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B??nus e consequências

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B??nus e consequências

Nunca os sal??rios dos executivos foram alvo de tanta polémica como actualmente, fruto da crise económica mundial; e, quando o financiamento governamental ?? usado para salvaguardar a viabilidade de empresas, a indigna????o do público mostra-se particularmente pronta e feroz. Os dividendos pagos aos executivos da AIG atingem um nervo público especialmente sens??vel.

 

Não pareceu ter muita import??ncia que a AIG estivesse contratualmente obrigada a efectuar os pagamentos, ou que estes tenham sido feitos por um novo presidente executivo, designado com a b??n????o do Governo (que ?? o novo propriet??rio da empresa) com o objectivo de reestruturar o negócio.

 

Remunerar de acordo com a sa??de da empresa constitui um distanciamento radical do princ??pio da equidade salarial, ou seja, de sal??rio igual para trabalho igual. Esse princ??pio vai por ??gua abaixo.

 

A ideia de que os b??nus ajudariam a manter os principais executivos foi energicamente refutada por pessoas como Charles Schumer, o Senador de Nova Iorque, Barney Frank, do Comit?? de Assuntos Financeiros da C??mara dos Representantes, e outros políticos norte-americanos, que interrogaram publicamente os proponentes dos b??nus. Segundo estes políticos, ningu??m ?? insubstitu??vel. Al??m disso, o desemprego est?? a aumentar. Retirem os b??nus e vejam se os gestores permanecem ou não nas empresas.

 

Veremos até onde ir?? este princ??pio nas próximas eleições, quando Schumer e Frank tiverem a hip??tese de dar de m??o beijada o sucesso eleitoral aos seus advers??rios, ou de recorrer aos cargos que ocupam para recolherem milhões de dólares para as respectivas campanhas. Ent??o veremos se eles são ou não insubstitu??veis, ou se passam subitamente a ser invulgarmente qualificados para a tarefa que desempenham e uma fonte indispens??vel de conhecimentos legislativos. Todavia, neste momento, seguem a mar?? eleitoral.

 

O actual presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, um dos homens de estado mais agregadores dos últimos anos, apenas conseguiu mitigar a f??ria. Tamb??m ele vai na mar??. Segundo Obama, os americanos t??m o direito de estar furiosos. O seu ??nico requisito ?? que a f??ria tenha uma orienta????o construtiva. Pelos vistos, nenhum dos seus conselheiros morais lhe salientou que, ao longo da história, os exemplos de raiva construtiva são bastante escassos.

 

A ocupa????o de cargos executivos ?? agora sujeita ao aval público. Que o digam Rick Wagoner, ex-director da General Motors, ou Vikram Pandit e Kenneth Lewis, que se agarram com unhas e dentes ??s suas posi????es de lideran??a no Citibank e no Bank of America, respectivamente.

 

Tamb??m ?? de lamentar a morte do director financeiro da gigante hipotec??ria Freddie Mac, que não aguentou a press??o e se suicidou, embora não houvesse qualquer indício de que tivesse infringido ?? lei.


A hipocrisia do jogo de culpas

 

Muitos executivos estão abismados com a reac????o selv??tica de que estão a ser alvo. E, até certo ponto, esta incredibilidade ?? compreens??vel.

 

A f??ria das pessoas nem sempre foi dirigida contra as infrac????es ?? lei cometidas pelas empresas. Tendo em conta a escala de devasta????o económica, o número de acusa????es por conduta il??cita ?? extraordinariamente diminuto. O que est?? hoje a passar-se não ?? o mesmo que as fal??ncias de empresas que tiveram lugar em 2000/2001, como foi o caso da Enron, que se deveu a fraudes financeiras que culminaram em queixas criminais; ou o do bicenten??rio banco de investimento Baring Brothers que, em 1995, abriu fal??ncia devido a negócios il??citos não autorizados, que resultaram numa pena de pris??o para o criminoso e no desmoronamento da empresa.

 

?? certo que ocorreram inúmeras perdas, mas não devido a desonestidades. Maioritariamente, estas perdas deveram-se aos mesmos motivos de sempre: as pessoas, pura e simplesmente, não conseguiram compreender o ambiente macroeconómico no qual estavam a negociar e continuaram a apostar em que as tendências mais recentes se manteriam por tempo indefinido.

 

H?? também uma ponta de hipocrisia entre aqueles que se queixam. Poucos foram os que se opuseram aos negócios arriscados enquanto o valor das suas casas e das suas carteiras de ac????es estava em alta. Tais resultados ultrapassaram em muito as fronteiras da Am??rica do Norte, estendendo-se até ?? Europa e ao Pac??fico.

