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Resenha biogr??fica

Norman Borlaug, art??fice da Revolução Verde

 Progresso

"Foi quem salvou mais vidas na história", disse de Norman Borlaug no dia seguinte ?? sua morte Josette Sheeran, directora executiva do Programa Mundial de Alimenta????o. O seu trabalho "figura entre o dos grandes cientistas benfeitores da humanidade", l??-se no comunicado oficial da FAO.

 

Borlaug, norte-americano de ascend??ncia norueguesa, estudou agronomia na Universidade de Minnesota e, depois de doutorar-se em Patologia Vegetal e Gen??tica, come??ou a trabalhar na empresa qu??mica DuPont em 1942. Dois anos mais tarde deixou o emprego para integrar, no M??xico, um projecto de melhoramento do trigo financiado pela Funda????o Rockefeller. Uma praga da ferrugem, um fungo parasita, que na década anterior tinha arrasado os trigais do Oeste dos Estados Unidos, acabava de chegar ao M??xico, onde a escassez de trigo era uma amea??a. "Durante os dez anos seguintes - assinala o The Economist (19.09.2009) na nota necrológica -, (Borlaug) trabalharia doze horas di??rias" nas culturas experimentais de trigo.

 

Um livro recente (mas anterior ?? morte de Borlaug) de Francisco Garc??a Olmedo, O engenho e a fome (Cr??tica, 2009), dedica um capítulo ao trabalho de Borlaug no M??xico para conseguir uma variedade de trigo imune ?? ferrugem e mais produtiva. Incitado pela urg??ncia de alimentar as pessoas, inventou um processo, aplicado depois a outras culturas, para "reduzir a metade o tempo que demora o processo de melhoramento, mediante a obten????o de duas produções anuais, conseguidas de forma sucessiva em dois campos apropriadamente escolhidos". Os campos estavam a 29 e a 2600 metros de altura, respectivamente, separados 1600 km. Assim se conseguiram variedades resistentes ?? praga no solo durante cinco anos. A partir destas variedades, Borlaug obteve, mediante cruzamento com uma espécie an?? japonesa, outras de pequena estatura e caule grosso, que rendiam o dobro.

 

S??o essas as variedades de trigo que iniciaram a Revolução Verde, difundida do M??xico a toda a Am??rica Latina e ?? ??sia. Ent??o, prossegue Garc??a Olmedo, provavelmente pelo duplo cultivo em solos e climas muito d??spares, "as variedades de trigo obtidas não s?? se adaptavam bem no M??xico como (...) davam excelentes resultados em diversas partes do mundo, numa variada gama de solos e climas, algo que se pensava impossível". Assim, em 1956 o M??xico tinha duplicado a sua produção de trigo e tornou-se auto-suficiente; alguns anos mais tarde, o ??xito repetiu-se na ??sia. A colheita de trigo na ??ndia, onde mais tarde trabalhou Borlaug, passou de 12 milhões de toneladas em 1965 a 20 milhões em 1970; o Paquist??o come??ou a ser auto-suficiente em trigo em 1968.

 

Gra??as ?? Revolução Verde, a produção de alimentos aumentou mais depressa do que a popula????o mundial. "A escassez generalizada de alimentos e a enorme mortalidade anunciadas para a segunda metade do s??culo XX nunca se tornaram realidade", recorda o The Economist.

 

Mas a ??frica subsariana tinha sido excluída da Revolução Verde, por causa dos seus solos pobres e secas recorrentes. Com mais de 70 anos, Borlaug renunciou ?? sua reforma em 1986 para dirigir um novo projecto naquele continente, com o financiamento do milion??rio japon??s Ryoichi Sasakawa. Este trabalho quase duplicou a colheita da Eti??pia em dois anos, de 6 milhões de toneladas em 1995 para 11,7 milhões em 1997. No entanto, tais progressos não criaram ra??zes nessas regi??es de ??frica nem na ??sia, algo de que Borlaug estava consciente, não s?? pelas limita????es naturais como pelas guerras e a instabilidade política.

 

Cr??ticas de ecologistas

 

Apesar da sua grande contribui????o para alimentar a humanidade, a Revolução Verde foi criticada por algumas das suas consequências para a popula????o rural e para o meio ambiente. Os motivos das objec????es s??o: a expans??o da monocultura que p??e em perigo a diversidade biológica; que exige mais ??gua, adubos e pesticidas; que torna os agricultores dependentes das multinacionais produtoras de sementes e fertilizantes; que substitui os m??todos tradicionais de cultivo mais sustent??veis.

 

Borlaug acabou por reconhecer alguns desses problemas, mas replicava que, em todo o caso, os ecologistas estavam equivocados quanto ??s prioridades. "Chamava-lhes pessimistas e elitistas - diz o The Economist -, que não sabiam o que ?? a fome e, por outro lado, achavam que os pobres tinham que viver mal alimentados para bem do planeta". Al??m disso, acrescentava, muitas das cr??ticas não eram justificadas: gra??as ao maior rendimento, não é preciso semear grandes superf??cies, e assim conservam-se mais terras para florestas e outros usos; os fertilizantes qu??micos limitam-se a restituir nutrientes naturais do solo, como o estrume, mas de maneira mais eficaz, e a cria????o de variedades por cruzamento ?? o mesmo que se d?? na natureza quando o p??len levado pelo vento ou pelos insectos fecunda plantas de outras espécies (assim apareceu o precursor do nosso trigo).

 

Nos seus últimos anos, Borlaug viu com clareza que o trabalho não estava conclu??do. Para dar de comer a 9000 milhões de pessoas em 2050, o mundo teria que duplicar a produção de alimentos, e de forma sustent??vel, sem esgotar a superf??cie ar??vel nem degradar o solo. Por isso, era partidário da biotecnologia, na qual via grandes possibilidades e riscos praticamente nulos. Como diz o Le Monde (18.09.2009) na sua nota necrológica, "Norman Borlaug desaparece no momento em que se imp??e a necessidade de levar a cabo uma ???segunda revolução verde', sobretudo em ??frica".


Aceprensa