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O insucesso escolar dos sobredotados

A maldi????o do talento

 Educação Diferenciada
A maldi????o do talento

At?? agora era comum denominar como sobredotados os estudantes que obtinham uma pontua????o superior a 130 nas provas de medi????o da intelig??ncia. Este quociente intelectual obt??m-se dividindo a chamada idade mental da criança, medida pelo teste, pela idade cronológica, e multiplicando o resultado por cem. No entanto, na actualidade est?? a afinar-se cada vez mais, tanto na precis??o e interpreta????o dos diversos testes (WISC, WAIS, SCAT), como na própria compreens??o da sobredota????o, que j?? se não associa simplesmente a umas capacidades superiores ??s presumivelmente normais, mas também ?? criatividade ou ao alto grau de dedica????o e concentra????o nos seus interesses.

 

Al??m disso, depois dos estudos de Gardner e outros, cada vez diferenciamos melhor os diversos tipos de intelig??ncias, e, por conseguinte, conhecemos como uma pessoa pode ser muito dotada em alguma delas, mas não necessariamente em todas. A intelig??ncia lingu??stica, que distingue, por exemplo, os poetas; a lógico-matem??tica, que caracteriza os cientistas; a espacial, dos marinheiros e engenheiros; a musical; a corporal e cin??tica na qual se apoiam os atletas, os cirurgi??es ou os bailarinos; a interpessoal, dos professores ou vendedores; e a intelig??ncia intra-pessoal, mediante a qual nos conhecemos e nos desenvolvemos na vida.

 

Entre o orgulho e o temor

 

A vida escolar dos sobredotados nem sempre ?? f??cil. A primeira reac????o dos pais, quando o especialista lhes comunica que o seu filho ?? sobredotado, ?? muito complexa: mistura de orgulho, entusiasmo por grandes metas, e ao mesmo tempo certa m?? consciência, como se reconhecer o talento superior ?? m??dia do seu filho supusesse vangl??ria ou vaidade, e, como n??o, o temor a expor o filho ?? curiosidade pública, e ao mais que prov??vel rep??dio motivado pela inveja. Assim, em bastantes ocasi??es, os pais guardam para si a informação, e continuam a tratar o filho como se ele fosse normal. Uma criança esperta , um pouco inconstante, mas que supre a sua falta de esfor??o com a sua grande agilidade mental e extraordin??ria mem??ria.

 

No entanto, não ?? esse o caminho. Estamos muito habituados a que as crianças se agrupem nos centros escolares de acordo com a idade, porque, quando se instaurou a educa????o obrigat??ria, o sexo e a idade eram logicamente os factores mais evidentes e simples para as agrupar por classes. Javier Tour??n, responsável do CTY Espa??a (Centro para Jovens com Talento, em correspond??ncia com a Universidade Johns Hopkins de Baltimore) , apresenta muitas vezes o exemplo seguinte: Estando com o seu filho numa sapataria, pediria umas botas para uma criança de nove anos? Não seria prefer??vel referir antes o número que ele cal??a? No entanto, leva-o ?? escola e matricula-o no terceiro ano sem antes ter analisado quais as suas capacidades e os seus interesses.

 

Outro paradoxo: o sobredotado não ?? o mais esperto da classe, nem sequer o mais inteligente. E, evidentemente, não ?? um g??nio (se bem que ?? possível afirmar que todos os g??nios são sobredotados). Simplesmente ?? um aluno que tem um ritmo de aprendizagem, um leque de interesses e um modo de se relacionar com o que o rodeia diferente do percentil m??dio. ?? por isso que a sua capacidade e a sua forma de assimilar, processar e utilizar a informação e o conhecimento são distintas.


Surgem os problemas

 

Calcula-se que aproximadamente 2% dos estudantes são sobredotados, mas destes s?? um em cada cem ?? diagnosticado adequadamente. O doutor Javier Berch??, que tratou mais de dois mil sobredotados desde h?? 25 anos , explica como se costumam fazer as identifica????es a alunos entre os 12 e os 16 anos, a maior parte rapazes. Atribui o motivo ao facto de ser neste momento que irrompe a problem??tica, a tendência para o fracasso escolar, a ang??stia dos pais.

 

O retrato robot ?? o de um rapaz, com reprova????es nos primeiros anos do ensino secundário, cujos pais sempre consideraram que se tratava de um rapaz muito inteligente, mas que nunca se tinha proposto estudar em condições. Recorre-se ao especialista, porque existe um problema.