 

Apesar de, aparentemente, a Austr??lia estar bem distanciada do epicentro do abalo financeiro, e de o primeiro-ministro australiano ter sacudido a ??gua do capote, atribuindo a culpa pela crise a outros pa??ses na recente cimeira do G20, os australianos haviam prontamente aproveitado os lucros que advieram dos elevados preços das mercadorias, fruto de avultados fundos de investimentos acompanhados por condições monet??rias pouco r??gidas.

 

Os riscos de hipotecar a riqueza nacional em posi????es crescentemente especulativas nas transac????es mundiais de produtos quase não foram referidos. O governo australiano teria tido o maior prazer em ver toda esta agita????o prolongar-se indefinidamente. Era essa a inten????o, e os australianos contavam beneficiar com mais um corte de impostos. Nova hipocrisia.

 

De certa forma, est??vamos todos felizes por receber os lucros, mas relutantes em aceitar que os ganhos elevados comportam sempre um risco maior. Agora, encontrar algu??m que arque com as culpas ajuda-nos a atenuar a nossa quota parte de responsabilidade pela crise.

 

Sucesso, o novo princ??pio remunerativo

 

As audi??ncias do Congresso, seguindo o mesmo caminho sem que se tenha descoberto qualquer ilegalidade relevante, convergiram para um culpado e um novo princ??pio remunerativo: os executivos devem ser pagos de acordo com o sucesso das organiza????es pelas quais são responsáveis. Se o leitor dirigir uma empresa que se encontra ?? beira da fal??ncia, conte com o escrut??nio público e um corte salarial.

 

Posto isto, uma questão se levanta: o que define uma empresa bem-sucedida? Não existe, na legisla????o comercial dos pa??ses ocidentais, nada que defina o que ?? o sucesso. Essas legisla????es definem, tipicamente, os fracassos catastr??ficos (isto ??, a bancarrota), assim como as suas consequências, mas nunca definem o sucesso; dessa forma, não existe nenhum critério legislativo que clarifique se uma empresa ?? mais bem sucedida do que outra.

 

Surgiram, assim, dois modelos populistas: o sucesso medido pelo lucro absoluto e o sucesso medido pelo movimento do preço das ac????es. Tecnicamente, nenhum destes tem grande m??rito.

 

Faz uma grande diferença um lucro de 100 milhões de dólares resultar de um investimento de 10 bili??es ou de 10 milhões de dólares, por exemplo. O resultado do primeiro investimento deve ser considerado muito menos bem sucedido do que o resultado do segundo investimento, independentemente de o lucro resultante do primeiro investimento ter sido dez vezes superior ao do segundo caso.

 

Quanto aos preços das ac????es, sabemos que uma empresa pode negociar a mais ou menos cinquenta por cento do preço das ac????es do dia anterior, dependendo do ambiente macroeconómico futuro, sem ter de alterar minimamente o que estava a fazer. Por que h??o-de os executivos ser recompensados (ou penalizados) por oscila????es do preço das ac????es, sobre as quais não exercem qualquer influência?

 

?? imperativo dispormos de um novo sistema remunerativo. Por um lado, pagar ??s pessoas de acordo com o seu contributo financeiro parece bastante razoável. Se a pessoa registar uma perda, a porta da rua ser?? serventia da casa; se conseguir um lucro, ser?? recompensado. A economia b??sica advoga algo semelhante: sugere que as pessoas sejam pagas de acordo com o seu produto marginal (ou seja, de acordo com aquilo com que cada um contribui).

 

Os economistas também defendem que o crescimento económico abranda e a prosperidade ?? posta em causa quando as empresas são obrigadas a pagar aos trabalhadores sem levar em conta a viabilidade financeira dos negócios que os empregam. ?? por esse motivo que os economistas criticam quase sempre os tribunais centrais por fixarem os sal??rios a nível nacional. Alguns são mesmo contra o sal??rio m??nimo, por considerarem que prejudica o crescimento económico.

 

No entanto, remunerar de acordo com a sa??de da empresa constitui um distanciamento radical do princ??pio da equidade salarial, ou seja, de sal??rio igual para trabalho igual. Esse princ??pio vai por ??gua abaixo. A no????o de sal??rio m??nimo de subsist??ncia também ?? fortemente posta em causa quando os sal??rios são ditados pela posi????o financeira da empresa, e não pelas necessidades de cada um.

