Refor??ar o ensino da moral e das ci??ncias
Apesar de se terem verificado, nas últimas décadas, várias reformas nos planos de estudo, esta ?? a primeira vez que se aprova uma mudança radical da Lei Fundamental da Educa????o de 1947, adoptada durante a ocupa????o americana, para criar um sistema educativo menos elitista e mais adequado ao tipo de sociedade de massas que se ia desenvolvendo no pa??s.
A reforma procura travar também o comprovado decl??nio das competências acad??micas dos estudantes japoneses. Os novos esquemas sup??em, por sua vez, uma evidente revis??o da política educativa mais negligente que teve início h?? seis anos, cujo propósito era favorecer a autonomia do aluno e o esfor??o individual.
Dar import??ncia ?? ??tica
O novo plano procura refor??ar a educa????o moral, se bem que não chega a introduzir a ética como disciplina obrigat??ria, como tinha sido recomendado pelo Education Rebuilding Council - um grupo que assessora o governo - no final do passado m??s de Janeiro.
A tentativa generalizada de fortalecer a educa????o moral - inqu??ritos nacionais mostram que dois ter??os da popula????o aprovam a nova Lei Fundamental de Educa????o - ?? o ponto priorit??rio da revis??o dos planos de estudo, se bem que também procura refor??ar, em todas as vertentes, a educa????o nas ??reas da l??ngua, tradi????o e cultura. Apesar de ter havido muitas opini??es, quer a favor quer contra a revis??o da Lei Fundamental da Educa????o, o certo ?? que se notava a necessidade de uma s??ria reformula????o moral e de um retorno ??s virtudes tradicionais, que t??o grande influência tiveram no ressurgimento do pa??s depois da grande guerra.
Para al??m da crise no sistema educativo, tem influência a desintegração da família e a mudança de mentalidade dos jovens, desde os que preferem saborear a vida, aos que não querem trabalhar, até aos que rompem com o mundo exterior (os chamados hikikomori - reclusos no seu quarto - ver Aceprensa 123/01, 51/04 e 25/05, na vers??o impressa).
Um dos pontos mais controversos da nova Lei ?? o facto de, numa das suas cl??usulas, estabelecer o fomento do sentido de patriotismo, como um dos fins da educa????o. Enquanto uns aprovam esta medida, como algo natural para uma na????o, outros preocupam-se com a ideia de que possa dar origem ?? propaga????o do nacionalismo.
H?? ainda os que dizem que o Jap??o est?? a deslizar para o sinistro militarismo dos anos 30, coisa impens??vel na sociedade japonesa de hoje. Naqueles tempos, a despesa militar representava a taxa mais alta do or??amento nacional, enquanto que agora não atinge 1% do PIB. Ao contr??rio de ent??o, nem a economia japonesa se adapta ??s necessidades das for??as armadas, nem estas se encontram fora do controlo político. Mais: o povo ?? absolutamente resistente a qualquer coisa que se aproxime, mesmo vagamente, a manipulação militarista.
Quando falha a educa????o em casa
A nova lei d?? ??nfase ao culto da disciplina e da moral familiar. Assim, por exemplo, assinala a responsabilidade que os pais t??m de educar os seus filhos, para que adquiram bons h??bitos, que lhes permitam chegar a ser independentes e actuar de forma responsável.
Num inqu??rito nacional, realizado pelo di??rio Yomiuri Shimbun, nos finais de Novembro de 2006, quando estava no auge o debate sobre a aprova????o da nova lei, a maioria dos inquiridos disse que a causa principal do desmoronamento do ensino era o facto de os pais não educarem bem os seus filhos na regras de conv??vio social. Outras respostas referiam-se ?? crescente falta de comunicação entre os jovens (55%), ao facto de que muitos pais não se apercebam do stress e sofrimento mental dos seus filhos, ?? insuficiente capacidade dos professores (48%) e a que as escolas fogem da sua responsabilidade no que diz respeito ?? press??o escolar (45%). Os resultados indicam, sem margem para dúvidas, a import??ncia da educa????o no lar.
Problemas da conduta escolar
Depois da II Guerra Mundial, o Jap??o adoptou uma política educativa de igualdade de oportunidades e elevou a qualidade do ensino, conseguindo o impulso necessário para um surpreendente desenvolvimento económico. O actual estado do ensino revela, no entanto, uma s??rie de problemas que motivaram a desconfian??a do público.
Verificam-se problemas educacionais: a press??o escolar - até ao extremo de ser, nalgumas ocasi??es, causa de suic??dio de adolescentes - o absentismo, a violência nas escola, a indisciplina e problemas de comportamento nas aulas. Não ?? exagerado, portanto, sublinhar que a educa????o pública não funciona bem.
Tudo isto foi a causa de que, em 2002, se pusesse em pr??tica uma reestrutura????o do ensino (ver Aceprensa 142/01, na vers??o impressa). Come??ou-se por suprimir 30% dos conteúdos do curr??culo anterior no ensino prim??rio e secundário obrigat??rios e reduzir a semana lectiva para cinco dias, com menos horas de aulas, nos nove anos de escolaridade obrigat??ria. Este novo sistema apostava num ambiente escolar menos tenso e mais criativo, com menos memoriza????o de dados e mais reflex??o. Foi até criado um slogan: yutori kyoiku, ou educa????o sem press??es: com amplitude e flexibilidade.
Uma das questões mais polémicas sobre estas directrizes do Minist??rio era saber-se se as metas propostas para a reforma educativa - manter altos níveis acad??micos e criar um ambiente educacional mais distendido - seriam ou não compat??veis. Passados seis anos, os resultados parecem indicar que não foram. Assim, a nova reforma volta a impor uma maior press??o.