 

Curiosamente não ?? esse o caso das raparigas: obt??m melhores resultados, passam horas a estudar, e, em linhas gerais, t??m uma maturidade que as torna capazes de se integrarem com muito menor grau de conflitualidade. ?? relativamente frequente, pelo contr??rio, que um rapaz sobredotado decida reprovar a uma ou duas disciplinas??? para não sobressair.

 

As primeiras identifica????es de que se trata de um sobredotado costumam ser os pais a faz??-las, mais ou menos conscientemente. S??o crianças que desde muito cedo utilizam um vocabul??rio complexo, mostram um desejo desmedido de saber, come??am a ler cedo, aprendem com a m??nima instru????o e são extremamente sens??veis, perfeccionistas que se incomodam desproporcionadamente com os erros próprios ou alheios. Al??m disso, costumam ser distra??dos, muito afectivos, com baixa auto-estima e um exagerado sentido de justi??a, que os leva a serem muito cr??ticos consigo próprios e com os outros.

 

Os rasgos peculiares

 

Com terminologia mais técnica, o professor Tour??n resume as últimas conclus??es da literatura cient??fica em várias categorias cognitivas e afectivas. As primeiras são a habilidade para trabalhar com sistemas de s??mbolos abstractos, grande poder de concentra????o, mem??ria muito bem desenvolvida e pouco usual, desenvolvimento precoce da linguagem, grande curiosidade, preferência pelo trabalho independente, interesses m??ltiplos e habilidade para produzir ideias originais.

 

De entre as afectivas destaca o sentido da justi??a, o altru??smo e idealismo, o sentido de humor, a intensidade emocional, a preocupa????o precoce relativamente ?? morte, o perfeccionismo, grandes doses de energia tanto no jogo como no trabalho, a sensibilidade est??tica e os fortes compromissos e apegos em relação a um ou dois amigos, mais velhos ou inclusivamente adultos.

 

Com esta bagagem, deveriam ser logicamente capazes de se adaptar ao ambiente que os rodeia, tirar o melhor partido de cada situação, e seguir em frente com facilidade, Qual ser?? ent??o o porqu?? desses espectaculares ??ndices de fracasso escolar ou de baixo rendimento, muito acima da m??dia?

 

Em muitos casos a sequência ?? a seguinte: até aos nove ou dez anos, sem problemas, mas com muito escassos h??bitos de trabalho escolar, visto que podem realizar boas tarefas em muito pouco tempo. Posteriormente aparecem a pregui??a, a apatia e a falta de técnicas de estudo adequadas. Quanto a tens??es: os deveres por fazer, com desculpas constantes, desinteresse generalizado pelos temas acad??micos, descri????o cada vez mais insistente da escola como aborrecida ou sem sentido. Os professores não t??m tempo nem formação adequada para o atenderem de forma personalizada, e o pequeno sobredotado come??a a bocejar e a aborrecer-se nas aulas, quando os trabalhos que os seus companheiros realizam empenhadamente j?? ele os terminou; perde-se nas nuvens, perturba e distrai os companheiros... Conflitos, baixo rendimento, reprova????es, sensa????o de que a escola não ?? adequada para ele.

 

Sem interesse não h?? esfor??o

 

Os pais tomam medidas: um hor??rio de estudo muito concreto, e para cumprir custe o que custar, para ir ganhando h??bitos de trabalho. Por??m a situação enquista-se e os resultados não melhoram. Ent??o os pais procuram motivar o filho: tens que cumprir o teu dever, todos fazemos isso; o teu futuro depende do que agora trabalhes seriamente; tens muitas capacidades, deves ser responsável dos talentos recebidos e, al??m disso, far-nos-ias t??o felizes!

 

Deste modo, a criança leva o assunto a s??rio e p??e-se a estudar uma, duas horas di??rias uma mat??ria que lhe não interessa absolutamente nada. O grande problema que tem um sobredotado nestes momentos não ?? que lhe seja dif??cil trabalhar, ?? que não pode esfor??ar-se em nada que lhe não interesse. O seu leque de interesses vai-se reduzindo de dia para dia. ?? como se a qualquer de n??s nos colocassem todos os dias duas horas diante da lista telef??nica e nos explicassem que devemos memoriz??-la de A a Z e nos dissessem ainda que cada quinze dias nos fariam um controle??? Algum de n??s conseguiria chegar até ??lvaro?

 

A frustra????o dos pais

 

Em Valladolid, no Centro Huerta del Rey para sobredotados, realizou-se uma interessante sondagem a um grupo de pais de alunos sobredotados : um ter??o deles tinha mudado o filho de col??gio uma vez, e um de cada cinco tinha-o feito duas vezes. Os pais, enfadados e sem compreenderem como o ???seu??? sobredotado, até havia pouco tempo criança exemplar, fracassa uma e outra vez, contam como no centro educativo lhes respondem: ???n??o temos pessoal especializado???; ???n??o sabemos como abord??-lo??? e, muitas vezes também,???desculpe, minha senhora, mas parece-me que o seu filho não necessita de nada especial, porque na turma dele h?? outras crianças muito mais espertas que não d??o nenhum problema???.

