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Iniciativas empresariais de desenvolvimento

Fazer negócios nos mercados pobres

 Economia Internacional
Fazer negócios nos mercados pobres

Ao analisar o que considera os tr??s grandes mal estares da modernidade na sua obra A ética da autenticidade, o fil??sofo canadiano Charles Taylor fala da ???primazia da raz??o instrumental???. Esta sup??e uma lógica em que o valor das coisas se mede pela relação custo-benef??cio e em que o progresso técnico ?? entronizado como um ??dolo, um Moloch que devora recursos naturais e seres humanos. Degrada????o do meio ambiente, investiga????o com embri??es humanos, abandono dos ???menos úteis??? ao sistema???s??o algumas das consequências.

 

Taylor afirma que esta primazia t??pica da modernidade não tem uma origem puramente utilitarista, mas também moral: melhorar as condições de vida. Bacon., no início do s??culo XVIII, acusa as ci??ncias aristot??licas tradicionais de não terem contribu??do em nada ???para aliviar a condi????o da humanidade???. ???Somos herdeiros de Bacon ???escreve Taylor??? , por exemplo, quando organizamos grandes campanhas internacionais contra a fome ou de socorro ??s vítimas de inunda????es???.

 

V??m dar raz??o a este racioc??nio um número crescente de pessoas que, em diferentes partes do mundo, se empenham em colocar o seu gr??ozito de areia para ajudar no desenvolvimento dos pa??ses menos favorecidos atrav??s do que melhor sabem fazer na sua respectiva ??rea. Criar computadores baratos que ajudem a educar as crianças, inventar mecanismos simples e rent??veis que solucionem necessidades b??sicas, montar empresas dedicadas a comercializar materiais acessíveis a bolsos subdesenvolvidos??? Abundam ???ainda que sempre ser??o poucas??? as iniciativas destes ???herdeiros de Bacon??? que sabem p??r o progresso técnico ao serviço do desenvolvimento material e moral.

 

Ao alcance da tecla

 

Uma das iniciativas que mais repercuss??o medi??tica est?? a ter ?? a do projecto OLPC (siglas de ???Um port??til por criança???, em ingl??s), promovida por Nicholas Negroponte, fundador do MIT Media Laboratory. O objectivo de OLPC ?? conseguir a produção barata de computadores port??teis chamam-se XO especialmente preparados para crianças de pa??ses em desenvolvimento. Resistentes ao p??, aos aban??es e ao calor, com ecr??s aptos para resistir a muito sol, os XO estão concebidos para consumir pouco e contam com acesso ?? internet. Negroponte considera que estes computadores são um instrumento que melhorar?? a educa????o dessas crianças.

 

Para diminuir os custos de produção dos XO, utiliza-se software baseado em Linux e portanto gratuito, firmaram-se acordos com algumas companhias tecnológicas e os seus criadores procuram vendas em grandes quantidades. Os potenciais compradores são os pa??ses em desenvolvimento. At?? agora não se chegou ao número de pedidos necessários para que o computador saia pelos 100 dólares (67 euros) previstos. Ao não conseguir baixar os custos, deu-se início, na Am??rica do Norte, ?? campanha ???Get one, give one??? atrav??s da qual o usu??rio compra dois XO por 400 dólares (270 euros), um dos quais se destina a um desses pa??ses necessitados (ver Aceprensa na Internet, 26-09-2007, na edi????o espanhola, ???A dura venda do computador para crianças em pa??ses pobres???).

 

Software atrav??s da rede

 

Na ??ndia a alternativa ?? o software atrav??s da rede. Os PC são para a maioria dos indianos demasiado caros, complicados de usar e dif??ceis de manter. Rajesh Jain, co-fundador da Novatium, criou um computador para ultrapassar esse problema. O Nova netPC tem um hardware b??sico, uma CPU que inclui placa base constru??da com chip de telem??vel, mais um porto de conex??o ?? Internet, quatro portos USB (dois para rato e teclado) e um porto para monitor, que pode ser o televisor da casa. E sem disco duro. A Novatium oferece por 10 dólares (6,87 euros) mensais o software atrav??s da rede: sistema operativo, armazenamento até 2 GB e 30 horas de navega????o na Internet.

