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No centen??rio do nascimento da escritora

Eudora Welty, uma sulista com voz própria

 Literatura
Eudora Welty, uma sulista com voz própria

"Ao longo de toda a sua carreira, Welty entrou no mundo das relações pessoais atrav??s de contos curtos e de romances, utilizando uma prosa cuidadosamente escolhida para retratar com fidelidade as vidas e emo????es das suas personagens, mulheres e homens do sul dos Estados Unidos. Os livros de Welty estão repletos de professores, famílias, vendedores ambulantes, trabalhadores e jovens estudantes..." Era assim que era recordada pelas ag??ncias noticiosas por ocasi??o do seu falecimento em 23 de Julho de 2001.

 

A sua longa vida permitiu relatar diversas mudanças sociais - como a Grande Depress??o - durante quase um s??culo de plena consagra????o literária, que a tornou merecedora de todas as honras (para al??m do prémio Pulitzer, recebeu a Legi??o de Honra francesa ou a Medalha da Liberdade).

 

A autora tem o dom de reproduzir os estilos e express??es do quotidiano

 

A sua obra, tal como a de Faulkner, com quem muitos leitores a comparam, ou de Robert Penn Warren, desenrolou-se nos limites de um Sul rec??ndito e auto-suficiente, que lhe forneceu uma seiva universal e inesgot??vel. Nesse jardim das letras que Welty mimou desde as suas primeiras cria????es, o que chama a aten????o em primeiro lugar ?? o sopro poético presente em cada uma das suas p??ginas, bem como a compaix??o e o respeito que animam os seus ambientes e caracterizam as personagens, seres solit??rios e necessitados de uma segunda - ou talvez primeira - oportunidade.


Os come??os de uma escritora

 

Assim, basta rever o seu t??o citado texto autobiogr??fico One Writer's Beginnings para apreciar estes rasgos. Nestas mem??rias, baseadas numa s??rie de conferências que Welty pronunciou na Universidade de Harvard, o contexto ?? a sua própria vida e as personagens principais são os seus pais Chestina ("a minha m??e foi quem amparou, no campo emocional e criativo, o meu desejo de ser escritora") e Christian, agente de seguros e art??fice de uma biblioteca familiar, conseguida com grande esfor??o económico, bem como os seus dois irm??os, Edward e Walter, mais novos que ela.

 

Estas recorda????es, apresentam-nos uma mulher transbordante de gratid??o, consciente do legado do sangue e fascinada pelas coisas aparentemente mais intranscendentes e insignificantes. Os fragmentos dedicados ??s suas leituras são talvez os mais sugestivos, pois abrem o caminho que permitir?? esclarecer os enigmas da sua obra, nem sempre muito acessível.

 

Assim, descobriu que "os livros de histórias tinham sido escrito por pessoas, que não eram prod??gios da natureza que brotaram como a erva". Come??ou o seu id??lio com os poemas de Yeats e passou pelo deslumbramento que sobre ela exerceram os dez volumes de Our wonderful world, uma compila????o que lhe ofereceram os seus pais no seu "sexto ou s??timo anivers??rio" e que inclu??a capítulos de As Viagens de Gulliver e de O Peregrino. A biografia de Welty poder ser resumida na exalta????o que a arte lhe proporcionou - para al??m da sua obra em prosa, publicou dois livros de fotografias - e na influência das palavras, quer fossem recitadas numa can????o ou lidas durante a sua convalescen??a, devido a um sopro card??aco.

 

Mas, al??m disso, Welty não deixa de reconhecer a sua dúvida para com a instru????o que recebeu dos seus pais. Ao recordar uma mulher que falava pelos cotovelos, com a sua m??e, sem motivo especial, a autora explica: "Anos mais tarde, ao come??ar o meu relato Why I Live at the PO1 escrevi, com certa raz??o, sob a forma de um mon??logo que se apodera do falante". E reconstr??i nestes termos, até ao final das suas mem??rias, o seu baptismo literário: " O texto mais antigo de que guardo c??pia era, julgo, demasiado sofisticado, pois tive a inten????o de o localizar em Paris (...). Passaram dez anos até me redimir com a minha primeira narrativa publicada, Death of a Traveling Salesman, pois foi muito dif??cil não a come??ar para demonstrar o que era capaz de fazer com as palavras".

 

(...)

