O salto no vazio de Roberto Bola??o
O mais surpreendente ?? que o ??xito de Bola??o não ?? apenas local, mas internacional: as suas obras publicam-se com um excelente acolhimento por parte da cr??tica e de leitores da Europa e Estados Unidos (2666 foi o melhor livro do ano, segundo a revista Time, e ganhou o National Book Critics Circle Award). ?? que, nas suas obras, embora haja uma reflex??o sobre a realidade social e política hispano-americana, aparecem também, como acontece em 2666, romance p??stumo, muitos outros lugares, desde a Alemanha até ?? Espanha, passando pelos Estados Unidos, o que fez da sua obra um referente da literatura global.
As suas primeiras obras
Com Bola??o tem-se esta sensa????o de que o mundo vai ?? deriva e que a literatura ?? uma forma de "saber dar o salto no vazio"
O Terceiro Reich, escrito em 1989, est?? muito longe dos temas e interesses que aparecer??o nas suas novelas posteriores, nas quais Bola??o, de forma acelerada (publicou todas as suas obras em apenas dez anos, intuindo talvez a sua morte), foi dando forma a um mundo muito pessoal, inspirado na diversidade da sua própria vida e da literatura, com um background literário e político que reflectia o desvario e a desintegração do post-boom. Bola??o publicou em 1984 o seu primeiro romance, escrito em colabora????o com Antoni Garc??a Porta, Conselhos de um disc??pulo de Morrison a um fan??tico de Joyce. Em 1993 aparece o seu primeiro romance escrito individualmente, A pista de Gelo, ?? qual se segue, em 1994, A senda dos Elefantes (publicado posteriormente com outro título: Monsieur Pain). De 1996 ?? A literatura nazi na Am??rica, livro com o qual come??a a adquirir renome, e que cont??m as biografias fict??cias de escritores ultra direitistas hispano-americanos. Precisamente da biografia de um desses escritores surge o seu romance Estrela distante (1996), um dos mais valorizados pela cr??tica e onde aparecem j?? muitos dos traços caracter??sticos da literatura de Bola??o.
Em 1997, publica o seu livro de relatos Chamadas telef??nicas e, em 1998, recebe o Pr??mio Herralde com Os detectives selvagens, que receberia no ano seguinte o Pr??mio R??mulo Gallegos. Com este romance Bola??o obt??m a sua consagra????o como escritor. Este e 2666 são os dois romances mais representativos de toda a sua literatura.
O ??xito de "Os detectives selvagens"
Em Os Detectives Selvagens (1), conta-se a aventura dos dois principais inspiradores de um fict??cio movimento literário, que surge no M??xico na década de setenta, em homenagem a um grupo que desapareceu nos anos 20. Tanto Ulisses Lima como Artur Belano, um mexicano e outro chileno residente no M??xico, pertencentes ao movimento do realismo visceral, vanguardista, iconoclasta e provocador, que se caracteriza sobretudo pela nega????o de toda a literatura contempor??nea, especialmente a de Oct??vio Paz, digamos que o escritor oficial, e o grupo dos camponeses, poetas conotados com a esquerda comprometida. (Bola??o mostrava-se mais perto da literatura de Nicanor Parra, J??lio Cort??zar e Jorge Lu??s Borges).
O romance, com um estilo fragmentado e denso, est?? estruturado em tr??s partes. A primeira ?? o di??rio de um dos elementos deste grupo, o jovem Garcia Madero, que explica as relações pessoais entre os seus membros, as suas preferências, a vida que levam, as suas exibi????es com as drogas, liberdade sexual (o sexo ?? determinante na obra de Bola??o) e a viagem que empreendem Ulisses Lima e Artur Belano para encontrarem em Sonora a fundadora do movimento do realismo visceral nos anos 20, de quem apenas sabem o nome: Ces??rea Tinajero.
A segunda parte, a mais extensa, ?? constitu??da pelos relatos de m??ltiplos personagens, alguns deles também perdedores pat??ticos daquela gera????o, que explicam a relação que tiveram com Lima e Belano em diferentes momentos das suas vidas, pois Belano e Lima fazem uma s??rie de viagens, que os levam a Paris, Roma, Barcelona, Israel, ??frica, novamente M??xico... A última parte volta ao di??rio de Garcia Madero e conta, depois de muitas buscas, o encontro com Ces??rea.
Um mundo err??tico e falso
As vidas de Lima e Belano (reprodução perfeita da do próprio Bola??o) são um pretexto para fazer, de modo fragment??rio, uma radiografia do latino-americano exilado e iludido, do escritor frustrado, de umas vidas que não conseguem encaixar-se em nenhum s??tio, e do p??riplo errante do pensamento e da política latino-americana. Bola??o mostra uma peregrina????o ao vazio e os ingredientes desse vazio, temas realmente muito literários.
Tudo est?? rodeado de um pathos existencial for??ado, pois não se chega a perceber as raz??es de tanta ang??stia existencial numas vidas an??dinas, e o peso que tem em t??o desalmadas traject??rias, por exemplo, o sexo, muito mais importante que a própria literatura, paix??o esta que fica dilu??da em refer??ncias e nomes, que não t??m sequer conteúdo intelectual na narra????o. Enquanto os aspirantes a escritores ostentam o seu desd??m e fastio literário, descrevem-se minuciosamente m??ltiplas cenas sexuais, que mostram uma vis??o um tanto selvagem e de baixo nível dos supostos conflitos existenciais dos protagonistas.