 

Com intenções mais solid??rias nasceu Babajob.com, também na ??ndia. Manohar Lakshmipathi deixou a Microsoft com a inten????o de p??r ao serviço do desenvolvimento a sua capacidade técnica. ???Na ??ndia, algu??m como eu não pode escapar ao sentimento de que ?? realmente afortunado. Sendo assim, perguntemo-nos: Que vais fazer com todas as coisas que te rodeiam? Como vais usar todas as tuas aptid??es????, declara numa reportagem do International Herald Tribune (11-10-2007). A sua ideia foi criar uma rede on-line que facilitasse o contacto entre aqueles que procuram emprego e os que procuram empregados.

 

Não ?? um simples buscador an??nimo, visto que se trata de imitar os caminhos pelos quais chegam os empregos na vida real na ??ndia: os la??os pessoais. Imaginemos um homem de negócios que precisa de um cozinheiro; pergunta a um amigo seu, que seguramente perguntar?? ao seu próprio cozinheiro se conhece algu??m que possa servir para aquele posto. Para construir estas redes, Babajob paga a pessoas que estabele??am a conex??o entre empregador e empregado e também paga a algumas ONG ou donos de cibercaf??s para encontrar potenciais usu??rios e regist??-los. At?? Outubro, tinham-se registado em Babajob 1.100 pessoas, todas elas pertencentes ?? classe baixa de Bangalore.

 

Tudo contra a mal??ria

 

Na aldeia global, a alguns chega-lhes o m??nimo imprescind??vel ?? velocidade de mega hertz, e a outros em forma do mais simples utens??lio dom??stico. Como, por exemplo; o mosquiteiro PermaNet impregnado de insecticida ?? prova de lavagens criado fabricado e vendido pela Vestergaard Frandsen, S.A., e que se destina a reduzir o impacto da mal??ria nos pa??ses em desenvolvimento. A Organiza????o Mundial de Sa??de (OMS) lan??ou, em parceria com o governo do Quénia, um programa de distribuição gratuita deste tipo de redes que reduziu significativamente o número de mortes de crianças devido ?? mal??ria (ver Aceprensa 94/07, na vers??o impressa).

 

Entre 2004 e 2006 multiplicou-se por dez o número de crianças que dormem com mosquiteiro. Segundo dados do governo do Quénia, houve menos 44% de mortes por mal??ria entre as crianças que estavam protegidas por mosquiteiros com insecticida, em compara????o com os que o não estavam. S??o vendidas mensalmente no mundo 4 milhões de redes PermaNet.

 

Mikkel Vestergaard Frandsen ?? o conselheiro delegado da empresa, posto que herdou do pai. Previamente, tinha-se unido ?? companhia com a condi????o de que o seu trabalho pudesse incluir ??frica, onde tinha estado a viver. ???Queria trabalhar com ??frica numa aventura empresarial, não num gesto humanit??rio ou filantr??pico???, diz (Newsweek, 25-06-2007). ?? o que C.K. Prahalad explica no ensaio The Fortune at the Bottom of the Pyramid: Eradicating Poverty Through Profits (ver Aceprensa 82/05, na vers??o impressa): as empresas são agentes de desenvolvimento fundamentais, visto que existem excelentes oportunidades de negócio precisamente naqueles mercados de sectores pobres a que ningu??m presta aten????o.

 

Armadilhas para moscas tse-tse, redes para mosquitos, pl??sticos que podem usar-se como len????is ou ref??gios temporários??? ???90% do nosso negócio relaciona-se com a preven????o da mal??ria???, explica Vestergaard.

