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Revisitar Dostoievski com Filipe Guerra

 Literatura
Revisitar Dostoievski com Filipe Guerra

O pretexto para a conversa era "Crime e Castigo" e os problemas inerentes ?? tradu????o, de Dostoievski em particular e da literatura russa, em geral, especialmente a do sec.XIX.

 

Relativamente ?? da obra em an??lise, Filipe Guerra afirmou a decisão intencional de manter, sem deturpa????es e sem floreados est??listicos, a linguagem e o estilo realistas, mesmo de pendor socializante, que caracteriza aquela obra em particular e, de um modo geral, a literatura russa da ??poca.

 

"Crime e Castigo", publicado em 1866, narra a vida de um jovem, Rodion Rom??novitch Rask??lnikov, que assassina deliberadamente um agiota, depois de sofrer lutas interiores desesperadas, consequência da sua concepção e reflex??o, comum na ??poca, sobre a real exist??ncia de seres vulgares e seres verdadeiramente superiores, que têm a necessidade e a obriga????o de quebrar determinadas regras em prol do avan??o humano e que, ap??s o delito, se v?? perseguido e interiormente destru??do pela incapacidade de continuar uma vida normal. Acaba por ser preso, confessar e ver a pena reduzida em anos de trabalhos for??ados na Sib??ria.

 

Para a sua confiss??o, arrependimento e reden????o espiritual última pela entrega a Deus, ao Transcendente, ao Amor na sua Plenitude, assume uma import??ncia decisiva a influência de S??nia, uma prostituta, que entretanto conhecera e que o vai amparar afectivamente e com ele compartilhar algumas leituras do Novo Testamento.

 

Recordando a Obra de Dostoievski e integrando o Autor no seu ambiente historico-social, foi também feito um resumo do seu percurso literário e biogr??fico, que se revela, ali??s, algo semelhante ao de Rask??lnikov.

 

Nascido em Moscovo a 30.10.1882, ?? em S??o Petersburgo, onde passa a viver aos 15 anos, que vai despertando a sua voca????o literária, no contacto com autores ocidentais (Byron, V??tor Hugo, Shakespeare, etc.) e russos, em especial Puskine e, assim vai surgindo uma obra de inspira????o entranhadamente religiosa, mas repleta de dúvidas e ang??stias próprias de um esp??rito grande de uma ??poca de transi????o e crise.

 

Simultaneamente e de acordo com as suas próprias inquieta????es, come??a também a fazer parte de encontros políticos de inspira????o socialista, bem próprios da ??poca, o que leva ao seu julgamento e condena????o ?? morte.

 

Com outros condenados chegou a ser levado ao local de execu????o e com todo o cen??rio j?? montado, foi-lhes anunciado, ?? última hora, que o czar Nicolau I os indultara, comutando-lhes a pena em 4 anos de trabalhos for??ados na Sib??ria. Esta conviv??ncia com deportados e toda a espécie de criminosos (daqui vir?? a sair, sobretudo, o livro "Recorda????es da Casa dos Mortos", 1861), tendo-lhe dado a conhecer brutalmente as profundezas da alma do povo russo, marcar??, obviamente, Dostoievski e a sua obra.

 

Ap??s a morte da primeira mulher e de seu irm??o, viu confirmar-se a sua popularidade com a publica????o de "Crime e Castigo", o seu primeiro romance e veio a encontrar um importante e necessário apoio afectivo e espiritual (de certo modo, ?? semelhança do que aconteceu entre Rask??lnikov e S??nia) em Ana Smitkina, sua segunda mulher, uma esten??grafa, muito mais nova do que ele. Foi escrevendo, entre outros livros, "O Jogador", "O Idiota" , "Os Possessos" e "Os Irm??os Karamazov" (1878).

 

Nos últimos anos, entregou-se mais a fundo aos ensaios que constituem "O Di??rio de um Escritor", onde expressa a sua vis??o cristã dos problemas políticos e sociais do dia a dia, como, por exemplo, a incompreens??o das classes superiores da sua p??tria relativamente ??s riquezas da alma popular. Do "Di??rio" faz parte o discurso que foi convidado a proferir, um ano antes de morrer, na inaugura????o da est??tua de Puskine. A sua morte ocorre em S. Petersburgo no dia 28.1.1881.

 

Noutra oportunidade, voltar??o Nina e Filipa Guerra, a quatro m??os, para ajudar-nos a sondar a complexidade da alma russa vista por outros autores.

 

Aceprensa