O papel educativo dos relatos infantis
Por isso pode ser ??til rever o tipo de ac????o educativa que podem oferecer (ou n??o) as fic????es, e, de um modo mais geral, indicar alguns critérios para enquadrar e valorizar apropriadamente os relatos literários infantis.
Diferença de intenções
Em primeiro lugar ?? necessário distinguir um relato contado com objectivos educativos de outro preparado com objectivos literários. ?? diferente que a f??bula O Pastor e o Lobo seja contada por um educador ou narrada por um escritor.
Não se pede ao educador que a conte como La Fontaine e no seu caso ?? leg??timo que tire a conclusão de que não se deve mentir: o seu interesse ?? educativo, o aspecto literário ?? secundário para ele. Do escritor podemos esperar que a conte bem e que deixe que o leitor tire, por si, as suas consequências: se o seu objectivo ?? literário, sobejam os destaques pedag??gicos.
Ora bem, embora o valor literário seja secundário num relato contado com fins educativos, deseja-se que o aspecto literário esteja bem cuidado, e ?? isso que se espera dos professores. Paralelamente, embora o aspecto educativo seja secundário num relato escrito de modo literário, pode exigir-se a um escritor que se dirige a um público jovem que não perca de vista que todo o relato ?? formativo.
Em todo o caso, tanto o educador como o escritor devem ser s??rios nas suas respectivas tarefas e isto significa, entre outras coisas, que não podem sacrificar a verdade por motivos t??cticos. Assim, um educador não deveria elogiar um mau romance por mais que simpatize ou tenha relação pessoal com o seu autor, nem deveria recomendar um livro com ???valores positivos??? quando lhe falta o primeiro valor: ser um trabalho bem feito; um escritor deveria ter suficiente respeito por si mesmo para nunca cair em simplifica????es abusivas, por incompetência, por motivos ideológicos ou comerciais.
A complexidade da vida
Em segundo lugar, é preciso pensar qual ?? o principal valor das fic????es e por que motivo nos atraem tanto: porque com elas nos conhecemos a n??s mesmos e conhecemos os outros, e assim expandimos as nossas experiências vitais e podemos enfrentar a vida melhor equipados. Por isso podemos afirmar que da qualidade do que lemos (ou do que ouvimos ou vemos) depende a capacidade de interpretar mais adequadamente o passado; compreender melhor o que podemos ??? ou podem outros ??? experimentar em determinadas situações; aprender a esperar e a prever com acerto o que nos pode vir a suceder.
O facto de que os relatos ampliem a nossa vis??o das coisas e condicionem as nossas futuras respostas, tem una particular import??ncia quando se trata de temas mais sens??veis e quando somos mais jovens. Por exemplo, embora não seja necessário experimentar determinadas condutas prejudiciais para saber quanto mal fazem, pode ser conveniente que conhe??amos antecipadamente a sua exist??ncia e a sua atrac????o, e ?? melhor que esse conhecimento nos chegue a tempo e por meio de histórias que no-las apresentem tal e como s??o. Isto precisamente ??? mostrar-nos a complexidade da vida sem artif??cios ??? ?? o que faz a melhor literatura, em especial aquelas obras bem contrastadas pela passagem do tempo e pelo ju??zo positivo de muitas pessoas que as leram antes de n??s.
Não s?? considera????es est??ticas
Como consequência do anterior, também ?? importante reafirmar que uma cr??tica literária pode e até deve incluir um ju??zo moral sobre os seus conteúdos. H?? casos que são muito claros para todos: espera-se que um engenheiro não elogie a efici??ncia das instala????es dum campo de exterm??nio, ou suavizando o exemplo, que não louve m??todos desumanos de fabrico. Relativamente ao nosso tema, Viktor Klemperer refere o seguinte em A Linguagem do Terceiro Reich: ???Não confio nas considera????es puramente est??ticas no ??mbito da história das ideias, da literatura, da arte, da l??ngua. é preciso partir de posi????es humanas b??sicas; os meios de express??o sens??veis podem ser os mesmos, mesmo sendo os objectivos totalmente opostos???.
Um quarto ponto a ter em conta ?? o da recep????o da obra. O impacto dum relato depende de quando e como se l??, das refer??ncias vitais e culturais que se possuem, da capacidade que se tem de p??r as coisas no contexto adequado. Entre outros factores, tem particular import??ncia a idade, a idade f??sica, mas sobretudo a idade mental, que est?? unida ?? maturidade humana, e a idade leitora, unida ?? formação literária. Assim, ?? lógico que um jovem, que tenta encontrar chaves para compreender o mundo em que est?? a entrar, leia com avidez, enquanto outra pessoa com mais experiência o faz de modo m??s distante; também ?? lógico que alguns livros, que são c??pias pobres de outros anteriores, possam causar emo????o nos que não conhecendo os antecedentes, encontram neles pela primeira vez algo de interesse.
A valoriza????o dos livros
Com estas premissas, que a meu ver constituem um certo enquadramento mental, podem dar-se outras indica????es acerca do modo como um educador h??-de valorizar os conteúdos dos livros infantis e juvenis.
Primeiro, é preciso ter em conta que a categoria literária não tem que ver com a simplicidade aparente ou real. A verdadeira simplicidade dum relato infantil ??? a que rompe as barreiras da idade ??? s?? se atinge normalmente depois de um ??rduo trabalho (sem esquecer que a qualidade do ouro não depende da facilidade com que se recolhe).
Segundo, nos relatos infantis ??? como em todos os outros ??? deve olhar-se para a qualidade da linguagem, a solidez do enredo, etc., mas a tudo isso se deve acrescentar a amenidade, a capacidade de agarrar o leitor. Não se pode esquecer que nos referimos a uns leitores que necessitam de ser atra??dos e de uns livros que lhes v??o chegar atrav??s do entretenimento e não por imposi????o, o que não quer dizer que seja leg??timo que um escritor procure a todo o preço agarrar o seu público (do mesmo modo que um educador não pode mentir e apresentar como real una história edificante inventada ou adornada).
Terceiro, ?? necessário recordar que não corresponde ??s fic????es dar uma vis??o completa dum assunto.
Isto implica, da parte do leitor, o esfor??o de perspectivar as conclus??es a que foi induzido. Corresponde ao educador facilitar ao leitor jovem um melhor conhecimento das outras facetas da realidade evocada nos relatos que l??. Por isso, ?? parte do seu papel sugerir-lhe mais leituras: livros de história, biografias, reportagens, ensaios, outras novelas, etc.
Quarto, deve dizer-se que, assim como um relato hist??rico tem a pretens??o de ser ver??dico, um relato de fic????o tem a pretens??o de ser veros??mil, entendida aqui a verosimilhan??a no sentido amplo: aquilo que nos resulta ???convincente??? de acordo com o que ?? habitual na nossa sociedade. Y como ???a verosimilhan??a ?? também um campo do verdadeiro, a sua imagem e semelhança???, tal como explica Paul Ricoeur, pode dizer-se que se deve pedir a um relato de fic????o que conte sempre a verdade segundo o seu modo próprio de o fazer.