 

??gua segura

 

Agora chega o LifeStraw, um simples filtro de ??gua em forma de tubo, um pouco mais grosso do que uma flauta, que se vende por 3 dólares (2 euros). O mecanismo enfrenta o facto de que 6.000 pessoas morrem por dia por causa de doenças transmitidas pela ??gua e mais de 1.000 milhões de pessoas no globo carecem de acesso a ??gua pot??vel. O LifeStraw comp??e-se de fin??ssimas capas de malha que filtram uma bact??ria conhecida como verme da Guin?? e o matam juntamente com outros v??rus e parasitas gra??as ??s gotas de iodo do interior do aparelho. Um pouco de carv??o activo neutraliza o sabor do iodo e elimina os restantes parasitas, embora ainda não tenham conseguido eliminar um parasita comum chamado Giardia lamblia. Cada unidade de LifeStraw tem uma vida ??til de 700 litros de ??gua filtrados.

 

Outro modo de desinfectar ??gua ?? o uso de luz ultravioleta que Ashok Gadgil apresentou h?? anos e que foi a base de WaterHealth International, empresa que presentemente prov?? de ??gua pot??vel mais de um milh??o de pessoas em pa??ses em desenvolvimento. Para solucionar problemas dom??sticos existe o novo invento de Gadgil, f??sico do Lawrence Berkeley National Laboratory, na Califórnia. O problema a remediar ?? o seguinte: o enorme número de habitantes do Darfur que, por vezes, ficam sem comer porque não t??m combustível para cozinhar. A madeira escasseia por causa do cruel conflito no pa??s, o que sup??e compr??-la ou sair para a procurar em longos e perigosos percursos.

 

J?? que não era possível melhorar o combustível tal e como a USAID pediu a Gadgil, este concebeu um pequeno forno que requer 75% menos madeira que o fogo tradicional: o Berkeley-Darfur. At?? agora o projecto foi economicamente sustentado pela USAID e por doadores individuais, embora Gadgil procure implicar algumas organiza????es para poder come??ar a produção massiva. A ideia ?? vender o forninho por 25 dólares (17 euros). Como o preço não est?? ao alcance da bolsa da maioria dos seus potenciais utilizadores, est?? a pensar-se na maneira de os alugar por uns c??ntimos semanais ou de os pagar a prazo.

 

A Funda????o Scojo, em Nova York, também se movimenta com solu????es de mercado, embora seja uma organiza????o sem fins lucrativos e necessite de ajuda desinteressada. Inventou um programa de micro-franchising que vende ??culos correctores em seis pa??ses por 3,72 dólares (2,5 euros). Em cinco anos, aScojo vendeu mais de 70.000 pares de ??culos a pessoas necessitadas na ??ndia, Bangladesh, Ghana, Salvador, Guatemala e M??xico. Tamb??m chegou a um acordo para o fazer na ??frica Subsariana.

 

A funda????o prepara os propriet??rios dos franchisings para que possam levar a cabo exames oftalmológicos b??sicos, e vendam ??culos baratos a quem não necessite de exame m??dico mais rigoroso, ou remetam para a clínica os que dele necessitem. Segundo Scojo, estes mais de mil propriet??rios duplicaram os seus ingressos e ajudaram a que milhares de empregados manuais possam voltar a trabalhar ou melhorem a sua produtividade.

 

Vacinas em desenvolvimento

 

O Dr. Fred Binka trabalha para melhorar as condições sanit??rias dos ganenses. Conta-o a Newsweek (1-10-2007) numa reportagem. O Dr. Binka ?? director executivo de INDEPTH, uma rede de 37 centros sanit??rios situados ao longo de ??frica, ??sia e Am??rica Central. INDEPTH est?? a criar uma grande base de dados com quase todos os aspectos das vidas dos seus pacientes: histórias clínicas, casamentos, religi??es???o que ajudar?? a realizar ensaios clínicos de primeiro nível. O Dr.Binka trabalha no Gana. S?? no centro sanit??rio que INDEPTH tem em Kintampo est?? a fazer o seguimento de 140.000 pessoas. Em muitos casos os dados que ele obt??m são os ??nicos registados oficialmente.

