Centros selectivos procuram a diversidade social
A Universidade que teve a seu cargo romper o tabu foi, nada mais, nada menos do que a ??cole Libre des Sciences Politiques, conhecida como a Sciences-Po (Instituto de Estudos Pol??ticos e Financeiros Internacionais), na qual se formou uma boa parte da elite política, empresarial, intelectual francesa. Em 2001, este instituto estabeleceu acordos com várias escolas secund??rias, liceus de ??zonas de educa????o priorit??ria?? (ZEP), isto ??, de bairros considerados de risco da periferia. Os liceus seleccionariam os alunos que estivessem em melhores condições para estudar no Sciences-Po, os quais não teriam de passar pelo competitivo exame de admissão, que era preciso apresentar como feito e passar numa entrevista.
Um ensaio sob controlo
O mito revolucion??rio da na????o francesa, formada por cidad??os iguais, perde for??a quando ?? confrontada com os enormes contrastes sociais e com a não integração de algumas minorias.
Richard Descoings, director de Sciences-Po, baseou a sua decisão em vários estudos que provam que a popula????o estudantil das grandes escolas pertence a um estrato social muito restrito. Oito em cada dez alunos que ingressaram no Sciences-Po em 1998 eram filhos de empres??rios, pessoas com profiss??es liberais, quadros directivos ou intelectuais.
A decisão gerou muita polémica e foi muito criticada pelos diversos sectores ideológicos. Os principais argumentos contra consistiram em denunciar uma ruptura no princ??pio de igualdade, o perigo de baixar a qualidade do ensino e a afirma????o de que o problema da igualdade de oportunidades deve ser resolvido com uma melhoria no ensino secundário e não na admissão ?? universidade.
O plano foi aprovado com carácter experimental por um prazo de 10 anos. O final do presente ano acad??mico marcar?? metade do percurso (a fase mais importante) e Descoings pode apresentar um resultado bastante positivo. Quinze dos dezassete primeiros alunos dos sub??rbios que entraram no Instituto, sem exame de admissão, terminam, com ??xito, os seus estudos. ??Ganhou-se o direito a ser mais um??, afirma Descoings numa entrevista ao di??rio La Croix (1-06-2006), que fez um estudo profundo sobre este tema. ??Demonstraram que estavam em igualdade de condições intelectuais com os outros seus companheiros??
O número destes alunos aumentou agora para 189, de um total de 6.500. Todos estão de acordo no destaque de um ponto: nunca, mesmo nunca, lhes passara pela cabe??a a ideia de estudar num t??o prestigiado centro, que alguns deles s?? conheciam de nome. O esfor??o acad??mico foi consider??vel, mas, também, dizem que aprenderam a saber quais as ferramentas a utilizarem para triunfar na sociedade: como vestir, falar, comer, estruturar o pensamento??? Sabem que os espera uma boa remunera????o, depois de tanto estudo e j?? come??aram a familiarizar-se com os c??digos não escritos da nova sociedade que os espera.
Abrir-se a outros meios sociais
Trata-se de uma fase experimental, na qual a excel??ncia da formação est?? salvaguardada, e, para j??, os responsáveis das grandes escolas não admitem, de modo algum, que haja um modelo nacional uniforme.
Mas, a partir da altura em que a Sciences-Po abriu caminho, foram postas em pr??tica várias iniciativas com o objectivo de ??popularizar?? a popula????o estudantil destas instituições extremamente selectivas. O Essec (Institui????o de Neg??cios e Finan??as) implementou actividades semanais de orienta????o para os estudantes) sobre o estabelecimento das suas metas de aprendizagem, selec????o de curricula, etc.) nas ZEP a fim de preparar os melhores alunos. A conferência de Grandes Escolas que se efectuou em Janeiro de 2005 responsabilizou-se por esta ideia na ??Carta para a igualdade de oportunidades??. A finalidade ?? abrir novos horizontes a esses jovens. No caso de não poderem aceder a estas escolas, pelo menos ficam mais bem preparados para a universidade.
Tamb??m h?? propostas, neste sentido, da parte do poder político. H?? alguns meses, reagindo contra os motins nos sub??rbios de Paris, o ainda presidente Chirac deu a conhecer um plano que se destina a aumentar o número de bolseiros nos estudos preparat??rios para o acesso ??s grandes escolas. O objectivo proposto ?? passar, nos próximos tr??s anos, de 18% da classe estudantil para um ter??o.
Maior ambi????o no ensino secundário
Estas medidas despoletam uma nova polémica: Devem concentrar-se todos os esfor??os a aumentar as perspectivas dos melhores alunos, ou conv??m não desviar recursos dos que têm mais dificuldades? O aspecto mais positivo ?? que come??ou, j?? no ensino secundário, uma febre a fim de preparar melhor os alunos. Descoings acha que teve o m??rito, em parte, de aumentar a ambi????o na escola secund??ria que se viveu em Fran??a nos últimos anos e que se traduz num incremento de ??men????es?? no exame de bacharelato, o Bac.
Do que ele nem quer ouvir falar ?? da segrega????o dos melhores alunos das zonas menos favorecidas no último ano para o bacharelato. Alguns centros propuseram, inclusivamente, a inclus??o de um ano suplementar para esses alunos. Descoings considera um ??tratamento duplamente diferenciado?? que vai diminuir o valor dos resultados obtidos no Bac. ???? exactamente o contr??rio daquilo que nos propusemos fazer na Sciences-Po, que consiste em misturar todos os estudantes no mesmo curso??.
Tamb??m não acha adequado estabelecer um sistema de quotas na sua escola, a não ser que favore??a um aumento das bolsas de estudo. Isto não impede que cada universidade possa adoptar os programas que considere oportunos. ??A abertura social do ensino superior ??? afirma ??? passar?? pela multiplica????o das medidas experimentais e não pela defini????o de um modelo uniforme para todos.
Sejamos pragm??ticos e esperemos alguns anos para que se possa tirar conclus??es do sistema que, nos nossos dias, est?? a funcionar??.