O novo plano de estudos proposto manter?? o per??odo lectivo de cinco dias por semana, iniciado em 2002, mas as horas lectivas aumentar??o aproximadamente 10% no total. No entanto, o tempo dedicado ??s mat??rias cient??ficas crescer?? 33% e o dedicado ?? matem??tica, 22%.
A descer no relatório PISA
Segundo o último relatório PISA 2006, o rendimento escolar dos jovens japoneses continua a descer no ranking internacional. Quando estas provas internacionais para alunos de 15 anos come??aram, no ano 2000, o Jap??o era o primeiro em ci??ncias, o segundo em matem??tica e o oitavo em leitura.
Desde ent??o, a competência acad??mica dos estudantes japoneses foi descendo progressivamente de nível. Em 2003, desceram para d??cimo quarto lugar em leitura, para sexto em matem??tica e para segundo em ci??ncias. Na avalia????o de 2006, ficaram em d??cimo quinto lugar em leitura, em d??cimo em matem??tica e em sexto em ci??ncias.
Este programa da OCDE est?? desenhado para avaliar a capacidade dos alunos em aplicar os seus conhecimentos e pensar logicamente, em vez de avaliar simplesmente o número de conhecimentos acumulados.
"O inquietante acerca dos resultados dos alunos japoneses - diz Masahiko Ishizuka, professor da Waseda University, num artigo publicado no The Nikkei Weekly - ?? que lhes falta sobretudo capacidade de discernimento em relação a problemas e de entendimento das peculiaridades da investiga????o cient??fica, mesmo quando conseguem obter conhecimentos, interpretar provas, tirar consequências e reconhecer as raz??es subjacentes. Resumindo: os alunos japoneses são relativamente bons em acumular conhecimentos, mas não em utiliz??-los.
"O mais preocupante, no entanto, ?? que o relatório PISA conclui que os alunos japoneses estão menos motivados para o estudo de temas na ??rea das ci??ncias, estão menos optimistas acerca das sa??das que um curso de ci??ncias lhes pode oferecer e menos seguros das suas capacidades neste campo. S?? 8% dos estudantes japoneses pensam que, quando chegarem aos 30 anos, vir??o a trabalhar nesta ??rea, em compara????o com uma percentagem de 25% noutros pa??ses da OCDE.
E isto não ?? tudo, j?? que a d??bil motiva????o, a falta de vontade e a atitude pessimista em relação ao trabalho prevalecem na vida de muitos jovens de hoje, tanto na escola como em casa.
Como continua Ishizuka: "O estado dos jovens ??, em conclusão, um reflexo da sociedade dos adultos. Assim, alterar o modo de vida de hoje, talvez possa ser, em última inst??ncia, a única maneira de preparar as mentes de amanh??".
Bushido: a alma do Jap??o
?? interessante comprovar a nova popularidade do famoso livro de Inazo Nitobe (1862 - 1933) Bushido: The Soul of Japan (bushi = samurai; do = caminho). Escrito em ingl??s e publicado nos Estados Unidos, em 1905, o livro de Nitobe descreve o c??digo de conduta contido no documento que, na ??poca feudal, governava a vida dos nobres do Jap??o: as virtudes e estilo de vida do guerreiro samurai.
O livro foi escrito para responder, definitivamente, ??s perguntas da esposa e amigos não japoneses acerca do modo como se ensinavam, no seu pa??s, a educa????o moral e as virtudes. Nitobe, cuja ef??gie aparecia nas antigas notas de 5.000 ienes, foi um desses homens de grande carácter que deixam marca: cristão, escritor prol??fero, educador, diplomata e político. Soube explicar os conceitos de rectid??o, coragem, benevol??ncia, cortesia, veracidade, honra e lealdade, de tal forma que cativou e continua a cativar não s?? estrangeiros, mas também os seus compatriotas. Desde a sua publica????o, teve numerosas reedi????es e ultimamente desempenhou um papel essencial nas discuss??es acerca da nova Lei Fundamental da Educa????o.
Como se explica este ??xito de um livro publicado h?? mais de cem anos, desaparecida j?? a classe dos samurai, a que se refere? A chave est??, provavelmente, no facto de que Nitobe, com base na sua formação cristã, interpreta o esp??rito do bushido na sua forma mais pura e original, sem as brutais tendências que lhe podem ser associadas. Esta pureza pode muito bem explicar a popularidade do livro nos dias de hoje. Como diz Masahiro Sato, em??rito professor de filosofia na Osaka City University, tradutor de Bushido para japon??s: "Para Nitobe a desapari????o do bushido não constitui nenhum problema; ele apenas quis que as pessoas pensassem no modo como desenvolver as virtudes que defendia".
De vez em quando, aparecem diferentes factores que ajudam a manter o livro vivo na consciência nacional. Em 2003, por exemplo, o filme O último samurai, cuja publicidade chamava a aten????o para a actualidade do tema bushido, rendeu 115 milhões de dólares no Jap??o; e um dos livros mais vendidos nos últimos anos, Kokka no Hinkaku (The Dignity of a State), de Masahiko Fujiwara, representa um lamento pelos valores perdidos do bushido que, segundo o autor, se encontram nas estranhas do carácter japon??s.
?? também curioso o facto de que, apesar dos males que afectam a sociedade actual, esse esp??rito parece estar no sangue do japon??s m??dio. Referindo-se ao ??xito do referido filme, William Ireton, chefe da Warner Japan, resume-o do seguinte modo: "Apesar de os jovens não saberem muito acerca do bushido, foi como que um apelo ao ADN nacional!".