 

Outra das personagens reunidas na reportagem ?? David Edwards, da School of Public Health de Harvard, que desenvolve uma investiga????o para conseguir uma nova vacina contra a tuberculose... em p??. Mediante um processo semelhante ao que se utiliza para o leite, a equipa de Edwards conseguiu um produto cujas vantagens seriam abundantes: al??m de recolocar a agulha por um inalador, não necessita de cuidados de temperatura ambiente (enquanto o frio ?? necessário para as vacinas l??quidas) e tem dez vezes o número de bacilos da vacina tradicional. J?? foi testada em animais de laborat??rio e funcionou bem.

 

Sobre colabora????o entre administra????es públicas, investimentos privados e fins beneficentes pode falar Christopher Egerton, em princ??pio muito afastado do c??none de um filantropo. ?? um empres??rio que estudou Bioqu??mica em Oxford e que triunfava na Goldman Sachs quando o governo brit??nico o encarregou de criar um projecto que atra??sse grandes investimentos para projectos de vacinas. E conseguiu-o. Foi posta em marcha h?? um ano a International Finance Facility for Immunisation (IFFIm), depois de ter conseguido investimentos de Bono, de Gordon Brown e da Santa S??, entre outros.

 

O objectivo da IFFIm ?? sustentar economicamente parte do trabalho da GAVI Alliance (Alian??a Global para Vacinas e Imuniza????o), em pa??ses em desenvolvimento. A sua base financeira est?? formada fundamentalmente por obriga????es emitidas por diferentes Estados. O seu objectivo ?? investir esses fundos nos mercados internacionais de capitais durante os próximos dez anos para configurar a sua própria base financeira. Desde o seu início patrocinou projectos contra o sarampo, a poliomielite, o t??tano e a febre amarela.

 

Banca que reduz desigualdades

 

A possibilidade de que a banca sirva os mais pobres não se limita somente ao conhecido caso do Grameen Bank, de Muhammad Yunus, impulsionador do microcrédito. Uma vis??o também positiva do negócio banc??rio num ambiente de liberdade de mercado ?? oferecida pela an??lise de The Economist (17-11-2007) sobre a crescente presen??a de bancos em ??frica.

 

Cita uma informação recente do Banco Mundial que assinala como uma prioridade promover o acesso dos africanos a serviços financeiros. Segundo o FMI, o continente est?? no seu melhor per??odo de expans??o económica sustentada desde a descoloniza????o. Este crescimento deve-se ?? subida dos preços das mat??rias-primas, ao petróleo e ?? ajuda estrangeira. Tamb??m, no entanto, a uma melhor gestão económica e a políticas mais est??veis e abertas ?? competitividade.

 

Aos bancos interessa o lucro, mas também, por isso, que os seus potenciais clientes sejam mais pr??speros; al??m disso, a procura do novo cliente obriga-os a oferecer solu????es adequadas aos que têm menos recursos. Tudo isto est?? a ajudar a reduzir as dist??ncias entre ricos e pobres. No entanto, o acesso a estes serviços financeiros ?? proporcionalmente pequeno. Por exemplo, s?? 20% das famílias africanas tem conta banc??ria.

 

A revista brit??nica dedica, no mesmo número, outro artigo ?? união entre banca e telem??vel. O director do departamento de Economia da London Business School, Leonard Waverman, considera que aumentar em 10% a presen??a do telem??vel num t??pico pa??s em desenvolvimento leva consigo um aumento de 0,5% no PIB per capita.

 

A banca por telefone melhora o acesso aos serviços financeiros. Atrav??s de agentes do operador m??vel, permite aos clientes depositar e retirar dinheiro em numer??rio, ou fazer envios instant??neos de dinheiro. Pode receber-se o ordenado por telefone. Os taxistas, por exemplo, podem aceitar pagamentos sem necessidade de levar consigo grandes somas de dinheiro em numer??rio. Um comportamento habitual ?? o de depositar o dinheiro antes de fazer uma viagem longa e retir??-lo no destino, o que aumenta a segurança. Com tudo isto evita-se a necessidade de uma rede nacional de sucursais banc??rias ou de caixas autom??ticas. Esta banca m??vel ??, al??m disso, facilmente combinível com iniciativas de micro-créditos.