Richard Dawkins em Guerra Contra a Religi??o
O mais conhecido ?? Richard Dawkins, professor de Oxford e estudioso da evolução, cuja obra A Desilus??o de Deus, recentemente traduzida para portugu??s foi amplamente difundida, tendo sido igualmente muito criticada por cientistas colegas do autor. Dawkins descreve o seu próprio livro como o culminar da guerra que empreendeu contra a religi??o. E, embora se trate de um calhama??o de 468 p??ginas, ?? uma obra de f??cil leitura, quase que poder??amos dizer uma leitura ligeira, com muito poucas ideias novas.
Come??ando por exonerar cientistas como Einstein de qualquer suspeita de cren??a religiosa, e por condenar o lugar privilegiado que, do seu ponto de vista, a religi??o tem na sociedade, avan??a depois para a condena????o do agnosticismo, pois considera que ???a hip??tese de Deus??? pode ser abordada pela ci??ncia, sendo portanto empiricamente verific??vel. Dedica dois capítulos a desacreditar os argumentos a favor da exist??ncia de Deus; o primeiro aborda as quatro primeiras vias de S??o Tom??s de Aquino, concentrando-se o segundo especificamente no argumento do des??gnio.
Dawkins também discute a religi??o em geral. Especula sobre possíveis motivos para o facto de a religi??o estar presente em todas as sociedades; esfor??a-se por explicar a moralidade humana por via do conceito darwinista de selec????o natural; e em seguida passa ?? ofensiva, defendendo que os preceitos religiosos são imorais, que as cren??as religiosas são responsáveis pela maioria dos problemas do mundo, e que a educa????o das crianças na f?? ?? uma forma de abuso de menores. No último capítulo, explica como pode a ci??ncia ser para a humanidade a fonte de inspira????o que foi usurpada pela religi??o.
Muitas met??foras e poucos argumentos
Embora discuta religi??o, as refer??ncias directas a textos de teologia ou filosofia são escassas. Quanto mais rico e reconhecido ?? um argumento sobre a exist??ncia de Deus, menos aten????o lhe presta. O seu estilo coloquial ?? claro, mas o preço a pagar pela clareza ?? a superficialidade. Dawkins utiliza muitas met??foras, mas poucos argumentos. Prefere arremeter com ataques indiscriminados: as pessoas não acreditam realmente em Deus, t??m ?? medo de morrer; o Deus do Antigo Testamento ?? ???ciumento, mesquinho, injusto, sanguin??rio?????? (e por a?? fora, durante várias linhas). O livro ?? alimentado, em grande medida, com a narra????o de epis??dios pessoas, a tro??a dos fundamentalistas cristãos, dos terroristas islâmicos e da piedade popular católica, acompanhada por histórias horr??veis sobre o fanatismo e a intoler??ncia religiosa.
Certamente que Dawkins não pretendeu escrever uma obra acad??mica. Afinal, ele ocupa a C??tedra Charles Simonyi para o Conhecimento P??blico da Ci??ncia e, para Dawkins, o ???conhecimento público??? significa duas coisas: popularidade e persuas??o. A sua personalidade e a posi????o que ocupa garantiam ?? partida que A Desilus??o de Deus seria um ??xito. Mas ser?? uma obra convincente?
O tipo de persuas??o que Dawkins procura ?? a persuas??o psicológica. Diz ele explicitamente que pretende tornar o público consciente de quatro coisas: a for??a da selec????o natural como causa explicativa; a educa????o religiosa como forma de abuso de menores; a possibilidade de se ser feliz, equilibrado, ??tico e intelectualmente completo, sendo-se ateu; e o ???orgulho ateu??? de combater as persegui????es aos ateus. Dawkins pretende que as pessoas ???enganadas pela religi??o??? sejam capazes de ???sair do arm??rio??? e de tornar público o seu ate??smo.
Neste sentido, o livro pode ser visto como uma espécie de guia de auto-ajuda para ateus.
Embora o autor declare que o culto da personalidade ?? altamente indesejável, o livro est?? cheio de epis??dios pessoais em que ele próprio triunfa, bem como de coment??rios joviais que salientam a intelig??ncia colectiva de Dawkins e dos colegas que pensam como ele. O leitor deve, presumivelmente, sentir-se um privilegiado por ter acesso ?? mente subtil desta elite. Mas ser?? tal atitude convincente?
A explica????o universal
A selec????o natural ?? uma ideia extremamente poderosa e Dawkins utiliza-a com grande habilidade. No entanto, quando faz um uso filos??fico dela, cai em redund??ncias. Por exemplo, no seu modo de entender a moralidade, Dawkins sustenta que temos c??digos morais porque eles proporcionaram, no passado, vantagens selectivas na evolução. E como ?? que sabemos que tais c??digos morais proporcionaram vantagens selectivas? Porque os temos.
Temos, pois a moral que t??nhamos de ter: uma conclusão redundante e determinista. (Curiosamente, a questão do livre arb??trio ???n??o interessa??? ao nosso autor.) E tira o mesmo g??nero de conclusão inadequada da aplica????o da selec????o natural a Deus, ?? causalidade, ?? verdade, ?? exist??ncia??? Ora, por si mesma, a selec????o natural não explica o ???porqu????? de coisa nenhuma.
Outra das convic????es que Dawkins pretende difundir ??? ???n??o h?? crianças cristãs??? ??? manifesta, pura e simplesmente, os seus preconceitos anti-religiosos. Pergunta ele por que motivo uma criança com uma etiqueta religiosa não ?? t??o escandalosa como uma ???criança marxista??? ou uma ???criança ateia???. Mas a verdade ?? que ningu??m se indigna com a exist??ncia de uma ???criança inglesa??? ou de uma ???criança judia???! Na realidade, Dawkins disfar??a o seu verdadeiro propósito ??? retirar a religi??o de qualquer classifica????o de natureza cultural ??? com uma emotiva acusa????o de abuso de menores.
Um espantalho religioso
A cr??tica mais repetida contra o livro de Dawkins ?? a de que ele desconhece o inimigo que ataca (a religi??o), colocando em seu lugar um espantalho. Dawkins est?? convencido de que a chamada ???hip??tese de Deus??? ??? a hip??tese de que ???existe uma intelig??ncia sobre-humana e sobrenatural, que concebeu e criou deliberadamente o universo e tudo quanto nele existe, incluindo n??s próprios??? ??? ?? cientificamente verific??vel. No sentido moderno, a ci??ncia ?? o estudo da mat??ria f??sica ou natural. Mas como se pode verificar uma hip??tese que ??, por defini????o, sobrenatural e metaf??sica?
Na realidade, Dawkins não acredita que a exist??ncia de Deus seja verific??vel. Mas não est?? disposto a admitir qualquer epistemologia fora da ci??ncia. Para ele, a realidade não material não existe, pelo que Deus não existe. Não espanta que o livre arb??trio ???n??o lhe interesse???, como não lhe interessa a causa da exist??ncia da mat??ria. Do ponto de vista dele, nenhuma questão filos??fica, seja ela qual for, pode produzir respostas satisfat??rias. Trata-se de um ran??o positivista, cheio de preconceitos contra a metaf??sica.