 

Por esse motivo, quase metade dos pais confessam que viram a sua inten????o gorada e que, cansados de lutar contra um muro, acabaram por desistir. Como explicar na escola, aos professores, ?? burocracia administrativa, ??s autoridades acad??micas, que o seu filho sobredotado não ?? por isso que ?? automaticamente brilhante no desenrolar da sua aprendizagem nem nos estudos? Javier Berch?? insiste uma e outra vez em que ????? necessário desmistificar o sobredotado como o ???urso??? da turma, geralmente solit??rio e introvertido. A criança excepcionalmente sobredotada no aspecto intelectual pode ser um aluno com muito baixo rendimento acad??mico e deficiências muito concretas???.

 

Compreender o processo que leva o sobredotado ao aborrecimento e ?? frustra????o, ao baixo rendimento e ao fracasso escolar, não ?? f??cil. A primeira impress??o ?? simples, extremamente simples: falham os h??bitos, as virtudes, as técnicas de estudo??? Como sempre para ele tudo foi f??cil, nunca trabalhou, e quando teve que trabalhar não o sabia e veio a frustra????o, e???Mas não ?? assim t??o simples.

 

H??l??ne Catroux, psicóloga especializada em dificuldades escolares, que participou na implanta????o de uma pedagogia personalizada na escola La Garanrerie, em Lausanne , descreve assim o processo de crise: ???De repente, o vazio. Durante muitos anos, as aprendizagens realizam-se sem esfor??o e muito rapidamente. Compreende, memoriza, rapidamente encontra os conhecimentos na mem??ria - estes adoptam a forma que as obriga????es escolares exigem - e tudo sem necessidade de reflex??o. Depois, de repente, um dia ocorre o inesperado, o in??dito: no decorrer de um racioc??nio matem??tico, numa disserta????o de história de economia ou de qualquer outra mat??ria, o rimo de pensamento bloqueia, os elementos deixam de encadear-se, a mem??ria parece vazia, e torna-se impossível voltar a conectar as coisas???.

 

Os professores queixam-se de que não se esfor??a, os pais constatam que não prepara seriamente os exames, e todos são conscientes de que perante a menor dificuldade bloqueia. E, claro, num aluno identificado como super-inteligente, este comportamento desconcerta. ???No entanto - acrescenta Catroux -, gostaria de poder gravar um v??deo durante as minhas entrevistas para permitir que tanto os docentes como os pais consciencializassem o drama e o sofrimento que sente a criança sobredotada quando a resposta lhe não ocorre de forma imediata. Penso que observ??-lo suscitaria neles??? compaix??o???.

 

Howard Gardner, Intelig??ncias m??ltiples. La Teoria en la pr??ctica, Paid??s, Barcelona (2005).

 

Tanto Javier Tour??n como Javier Berch?? trabalharam no seguimento do professor Julian C. Stanley, um aut??ntico pioneiro, falecido recentemente, que conseguiu tornar realidade a aten????o ??s crianças mais capazes nos Estados Unidos.

 

Javier Berch?? Cruz, Guia para padres de ni??os superdotados (de supervivencia), Credeyta, Barcelona (2003).

 

Marta Reyero y Javier Tour??n, El desarrollo del talento. La aceleraci??n como estrategia educativa, Netbiblo, Coru??a (2003), p??g.138.

 

Alonso, Renzull, Benito, Manual internacional de superdotados, Eos, Madrid (2003), p??gs. 227-230.

 

Javier Berch?? Cruz, La superdotaci??n infantil, del mito a la realidad, Isep, Barcelona (2002).

 

L?????cole La Garanderie ?? uma institui????o educativa que, sob a direcção de Jean Daniel Nordmann, atende com excelentes resultados crianças sobredotadas. A sua pedagogia baseia-se nos estudos de gestão mental levados a cabo por Antoine de la Garanderie, que centrou as suas investigações no que acontece mentalmente quando realizamos actos de aten????o, reflex??o, compreens??o e memoriza????o. Os seus trabalhos descrevem com grande rigor os processos mentais que se activam durante estes actos, e permitem a cada estudante aplicar com grande precis??o e efic??cia as caracter??sticas mais próprias da sua intelig??ncia.

 

Arielle Adda y H??l??ne Catroux, La inteligencia reconciliada, Paid??s, Barcelona (2005), p??g. 153.