??As humanidades são totalmente pr??ticas??
Entrevista concedida a Ruben Pereda
- As Humanidades estão em crise?
- Por um lado, a situação das humanidades est?? melhor do que nunca: h?? mais patroc??nios para exposi????es, concertos, investiga????o no campo da historiografia, lingu??stica, literatura, arte, arqueologia??? Em todos os pa??ses h?? apoios governamentais para estas actividades. Al??m disso, t??m sido constitu??das empresas que divulgam, atrav??s dos meios de comunicação, vários temas de valor humanista. A educa????o também tem sido beneficiada e, presentemente, recebe mais dinheiro do que recebera em toda a sua história. ?? ??bvio, consequentemente, que as possibilidades, os meios das humanidades são muito superiores nos nossos dias do que em qualquer outra ??poca.
Pelos motivos apontados atr??s, as inúmeras queixas que existem acerca da decad??ncia das humanidades nada t??m a ver com a escassez de recursos, mas t??m antes outras caracter??sticas. O problema principal ?? a falta de convic????o e de empenho dos humanistas pelo seu próprio trabalho: estes factores tornam-nos incapazes de transmitir o saber humanista, visto que não o vivem. H?? muitos humanistas que desejam estar isolados para investigar: isso d??-lhes uma grande auto-satisfa????o em detrimento do amor pelo saber, que se destina sempre a ser transmitido.
E actualmente a preferência pelo materialismo e pela superficialidade, ??frui????o imediata??, o prazer a curto prazo, ?? beneficiada pela fraqueza e falta de convic????o da actividade humanista: não h?? perspectivas que esta atitude venha a ser alterada.
- Que rem??dio ??prescreve???
- Os humanistas t??m de voltar a acreditar no homem, recuperar a perspectiva integradora que ?? uma caracter??stica da concepção humanista. Não se trata de uma investiga????o sectorial, como a das ci??ncias humanas, mas de uma investiga????o parcial integrada num todo. ?? verdade que as ci??ncias humanas, quando bem feitas são muito úteis, mas não ?? o mesmo que o esp??rito humanista, que se deve basear numa busca da perfeição humana, da integração.
Sempre se fez a distin????o entre as tr??s dimensões fundamentais para a perfeição do homem: o verdadeiro, o bom e o belo. No actual sistema educativo, s?? se privilegia a intelig??ncia, e nem sempre da forma mais correcta. Não h?? dúvida que se presta muito pouca aten????o aos sentidos, especialmente, ao sentido est??tico e ao ??tico, porque não se educa a vontade. S??o falhas de formação humanista muito graves. O modo de remediar estas falhas passa por considerar com seriedade o homem como um todo.
O segundo propósito que, aqueles que se dedicam ??s humanidades, ?? ter de provar que elas são completamente pr??ticas para o homem: efectivamente, na sociedade, a sua utilidade não se torna assim t??o vis??vel. Embora não sendo produtiva, tem um efeito mais profundo e de maior alcance, que influencia e orienta as decisões. A pessoa, cuja formação é baseada no ideal de perfeição humanista, está mais capacitada para conseguir benef??cios.
- Talvez para revitalizar as humanidades, tenham de ser alteradas as leis sobre educa????o???
- Toda a recupera????o depende de haver pessoas convictas. Efectivamente, pode legislar-se, mas, como j?? dizia Hor??cio, de nada servem as leis sem os costumes. E sem homens bons não h?? costumes bons. A influência da legisla????o ?? muito menor do que se pensa e o seu efeito ?? m??nimo.
Tem de ser fomentada a presen??a significativa de pessoas que acreditem no valor das humanidades e que tenham consciência que s?? elas podem efectuar a transmissão vital do saber humanista. Como j?? assinalei, s?? com as leis não se consegue nada, mas o mesmo acontece com o que se escreve: não conseguem motivar como motiva o exemplo.
Esta ?? outra falha do humanismo contempor??neo: sobrevalorizar o que ?? escrito e desvalorizar o diálogo pessoal. ?? certo que se trata de uma percentagem: é preciso que se escreva, que se publique, mas sem que isso venha prejudicar o diálogo. Al??m disso, quando se publica muita coisa, que ?? o que acontece presentemente, ?? evidente que nem tudo tem a profundidade e a qualidade que se exige. Os humanistas, presentemente, ambicionam, primeiro que tudo, o reconhecimento público, que lhes sejam atribuídos ou prémios ou compensações monet??rias e esquecem-se do conselho de Plat??o: ?? mais importante escrever nas almas, utilizando as ideias, o exemplo, a conviv??ncia.
- Que repercuss??es sociais tem o esp??rito humanista? Que lugar ocupa?
- O esp??rito humanista ?? uma vis??o ampla, abrangente, que os actuais governos não t??m. A verdadeira política ?? um humanismo pr??tico: tradicionalmente chegou a ser considerada uma arte nobre, a encarna????o de uma ideia. Contudo, os políticos contempor??neos também ca??ram no ??prazer a curto prazo??, na superficialidade: não sabem e não podem transmitir um humanismo vivo.
Esta vis??o ?? integradora: procura colocar cada actividade humana no seu s??tio certo, cada saber, que s?? ?? verdadeiro no lugar que lhe ?? atribuído, orientado para o bem do homem. A dicotomia entre ci??ncias e letras não ?? caracter??stica do esp??rito humanista. O humanista interessa-se pelas ci??ncias porque ele sabe qual o seu valor. Os cientistas lamentam-se, com raz??o, que os humanistas, que não percebem de ci??ncia, exigem que aqueles saibam humanidades. ?? lógico que este conhecimento não tem de ser exaustivo, mas tem de se orientar para o fundamental e, sobretudo, para a sua aprecia????o como um saber humano. ?? natural que conhecimento cient??fico natural esteja mal aproveitado, visto que os humanistas não t??m ajudado a dar a sua contribui????o adequada.
Temos de nos convencer e fazer com que saibam que o esp??rito humanista não ?? um adorno do conhecimento, mas a sua seiva.