 

Narrativas abertas

 

Gra??as a Welty e aos seus finais abertos, aprendemos que as melhores histórias são aquelas que ficam em suspenso e nos fascinam, e que muitos diálogos que parecem não resolver nada, na realidade contam-nos tudo. A autora tem o dom de escutar e a facilidade de reproduzir os estilos e express??es do quotidiano, até ao ponto de parecer, em muitas ocasi??es, que a palavra se torna barro e ganha vida perante os nossos olhos.

 

Harold Bloom em Como Ler e Porqu??2 referia que "de Turgu??niev a Eudora Welty e a outros autores posteriores, os contos abst??m-se de fazer ju??zos morais". O leitor inteligente agradece que não se lhe seja explicado tudo. Haver?? melhor forma de dialogar livremente com um livro do que não estar preso pelos la??os do saber a que nos acostumaram os autores de best-sellers?

 

Com o seu caracter??stico talento para criar imagens, ?? possível ler muitos destes contos quase como poemas (por exemplo, A Curtain of Green3) ou tentar descobrir o que h?? de realidade ou de fic????o no impressionante e caleidosc??pico fresco dos MacLain, dos Stark, dos Morrison, dos Carmichael, dos Spights ou dos Moody, as pricipais famílias de Morgana, protagonistas de The Golden Apples.

 

Os mais de quarenta relatos que comp??em Complete Novels são de dimensões t??o vari??veis como heterog??neos os seus argumentos. Tanto os que não chegam ??s dez p??ginas como essa espécie de curto romance, Recital June, constitu??ram um ??xito. Tecnicamente, se bem que privilegie a terceira pessoa, atitude própria de uma observadora neutra, não deixa de haver o uso da primeira pessoa.

 

Unidos ?? mesma realidade

 

De que tratam? Do desenraizamento do homem e da sua luta por se prender ?? terra, da sua solidão e das mil formas de a enganar, das suas esperanças e desalentos. Se tomamos como refer??ncia o primeiro dos volumes, que publicou aos 32 anos, encontramos uma galeria de tipos extremamente curiosa e até barroca: em Lily Daw and the Three Ladies, a protagonista ?? uma d??bil mental que diz ter-se comprometido casar com um m??sico; em A Piece of News3, um casal discute sobre uma notícia de um assassinato; em Petrified Man, várias mulheres falam de um violador; em The key, um casal de surdos-mudos sonha com uma viagem que mude as suas vidas; em Keela, the crippled Indian girl, um ??ndio disfar??a-se de mulher para um cruel espect??culo de feira; em Why I Live at the PO, uma filha discute com a família depois do regresso da irm?? e da sobrinha e muda-se para um posto de correios...

 

Enfim, uma mistura de extravagante e de quotidiano, de violência e de calma, de ira e de autodomínio, que encontramos perfeitamente exposta no diálogo entre William Wallace e Virgil no princ??pio de The Wide Net3. O primeiro ?? um marido que numa noite sai para a farra e, ao regressar a casa, encontra uma nota onde a mulher lhe diz que se foi suicidar no rio. O segundo ?? o seu companheiro de folias. Depois de ler o bilhete, William vai a casa de Virgil e diz-lhe: "Perdi a Hazel. Desapareceu. Foi afogar-se no rio." Ao que este responde: "Caramba! Isso não ?? próprio da Hazel." A frieza e a calma com que ambos enfrentam a tarefa de dragar o rio contrasta com o drama do suic??dio, que os impressiona s?? pelo imenso medo que a mulher sentia da ??gua. "Ter-se-?? atirado de costas", justifica Virgil.

 

The Optimist's Daughter

 

Ao mesmo tempo que iniciava a sua carreira de contista, Welty prosseguia com a publica????o de romances de maior vulto, como The Robber Bridegroom (1942), Delta Wedding (1946), The Ponder Heart4 (1954), Losing Battles (1970) e The Optimist's Daughter (1972), ao que h?? que acrescentar os not??veis ensaios The Eye of the Story (1978) e One Writer's Beginnings (1984).

