escritor da Alb??nia, um pa??s que tem vivido num tradicional e pouco espl??ndido isolamento?

 

H?? poucas décadas atr??s, Juli??n Juder??as questionava-se no seu clássico livro sobre A lenda negra do que seria de Shakespeare se, em vez de ter nascido Ingl??s, fosse belga ou polaco. Não h?? dúvida de que a hegemonia cultural de algumas na????es tem gravitado ?? volta da sorte literária de muitos talentos. Na famosa frase de se algo de bom pode sair da Galileia, de Espanha ou de onde quer que seja, talvez hoje pudesse acrescentar-se o nome de um lugar t??o alheio ao agitado caminhar do mundo como a Alb??nia.


Ambiguidade política

 

Ismail Kadar?? nasceu em Gjirokaster, no sul da Alb??nia em 1936. A experiência infantil da guerra causou-lhe uma profunda impress??o que se ver?? reflectida num dos seus melhores romances, Cr??nica da cidade de pedra. Muito jovem, inicia-se na poesia e segue estudos de Letras, em Tirana. Com uma bolsa do seu governo, viaja para Moscovo, onde trabalha no Instituto Gorki para escritores. A desilus??o que lhe produz o sistema sovi??tico, ser?? descrita posteriormente nos seus romances O crep??sculo dos deuses da estepe e O grande inverno. A polémica ruptura das relações entre a URSS e a Alb??nia ?? o pretexto para Kadar?? abandonar a R??ssia em 1960. Cinco anos mais tarde, consagra-se como escritor a tempo inteiro, o que s?? se explica porque o seu trabalho ?? recompensado financeiramente pelo Estado. Pouco depois, com a publica????o de seu romance O general do ex??rcito morto (1967), vem o sucesso e o reconhecimento nacional.

 

A sua atitude favorável ao regime de Enver Hoxha permite-lhe residir em Paris com um cargo oficial e dirigir a revista Letras albanesas, que visa promover a literatura de seu pa??s. De qualquer modo, as suas simpatias políticas são causa frequente de controvérsia pela sua ambiguidade. Assim, em 1989, quando aparecem os primeiros sinais de democratiza????o, ?? eleito vice-presidente da Frente Democrática. Ainda assim, apesar da sua formação ideológica, ?? ineg??vel que o talento literário de Kadar?? se desenvolve por caminhos alheios ao do dogmatismo est??tico socialista. A sua obra ?? uma s??ria tentativa de construir um espa??o e tempo próprios, um universo literário s??lido e coerente, a partir da realidade albanesa. Para isso, Kadar?? afasta-se de qualquer tendência ao pitoresco e cria um mundo regido pelas leis do mito e da tradi????o secular.


V??rios temas e estilos

 

Ao longo de uma longa carreira literária são muito variados os temas e estilos com que trabalha Kadar??. Como acontece quando frequentamos as obras de qualquer criador aut??ntico, mais cedo ou mais tarde, assomam obsess??es comuns que estruturam todo o conjunto. No entanto, ?? um autor de extraordin??ria versatilidade. Tanto imagina uma trama simb??lica e fant??stica de consequências alucinantes (O Pal??cio dos Sonhos) como escreve uma den??ncia política (O Grande Inverno, o Concerto). Num romance revivemos a Il??ada (Os tambores da chuva) e noutros a ac????o remansa num imenso poema (Abril despeda??ado, O crep??sculo dos deuses do estepe). Com igual facilidade constr??i uma narrativa pseudopolicial (A viagem de n??pcias, O Dossier H) ou um texto directamente autobiogr??fico (Cr??nica da cidade de pedra), ou uma fic????o hist??rica baseada numa lenda oral (A ponte de tr??s arcos). Logo, o leitor não deve esperar semelhanças superficiais. Kadar?? gosta de tocar teclas muito diferentes, g??neros totalmente d??spares. Apenas permanece a presen??a da Alb??nia como espa??o terr??vel e hostil, mas, ao mesmo tempo, profundamente amado.

 

Aqueles que se dedicam ?? ??rdua tarefa de narra????o sabem quanto trabalho se oculta no domínio do diálogo. Cervantes, em larga medida, consagrou-se com os col??quios geniais entre o Fidalgo de la Mancha e o seu escudeiro. Kadar??, no seu romance O general do ex??rcito morto (1967), obt??m um excelente resultado pelo mesmo caminho. Outra dupla como a de Cervantes, um general italiano e um sacerdote católico, são pagos pelo seu governo para percorrer todos os cantos da Alb??nia, ?? procura dos cad??veres enterrados do ex??rcito de Mussolini durante a Segunda Guerra Mundial. O que lhes parece um piedoso dever (devolver os mortos ??s suas famílias) transforma-se numa aventura macabra. As observa????es de um e de outro v??o delatando a progressiva sensa????o de inquietude ao reviver os horrores de uma guerra injusta e ao conhecer um povo como o alban??s, que se lhes revela como terr??vel e indom??vel. Poder-se-ia pensar que ?? dif??cil manter o interesse e mesmo o suspense, atrav??s do diálogo enquanto arma principal. No entanto, al??m de atingir este objectivo, Kadar?? consegue um romance de forte resson??ncia l??rica.