 

Os novos princ??pios não podem ser aplicados apenas aos executivos seniores. Em última an??lise, acabar??o por ser aplicados a todos. Os novos critérios estender-se-??o muito para l?? do conselho de administra????o assim que os governos apoiarem publicamente a mudança, e deixar?? de haver barreiras filos??ficas ou legislativas a eliminar quando esses critérios forem extensivos a todos os trabalhadores. O incentivo comercial ser??, muito simplesmente, demasiado grande.

 

J?? vemos empresas a pedir aos funcion??rios que aceitem cortes salariais, para poderem receber em tempo de recess??o. Os trabalhadores que tiveram a sorte de ser empregados por empresas mais rent??veis estão a receber mais do que os empregados em empresas menos rent??veis.


Rejeitar o modelo de responsabilidade social

 

Apesar das insinua????es populistas presentes na revolução remunerativa que est?? a ter lugar, ?? muito prov??vel que os economistas de linha mais dura se sintam discretamente contentes com o progresso da economia mundial no sentido das remunera????es orientadas pelo sucesso. Trata-se de uma reviravolta na orienta????o anteriormente sugerida ??s empresas ocidentais.

 

Em especial desde meados da década de 90, tinha havido uma press??o crescente sobre os executivos para não considerarem os lucros como primeiro sinal de sucesso de uma empresa e como objectivo prim??rio da sua tomada de decisões.

 

Alguns denominaram esta situação de objectivo tr??plice, outros chamaram-lhe responsabilidade social da empresa; o conceito sugere que o impacto empresarial não deve ser medido apenas de acordo com as taxas de lucro dos investimentos. H?? também impactos sociais e ambientais que devem ser levados em conta ao avaliar a performance de uma empresa.

 

Um dos desafios que se colocavam aos defensores deste conceito consistia em apresentar um quadro objectivo que permitisse avaliar a import??ncia relativa dos resultados financeiros, ambientais e sociais sempre que se verificassem inconsist??ncias. Embora nunca tenha surgido uma metodologia efectivamente aplic??vel, a for??a moral do argumento manteve-se.

 

Contudo, para as empresas serem algo mais do que meras caixas registadoras, os executivos t??m de ser autorizados a tomar decisões. Os directores t??m de decidir como dividir o valor criado: quanto cabe aos funcion??rios, aos fornecedores, aos accionistas, a organiza????es comunit??rias e qual ?? o custo do ambiente f??sico em que a empresa est?? inserida.

 

Ao tornar a empresa socialmente mais responsável, os executivos t??m de ser capazes de avaliar se, por exemplo, um funcion??rio ou um fornecedor que tenha feito o que lhe foi pedido merece ser recompensado, apesar de a performance financeira geral ter sido insatisfat??ria do ponto de vista de um accionista.

 

Segundo este modelo, a satisfa????o do accionista era uma preocupa????o importante, mas não era a principal preocupa????o, e os executivos tinham de ter liberdade para retirar conclus??es acerca do correcto equil??brio.

 

Infelizmente, este ?? precisamente o critério que foi suprimido do report??rio do executivo moderno, que ?? agora for??ado a manter um compromisso inequ??voco com o sucesso organizacional.

 

Parece pouco prov??vel que as press??es neste sentido acabem depressa. Os governos passar??o a próxima década a procurar maximizar os lucros financeiros das suas recentes aquisi????es de capital, ?? medida que aprumam as suas ac????es para venda. Os executivos tentar??o pagar os empr??stimos o mais rapidamente possível, enquanto procuram expulsar os governos das suas reuni??es de direcção. Por seu turno, os funcion??rios continuar??o demasiado assustados para discordar enquanto os seus empregos permanecerem sob amea??a.

 

Em consequência de tudo isto, poderemos ficar com um sistema melhor; ou n??o. Neste momento, ?? um bocado dif??cil dizer, mas os riscos apontam para um mundo muito mais duro e financeiramente orientado para todos n??s, e não apenas para as elites que ocupam os gabinetes executivos que têm sido alvo de tanta irrita????o pública.

 

John Robertson

 

Fonte: www.mercatornet.com

 

John Robertson ?? economista e consultor financeiro. Tem mais de 25 anos de experiência em mercados financeiros e de mercadorias internacionais, estratégia empresarial, avalia????o de finan??as e de negócios e política governamental na Austr??lia, em Londres e em Nova Iorque.

 

Tradu????o de Isabel Costa