Bola??o demonstra, e ?? este outro dos valores da sua literatura, uma grande imaginação e uma inusitada capacidade de narrar, pois todos os personagens contam a sua vida e a dos seus amigos com grande facilidade e com urg??ncia. Como são muitos os personagens, o resultado ?? uma mostra caleidosc??pica e esmagadora da realidade, embora a maior parte dos pontos de vista e os anseios apontem na mesma direcção, sem que, por vezes, distingamos os matizes das diferentes vozes dos narradores.
O romance serve-se, na sua estrutura b??sica, de uma intriga policial - outra caracter??stica da literatura de Bola??o - que envolve o desaparecimento de Ces??rea Tinajero e a busca, um tanto absurda, que empreendem Ulisses Lima e Artur Belano para a encontrar. O romance contem variadas e cont??nuas reflex??es mais ou menos intelectuais e literárias, relatos e narrativas breves, que afastam este romance, e esta, sim, ?? uma caracter??stica muito própria da literatura de Bola??o, da narrativa clássica e racional, linear.
Sem desenlace convencional
Não h??, nem em Os detectives selvagens nem no posterior 2666, um argumento claro, nem um desenvolvimento expl??cito, nem nada que se pare??a com um desenlace mais ou menos convencional. Bola??o aposta em duas formas de narrar que estão nas ant??podas, por exemplo, das técnicas de best-seller e do romance tradicional. Seguir tantas digress??es, algumas bastante insubstanciais, exige ao leitor um grande esfor??o, embora este reconhe??a o grande trabalho literário de Bola??o.
Nesta e nas suas restantes obras, aprecia-se em Bola??o uma rejei????o da literatura política e comprometida, que tem a ver com o que viveu o próprio Bola??o, implicado em movimentos revolucion??rios de esquerda durante os seus anos mexicanos.
Para o cr??tico Juan Ant??nio Masoliver, "Bola??o possui um especial talento para juntar o divertido com o dram??tico, para integrar as aventuras literárias em s??rdidas aventuras da vida, para reconstruir com efic??cia a din??mica de espa??os geogr??ficos que lhe são familiares como o M??xico, Santiago do Chile, Paris ou a Catalunha, e para inserir um conteúdo político (o golpe de estado de Pinochet, o Maio de 68 mexicano) e humano, sem cair na rigidez ideológica ou no moralismo" (2).
Transbordante "2666"
2666 foi o romance que lan??ou Roberto Bola??o como escritor internacional. Trata-se de um romance imenso, volumoso (mais de 1.100 p??ginas), inclassific??vel, que repete parte de estrutura de Os detectives selvagens, mas tem uma mensagem menos literária e bastante mais pessimista. Neste romance est?? bem patente a ang??stia existencial de Bola??o, a sua vis??o s??rdida, obscura e horrorosa do mundo.
Isto concretiza-se no aparecimento, como em Os detectives selvagens, de personagens desenraizadas, que v??o ?? deriva e são, de algum modo, testemunhas de um cepticismo vital, sem vislumbre de esperança (salvo na esmagadora for??a da literatura para ser reflexo deste mundo). Nos romances h?? um desd??m premeditado pela religi??o, assunto a que Bola??o não d?? import??ncia, embora, por algumas refer??ncias, se perceba que tem uma imagem negativa da Igreja, da sua mensagem e das suas instituições. A sua religi??o, podemos dizer, ?? a literatura, a capacidade est??tica e art??stica com a qual pode reflectir essa ang??stia e esse vazio, para ele inexplic??vel.
Uma estrutura ca??tica
2666 (3) ?? formado por cinco novelas que os herdeiros de Bola??o, com bom critério, decidiram editar num s?? romance, embora custe captar a vis??o de conjunto que da?? resulta, se ?? que a tem. Bola??o não terminou o romance, o que se torna evidente na sua parte final e, talvez, no processo de aperfei??oamento.
Na primeira parte, quatro investigadores literários seguem a pista do escritor Benno von Archimboldi (como acontecia em Os detectives selvagens na busca de Ces??rea Tinajero). Na segunda parte, esses investigadores, seguindo a pista desse escritor, chegam ao M??xico; a?? conhecem outro escritor chamado Amalfitano, cuja vida se torna o protagonista desta parte. Na terceira parte, conta-se a estada de um jornalista de Nova Iorque, que ?? enviado ao M??xico para fazer a cobertura noticiosa de um combate de boxe entre um mexicano e um norte-americano. A quarta parte, a mais dura, descreve pormenorizadamente os famosos crimes das maquilhadoras da cidade mexicana de Santa Teresa, assim chamada na fic????o (Cidade Ju??rez na realidade). Não se poupam pormenores das dezenas de mulheres violentamente assassinadas. A quinta parte, a mais fraca, conta a vida do alem??o Hans Reiter, especialmente as vicissitudes por que passou na Segunda Guerra Mundial.
Chama a aten????o, mais neste romance que em outros do autor (embora seja uma caracter??stica em quase toda a sua obra), o seu olhar sobre os aspectos mais s??rdidos do ser humano, com a obsessiva presen??a da violência e da morte, ingredientes de que se serve para sublinhar com mais for??a essa céptica sensa????o de que o mundo vai ?? deriva, e que a literatura ?? uma forma de "saber dar o salto no vazio".
Adolfo Torrecilla
NOTAS
(1) Roberto Bola??o, Os detectives selvagens. Teorema. Lisboa. Tradu????o de Miranda das Neves (2008)
(2) "Palabras contra el tiempo": artigo de Juan Antonio Masoliver R??denas recolhido no volume Bola??o salvaje, edi????o de Edmundo Paz Sold??n e Gustavo Faver??n Patriau; Candaya, Barcelona (2008).
(3) Roberto Bola??o, 2666. Quetzal. Lisboa 2009