 

Qualquer leitor de romances, como Abril despeda??ado, ou Cr??nica da cidade de pedra ou O crep??sculo dos deuses da estepe reconhece a presen??a da poesia na narrativa. Nestas e em algumas outras obras, Kadar?? fragmenta um argumento povoa-o de s??mbolos mais ou menos recorrentes: a ??gua, a terra e o barro, a balada, a descida aos infernos, a viagem, os sonhos, etc A beleza da sua prosa ressalta imediatamente pelo uso de met??foras brilhantes e surpreendentes: o tr??lei moscovita que se prende aos cabos como um enorme veado na floresta, a cidade pedregosa e dura, que, como um ser pr??-hist??rico, se levanta bruscamente no vale durante uma noite de inverno, as viagens pela Alb??nia, que acabam por ser igualadas a crep??sculos entre fantasmas, a farrapos de nevoeiro, a noites de neve e de morte.

 

Um tema crucial: o canto

 

A experiência do canto, da balada popular, aparece em todos os romances de Kadar??. Os recitadores, os cantores e poetas entram e saem das cenas mais intensas para afirmar com a sua presen??a a import??ncia da tradi????o oral, na Alb??nia. Em O Pal??cio dos Sonhos, uma nobre família de origem albanesa que trabalha para o Imp??rio Otomano convida um grupo de jograis do seu pa??s para cantar umas baladas durante uma festa privada. No meio da acolhedora atmosfera criada ?? sua volta, aparecem uns soldados turcos que, por ordem do Imperador, prendem a famílias e assassinam os m??sicos. O que aconteceu? Os turcos pensaram que o conteúdo dessas lendas cantadas não era t??o inocente e que poderia voltar-se contra a segurança do Imp??rio. Não ?? de outra coisa que se nutre Kadar?? para a sua fic????o: o perigo e o encanto que se esconde nas lendas e na poesia popular, a literatura, no seu estado mais natural, em última inst??ncia.

 

Alguns romances baseiam-se em histórias recolhidas da inspira????o colectiva. A viagem de n??pcias, por exemplo, nasce de uma balada de tema fant??stico. Uma jovem, Doruntina, ?? levada pelo seu irm??o Konstandin desde a remota Bo??mia até ?? sua Alb??nia natal. Uma longa viagem, nocturna e sempre num s?? cavalo, ?? justificada pelo desejo de ver a sua m??e quando ela entregue o último suspiro. Desta forma, o filho cumpria uma promessa feita quando ela se afastou da sua família h?? muito tempo para se casar. Ao chegar ?? aldeia, o irm??o mais velho despede-se por um momento, pois vai cumprir um encargo ao cemit??rio. Entretanto, Doruntina encontra-se com sua m??e e descobre que Konstandin morreu h?? tr??s anos atr??s. A impress??o de ter viajado com um fantasma leva para o t??mulo a m??e e a filha. Aqui termina a lenda. Mas o romance s?? agora come??ou: o Capit??o Stres toma conta do caso e tenta desvendar o que aconteceu. Como Dostoievsky em Crime e Castigo, Kadar?? serve-se de uma história viva na mem??ria do seu público e constr??i um romance policial que, em última inst??ncia, transcende as fronteiras do g??nero. A Viagem de n??pcias ?? uma nouvelle sugestiva e original, cujo principal poder de sedu????o est?? na naturalidade com que se contam acontecimentos m??gicos e surpreendentes.

 

Glorifica????o ??pica do folclore

 

O canto ?? a voz profunda do povo, o reflexo das suas aspira????es mais ??ntimas. Recolhendo o esp??rito da antiga poesia ??pica, Kadar?? quer transformar-se num porta-voz da Alb??nia e de tudo o que, sendo valioso na sua particularidade, pode oferecer ao mundo inteiro. O exemplo mais ousado de aproxima????o ?? epopeia ?? constitu??do, na minha opinião, por Os tambores da chuva. Este romance ?? concebida como uma Il??ada moderna, como rapidamente se compreende pela sua abordagem. A cidade de Kruja ?? cercada pelo ex??rcito turco de Turs??n Pacha. Estamos no s??culo XV, quando a Alb??nia se subleva sob a chefia de Jorge Kastriot, mais conhecido como Skanderberg, o her??i nacional alban??s.

