Miguel Delibes: Castela como paisagem e paix??o
H?? anos retirado da literatura, Miguel Delibes faleceu em Valladolid a 10 de Mar??o de 2010, na mesma cidade em que nasceu em 1920. "Gostava de partir com a discri????o com que vivi", disse numa entrevista em 2007, e também: "o meu próximo projecto ?? morrer em paz, em gra??a, sem rancor". Foi-se um dos maiores autores da literatura espanhola do s??culo XX, um escritor fiel aos seus princ??pios que soube estabelecer afinidades com um grande número de leitores e com um projecto literário simples, coerente, tradicional, distante das inova????es formais e estil??sticas que tiveram lugar na literatura do s??culo XX.
Delibes escreveu em todos os g??neros em prosa. Publicou livros para crianças, ensaios, di??rios., recompila????o de artigos de temas variados; também escreveu literatura de viagens. O melhor da literatura de Delibes são os seus romances, relatos e livros de mem??rias, muitos dos quais dedicados ao seu grande gosto pela ca??a e pela pesca.
"Um homem, uma paisagem, uma paix??o": assim definiu a sua ideia da literatura. Ingredientes simples e b??sicos que tocam, no entanto, fibras essenciais do ser humano. O homem contempor??neo ?? o protagonista das suas narra????es (o romance hist??rico O Herege*, ambientado em Valladolid do s??culo XVI, ?? uma excep????o). Estes homens vivem num meio definido, que no caso de Delibes ?? a Castela rural e urbana, com as suas virtudes e os seus defeitos; uma Castela eterna, nada nost??lgica, com muitos problemas que ainda por cima sobrevive a uma guerra civil e a uma ditadura. Segundo Delibes, são esses os temas pelos quais sente uma especial predilec????o:"morte, infância, natureza e próximo". Em última an??lise, h?? em Delibes uma fidelidade aos mesmos princ??pios ??ticos e est??ticos, salvo rar??ssimas excepções, ao longo de toda a sua vida.
O caminho de um escritor
Depois de uns inícios ligados ao jornalismo (trabalhou durante anos no jornal El Norte de Castilla, de que chegou a ser director) o primeiro romance que escreve La sombra del cipr??s es alargada (1948) recebe o Pr??mio Nadal. No entanto, este romance, não conta com a simpatia do autor, que o considera empolada e artificial.
Dois anos depois, publica uma das suas obras-primas, O Caminho**(1950) sobre as aventuras de Daniel com os seus amigos na aldeia castelhana antes de rumar ?? capital para estudar. O Caminho condensa muitas das virtudes de Delibes, que posteriormente ir??o aparecendo de diversos modos em muitos outros livros: o mundo da infância, descrito sem falsos idealismos; a presen??a da morte; a vida dura do povo; as relações humanas intensas; o amor ?? natureza. Neste romance, al??m disso, Delibes encontra a sua voz literária e descobre as ra??zes do seu mundo na literatura, distante, como antes dissemos, de experiências mais ou menos vanguardistas e de uma utiliza????o política da literatura como sucedia nesses anos em determinados ambientes.
Este mundo, t??o de Delibes, uma das suas marcas ineg??veis, est?? presente noutros romances também muito importantes: Las ratas (1962), uma das suas obras-primas, Viejas historias de Castilla la Vieja (1964) e Os Santos Inocentes ***(1981). E ?? também protagonista de muitos dos seus relatos como La mortaja, La partida, e de inesquec??veis livros de mem??rias, uns fict??cios, como Diario de un cazador (1955), do melhor de toda a sua literatura , e Diario de un emigrante (1958), e muitos outros em que fala dos seus gostos: La caza de la perdiz roja (1963), Con la escopeta al hombro (1970), Aventuras, venturas y desventuras de un cazador a rabo(1977), Mis amigas las truchas (1977), Mi vida al aire libre (1989).
Dom??nio da linguagem
Em todos, Miguel Delibes faz gala de um domínio da linguagem impec??vel e minucioso, plenamente conhecedor do mundo rural em que se baseiam muitas dessas narra????es. Neste sentido, conv??m também salientar o livro Castilla habla (1988), onde se pode apreciar de modo muito especial o interesse de Delibes por reproduzir uma linguagem que j?? est?? em vias de extin????o. Nos seus romances urbanos encontra-se o mesmo ambiente popular, abordando nelas outro tipo de questões como Mi idolatrado hijo Sisi (1953), Cinco horas con Mario (1966), outro dos mais valorizados e editados , e El pr??ncipe destronado (1973). Aparecem também personagens muito humanos, que simbolizam um mundo que se nos est?? a escapar das m??os, com todas as suas refer??ncias sociais e ??ticas, como o Eloy de La hoja roja (1959).
Para conhecer as suas opini??es sobre a vida e a literatura, ?? esclarecedor o livro de C??sar Alonso de los Rios, Conversaciones con Miguel Delibes (1971). Neste livro, aparece o Delibes mais familiar e dom??stico, apaixonado pela mulher, pelos filhos e pelo trabalho; o peso da natureza na sua concepção de vida; a sua repulsa pela falta de liberdade durante a ditadura; a sua vis??o dos problemas do campo de Castela; as opini??es sobre os autores do seu tempo e as suas influências literárias; o seu catolicismo, por vezes impregnado de um pessimismo vital que se tornou mais penetrante por ocasi??o da morte da mulher em 1974, acontecimento que aparece romanceado em Se??ora de rojo sobre fondo gris (1991), outro dos seus romances muito humanos e que resistem muito bem ?? passagem do tempo. O Herege (1988), o seu último grande ??xito, cont??m muitas das suas preocupações existenciais; no entanto, apesar das vendas, trata-se de um romance distante do seu mundo narrativo, do seu ambiente vital, dos traços dos personagens que lhe deram mais fama, a quem dedicou o seu discurso quando recebeu em 1993 o Pr??mio Cervantes. Neste sentido, não me parece uma das suas grandes cria????es. Pessoalmente, interessa-me muito mais a vis??o c??lida e muitas vezes dura da vida do campo que aparece em O caminho e Las ratas.
Adolfo Torrecilla
NdR:
*O Herege foi traduzido para portugu??s e editado na Dom Quixote; **O caminho pela Ulisseia; e ***Os Santos Inocentes pela Teorema.
Al??m dos Pr??mios Nadal e Cervantes mencionados no texto, Miguel Delibes ganhou os Pr??mios Pr??ncipe de Ast??rias em 1982; o das Letras de Castela e Le??o, em 1983; o Nacional da Literatura Espanhola, em 1991. Foi várias vezes nomeado para o Nobel da Literatura.

