O ??xito de uma escola feminina em Harlem
???Ensinar separadamente rapazes e raparigas foi sempre a pr??tica corrente nas escolas privadas e paroquiais. Mas agora esta ideia est?? a ganhar for??a nas escolas públicas norte americanas, tanto pelo desejo dos pais a mais op????es, como pelas crises que têm afectado respectivamente raparigas e rapazes???. Primeiro detectou-se que elas estavam a render menos em matem??tica e ci??ncias; depois viu-se que eles pioravam cada vez mais em quase todos os ??ndices de rendimento escolar.
Assim o mostram as m??dias nacionais. A taxa de expuls??es temporárias ?? quase o dobro nos rapazes que nas raparigas, e a de repetentes, 1,5 vezes maior. O fracasso escolar ?? mais frequente neles: 65% terminam o ensino secundário no tempo estabelecido, enquanto as raparigas atingem os 72%. Em cada tr??s alunos de educa????o especial dois são rapazes.
???Discute-se se existe uma crise na educa????o dos rapazes brancos de classe m??dia, mas não h?? dúvida que a escola pública est?? a fracassar em geral com os alunos pobres de minorias, e em especial, com os rapazes???. Não se conseguiu calcular as diferenças entre alunos ricos e pobres, entre brancos e negros. ???Come??a a alastrar falta de esperança???, diz Benjamin Wright, responsável pela rede escolar pública de Nashville (Tennessee), e acrescenta: ???A coeduca????o não est?? a dar resultado. ?? altura de experimentar outra coisa???.
Wright come??ou por experimentar a educa????o diferenciada quando foi colocado numa escola prim??ria de Seattle, onde encontrou um atraso not??vel nos rapazes. Ao fim de um ano de experiências com aulas separadas, a propor????o de rapazes que atingiam o nível m??nimo de conhecimentos subiu de 10% para 35% em matem??tica e de 10% para 53% em leitura e escrita.
Mas nem sempre se obt??m ??xitos t??o rotundos. Wright trabalhou depois no programa de educa????o diferenciada em Filad??lfia e os resultados foram bastante modestos. Wright atribui-os em parte ?? falta de convic????o dos professores. Alguns distritos que ensaiaram a educa????o diferenciada, abandonaram-na porque os progressos escolares eram pequenos e as complica????es log??sticas grandes.
O balanço actual mostra uma expans??o cada vez mais rápida. Em 1995 em todo o território dos Estados Unidos s?? havia duas escolas públicas de educa????o diferenciada; agora h?? 49, e dois ter??os destas abriram nos tr??s últimos anos. H?? também escolas mistas que oferecem educa????o diferenciada pelo menos nalgumas disciplinas: segundo a National Association for Single Sex Public Education, a partir de 2002 passaram de um d??zia a mais de 360 (n??o se disp??e de números exactos).
Uma dessas escolas ?? a Intermedia de Foley (Alabama), onde 70% dos alunos recebem subs??dios para refei????es e cerca de metade são negros ou sul-americanos. Quando come??ou o plano de educa????o diferenciada teve a ades??o de um ter??o das famílias; no ano seguinte duplicaram os pedidos e no terceiro atingiram 87%. Segundo a directora, Lee Mansell, h?? menos problemas de disciplina, mais apoio dos pais e melhores notas na escrita, leitura e matem??tica nas aulas separadas por sexos???.
Para raparigas do Harlem
Weil presta especial aten????o a The Yong Women??s Leadership School (TYWLS), do Harlem (Nova Iorque), considerada a pioneira do actual movimento a favor da educa????o diferenciada pública. Esta escola feminina abriu em 1996 e até agora todas as alunas que terminaram o curso foram admitidas na universidade.
A fundadora de TYWLS ?? Ann Rubinstein Tisch, antes redactora de NBC Network News. Ocorreu-lhe esta ideia no final dos anos oitenta quando fazia uma reportagem em Milwaukee numa escola pública que acabava de abrir uma creche para que as alunas com filhos pudessem regressar e terminar o ensino secundário. Tisch entrevistou uma delas, que tinha 15 anos: ???Onde te v??s daqui a cinco anos????; a rapariga rompeu a chorar. ???Pensei: est?? presa e sabe-o, recorda Tisch. E a sua situação afecta tr??s gerações: a sua m??e, o seu filho e ela mesma. Temos que dar a estas raparigas uma via completamente diferente; uma via que est?? aberta ??s raparigas de famílias com posses, ou de escolas paroquiais, ou de escolas judias???.