 

A ac????o come??a na Primavera e termina quando os tambores anunciam a chegada das primeiras chuvas de Outono e com elas a retirada dos invasores. As cenas de combate reproduzem a crueldade do cerco com uma extraordin??ria for??a ??pica. Ismail Kadar?? revive a batalha atrav??s das belas compara????es: o ex??rcito turco, que se lan??a para as muralhas numa onda informe, a escada que se eleva entre a massa de soldados como um animal pr??-hist??rico para logo se deter bruscamente e desabar sobre os mesmos que a elevaram, e assim por diante. Na maioria dos combates o ponto de vista ?? fornecido pelos ferozes inimigos pelos generais turcos, que contemplam inquietos desde um promont??rio o confuso andamento da refrega. Gradualmente v??o-se dando conta da impossibilidade de vencer os albaneses por meio da luta directa.

 

Uma e outra vez, Kadar?? toma o pulso ??s diferentes cenas e consegue transmiti-las com admir??vel vivacidade. ?? impressionante, por exemplo, o epis??dio dos sapadores turcos que ficam presos no t??nel que estavam a escavar e que acabam por morrer lentamente como morre a luz com que trabalham.

 

Ap??s a primeira batalha, com inteligente ironia, Kadar?? p??e na boca de um personagem turco o que acabou de escrever: uma can????o ??pica ao ass??dio. E ao mesmo tempo, revela o enorme poder da palavra feita verdadeira poesia: "Alguma vez pensaste no terr??vel poder de uma can????o? A batalha travada h?? um m??s atr??s, por exemplo, traduziu-se num canto tr??gico. Se eu me expressasse como tu, diria que esta guerra, transformada em can????o, continuar?? atrav??s dos s??culos, como um banco de nevoeiro transportado pelo vento. A guerra termina, mas a can????o ser?? transmitida de gera????o em gera????o."

 

Na literatura de Kadar?? est?? enraizado, livro a livro, o desejo próprio do escritor clássico: comunicar uma mensagem ética e est??tica que s?? se pode realizar atrav??s das palavras. Esta confian??a no acto literário desprende-se desse mergulho na tradi????o oral, dessa glorifica????o ??pica do folclore alban??s.

 

Tradi????o e modernidade

 

Kadar?? conhece muito bem as literaturas ocidentais. Se a sua primeira formação literária e intelectual se nutre nas doutrinas do realismo socialista, parece evidente que supera essa etapa, principalmente ap??s os seus primeiros romances. Pela estrutura fragmentada e pelos jogos com o tempo, poderia assemelhar-se a Faulkner, e pela cria????o de espa??os labir??nticos e fant??sticos com Kafka ou Borges . Pela concepção das suas obras, revela-se como um seguidor, mais ou menos livre, de diferentes correntes de renova????o narrativa. Os seus romances são simb??licos e poéticos, mas costumam incluir elementos ??picos e mesmo ensa??sticos. Estas abordagens h??bridas em que se move com facilidade convertem-no num escritor decididamente moderno.

 

Mas, ao mesmo tempo, ?? patente a confian??a de Kadar?? nas possibilidades da lenda popular, legado cultural de s??culos que remonta até ??s próprias fontes da literatura ocidental: Homero. Esse aprofundar Nas fontes ancestrais leva a reivindicar tudo o que de singular e valioso tem para o autor o conglomerado de cren??as que formam a cultura da Alb??nia. Da?? que uma das experiências mais intensas e evocativas das suas histórias seja a tradi????o da besa, o juramento, o que implica o cumprimento de alguma coisa para al??m da vida ou da morte. A lenda d' A viagem de n??pcias nasce precisamente do compromisso contra??do numa besa. Em quase todas as suas histórias est?? presente a refer??ncia mais ou menos expl??cita ?? besa ou a outras atitudes e costumes próprias do povo alban??s.

 

Kadar?? não reflecte de um modo mim??tico, antes transfigura a realidade e envolve-a numa linguagem simb??lica e sugestiva. Assim, tomando os temas do folclore constr??i argumentos próprios de um romance fant??stico, policial, político, l??rico, hist??rico ... A morte como uma noiva ou como uma nova vida ?? um t??pico constante em certas literaturas orais primitivas (a albanesa, entre outras). Kadar??, em Abril despeda??ado conta a história de um jovem que, apaixonado por uma bela mulher que s?? vira de relance, ir?? procurar a morte apenas para a voltar a olhar novamente.

 

Este arriscar tudo por um ideal, ?? uma homenagem de Kadar?? ?? moral heróica da ??pica primitiva. Neste surpreendente escritor, a mensagem ética ?? acompanhada de um inextingu??vel compromisso com a arte: eis a??, provavelmente, a grande li????o de Kadar?? em momentos de desenganos p??s-modernos sobre as nossas possibilidades como descobridores de novos mundos atrav??s da literatura.


Javier de Navascu??s

 

Publica????o em Portugal de Ismail Kadar?? :

 

O Pal??cio dos Sonhos, A Pir??mide, Abril despeda??ado, todos na Dom Quixote

 

No Brasil:

 

O general do ex??rcito morto, Os tambores da chuva

 

Em www.almudi.org, h?? uma avalia????o doutrinal de 24 obras do autor