 

The Optimist's Daughter ?? um canto ?? vida que vem confirmar o que j?? apontara Richard Ford: "Eudora Welty ??, com William Faukner, Carson McCullers, Truman Capote ou Tennessee Williams, um dos grandes monstros sagrados da literatura americana. A história ?? simples. O juiz McKelva adoece. A sua filha Laurel, vi??va de um oficial morto na guerra e a sua segunda mulher, a ego??sta e insuport??vel Fay, cuidam-no animadas pelas palavras do m??dico ("Vai limpando. Julgo que vamos conseguir que, pelo menos, veja um pouco de um dos olhos") e, mais tarde, angustiadas pela sua inesperada morte ("Não pude salv??-lo. Foi-se; e logo agora quando a vista se estava a curar").

 

Eudora Welty relata a história de uma assun????o, não da morte mas da mem??ria e do passado. E f??-lo com uma firmeza e uma aus??ncia de perturba????o francamente not??veis. O conflito principal mostra as diferenças entre a filha do juiz e a sua segunda mulher - mais jovem que a filha - que a autora vai analisando nas quatro partes do drama, com uma enorme clareza.

 

Welty não precisava de demonstrar nada. Aos 63 anos, o domínio da fluidez narrativa e o peso das suas observa????es eram t??o s??lidos, que o romance parece que se vai desenvolvendo perante os nossos olhos, confirmando, p??gina a p??gina, que os temas mais intemporais e necessários - tal como a morte, a ang??stia da solidão ou a falta de comunicação - podem residir em histórias t??o banais ou an??nimas como a desta cr??nica familiar.

 

Philip Roth, outro grande autor que com Eudora Welty (e Saul Bellow) partilha do facto de ter sido publicado em vida por The Library of America, aprofundou também na natureza destes duelos, em títulos como O animal moribundo; mas, em nossa opinião, a sua mordacidade pessimista reduz a complexidade da alma humana, deleitando-se nas suas baixezas. Não acontece o mesmo em Welty, mais leal ??s suas personagens ou talvez um pouco mais compreensiva.

 

Primazia dos diálogos

 

Como nos seus contos, os diálogos superam as descri????es e não faltam os elementos autobiogr??ficos como, por exemplo, o gosto em cultivar flores de Bercky, a m??e de Laurel, ou as refer??ncias ?? biblioteca do juiz McKelva ("pode ser que nem sempre lhes importe realmente o que leiam; do que verdadeiramente gostavam era do sopro vital que brotava daqueles livros").

 

De regresso ?? sua Mount Salus natal, no Mississipi, Laurel ver-se-?? na necessidade de ajustar contas com o passado e compreender?? que este "j?? não me pode ajudar nem prejudicar, não mais que o meu pai no seu caix??o", e continuar?? a irrecus??vel e nobre promessa de "o honrar e dar-lhe o tratamento que merece". O reconsiderar esta situação, leva-o, por fim - apesar dos receios iniciais - a carregar sobre os seus ombros outra "bagagem de amor para a terra" que o reconcilia com o seu defunto pai e com as suas decisões nem sempre acertadas.

 

The Optimist's Daughter ?? um romance cheio de humanidade e de carinho, que proporciona o que h?? de melhor na prosa de Welty, bem como uma s??ntese do seu ide??rio: o melhor favor que podemos fazer aos que j?? partiram ?? continuar a viver, recordando-os apesar de muitos, como Fay, se deixarem levar por uma amn??sia volunt??ria, filha do seu declarado oportunismo, ou se resignarem ?? solidão. Para Welty, as recorda????es vivem "no cora????o que se pode esvaziar e encher de novo". E o seu foi, na realidade, suficientemente amplo para abrigar a todas.

 

O facto de estarmos a festejar o centen??rio do seu nascimento, confirma a veracidade da sua opinião.

 

Alberto de Frutos

 

1. Porque vivo no Posto dos Correios, tradu????o de Paula Elyseu Mesquita; Fic????es 15,

 

2. Editorial Caminho, 2001

 

3. Os Melhores Contos de Eudora Welty - Uma Not??cia no Jornal, A Buzina, Clytie, Flores para Marjorie, Uma Cortina de Verdura, Caminho Batido, A Grande Rede, Leito Seco, Recital de Junho, Mulheres na Primavera, Rel??gio D'??gua, 2009. Tradu????o de Miguel Serras Pereira

 

4. O cora????o dos Ponders, Ed. Rel??gio d????gua, 2009

 

Nota - Existe outra obra de Eudora Welty traduzida em Portugal - The Winds - Os Ventos e outros Contos, Ant??gona, 2008. Esta antologia re??ne oito contos, que representam várias fases da sua carreira literária entre 1941 e 1963.