Para p??r em andamento a sua ideia, Tisch come??ou por visitar escolas femininas privadas e contratar um assessor jur??dico. Falou com a superintendente de um distrito escolar de Nova Iorque que abrange parte de Harlem e consultou Rosemary Salamone, professora de Direito em St. John??s University. Havia um obst??culo legal: segundo uma lei de 1972, os col??gios que recebem financiamento federal não podem discriminar os alunos por sexos. Mas Salomone esclareceu que o projecto podia apoiar-se numa informação do Departamento de Educa????o do munic??pio de Nova Iorque, que tinha detectado nas disciplinas de matem??tica e ci??ncias menor rendimento nas alunas, sobretudo negras e sul-americanas, em relação aos rapazes.
Tr??s meses antes de se inaugurar TYWLS, o Supremo Tribunal declarou que a educa????o diferenciada nas escolas públicas podia ser legal, nalgumas circunst??ncias. A relatora da senten??a foi a magistrada Ruth Bader Ginsburg, que segundo Weil, tinha sido uma das fundadoras do Projecto Direitos da Mulher da American Civil Liberties Union, grupo que se distinguiu por promover ac????es judiciais contra as escolas públicas para um ??nico sexo???. A senten??a redigida por Ginsburg cont??m ???o que alguns consideram um comp??ndio do pensamento feminista até 1996???. Embora o tribunal tenha ordenado que um centro público masculino da Virginia passasse a misto, a senten??a estabeleceu que em determinadas situações, as escolas públicas diferenciadas podiam ser legais, sempre que contribu??ssem para ???apagar as divis??es tradicionais segundo o g??nero, em vez de as perpetuar???.
Um ambiente prop??cio ?? aprendizagem
Contudo, a abertura de TYWLS provocou uma viva polémica. Os opositores diziam que a educa????o diferenciada pública era ilegal, retr??grada e anti feminista. Salomone recorda que a nova escola ???dividiu ao meio o movimento feminista??? Ela própria se demitiu da National Organization for Women.
Weil explica que o ??xito escolar de TWYLS se deve, em grande parte, ao facto de proporcionar ??s alunas um ambiente prop??cio ?? aprendizagem, o que não ?? vulgar nos centros públicos dum bairro problem??tico como Harlem. Na opinião de Emily Wylie, professora de l??ngua e literatura em TYWLS, ???ela ensina melhor e os seus alunos aprendem melhor porque não t??m, ou t??m menos, um ambiente sexualizado???. ???Quase todos em TYWLS reconhecem que a maior preocupa????o dos pais que matriculam as filhas de 11 anos ?? que estejam protegidas do ambiente sexualizado das aulas e das ruas???.
A funda????o criada por Tisch para promover TYWLS abriu mais escolas femininas em outros dois bairros de Nova Iorque, Bronx e Queens, e vai colaborar na cria????o de outras em Chicago, Filad??lfia, Dallas e Austin.
Boas para alunos com dificuldades
Embora esteja a crescer o interesse pela educa????o diferenciada, a investiga????o sobre a sua efic??cia ?? ainda reduzida, refere Weil. H?? poucos estudos que comparam em geral escolas mistas e escolas s?? para um sexo, e não são conclusivos. O melhor que se recolheu procede de estudos sobre escolas católicas, que têm uma longa tradi????o de ensino diferenciado. Por eles se conclui que a educa????o diferenciada não traz especiais benef??cios para os rapazes brancos e de classes m??dias, enquanto os de classes baixas ou de minorias que frequentam col??gios s?? para um sexo beneficiam de melhores notas que os dos col??gios mistos da mesma zona.
???S??o duas as principais explicações que se atribuem a este facto. Por um lado, as escolas diferenciadas d??o aos rapazes, em maior grau que as outras, um sentido positivo do estudo, que os ajuda a contrabalan??ar a influência anti acad??mica da cultura juvenil. Por outro, para frequentar um col??gio de educa????o diferenciada um rapaz tem com certeza uns pais que fizeram o que os educadores chamam uma op????o pr?? acad??mica: preocupam-se pelo acompanhamento do filho nos estudos e tomam alguma decisão a este respeito???.
Weil confirma, pelo que viu em TYWLS e noutras escolas semelhantes que ???a implica????o dos pais parece explicar, em grande parte, o ??xito da educa????o diferenciada pública???. Estas escolas gozam do apoio de muitos pais, satisfeitos por terem acesso a uma op????o que sempre esteve disponível nas escolas privadas ou paroquiais. Tamb??m são atraentes para professores e gestores da rede escolar que nelas encontram uma maneira relativamente f??cil e barata de tentar resolver alguns dos problemas mais preocupantes do ensino público, especialmente em alunos com mais dificuldades???.

