Porque volta a interessar a educa????o diferenciada
"Na última década, o tema do ensino diferenciado por sexos originou acalorados debates nos Estados Unidos. O asunto desencadeia apaixonadas controvérsias porque "o ensino diferenciado por sexos enfrenta-se com o dogma da educa????o mista e descobre as fragilidades da neutralidade de g??nero."
A favor e contra
Os defensores do ensino diferenciado alegam que com ele se promove a igualdade de educa????o para as jovens, porque melhora o seu rendimento acad??mico em disciplinas em que elas tendem a atrasar-se (matem??tica, ciencias, tecnolog??a) e favorece uma maior participa????o feminina em profiss??es tradicionalmente ocupadas pelos homens.
Alguns acreditam que a co-educa????o refor??a os estere??tipos sexuais. Outros sustentam que o ensino misto não tem em conta na medida adequada os diversos estilos de aprendizagem e as diferentes necessidades emocionais de cada sexo, nem o distinto ritmo com que rapazes e raparigas desenvolvem as suas aptid??es.
Nos Estados Unidos interessa a educa????o diferenciada, também para fazer face a problemas espec??ficos de alunos de minorias raciais. Pretende-se assim fomentar a auto-estima das raparigas, que apresentam elevadas taxas de gravidez precoce. No caso dos rapazes, em especial dos negros, pretende oferecer-se-lhes um modelo distinto de masculinidade, para contestar o domínio dos gangs e afast??-los da delinqu??ncia e das drogas.
Com efeito, "no princ??pio dos anos 90, alguns distritos escolares - entre eles Detroit e Nova Iorque - come??aram a lutar contra esses problemas abrindo centos educativos masculinos, alguns dos quais foram dotados de um plano de estudos orientado espec??ficamente para os rapazes afro-americanos. (...) Mais recentemente, cidades como Nova Iorque e Chicago abriram centros femininos de ensino secundário que procuram reduzir a diferença dos resultados com os rapazes, em Matem??tica, Ci??ncias e Tecnolog??a.
"Por sua parte, as opini??es contr??rias ?? educa????o diferenciada sustentam que serve "uma política sexista mais ou menos dilu??da, que nega aos homens e ??s mulheres as atitudes interpessoais de que necessitam para relacionar-se uns com os outros" e "n??o fomenta o entendimento e o respeito mútuo que colocam as mulheres em igualdade de condições com os homens."
No melhor dos casos, v??em no ensino diferenciado um disfarce político para dissimular as mais insidiosas desigualdades na escola. E, ainda pior, acreditam que perpetua o conceito de que as raparigas necessitam de um ambiente diferente porque não podem ter o mesmo rendimento escolar dos rapazes.
Igualdade formal ou substancial
Para esclarecer a polémica, tonava-se necessário responder a questões de fundo relacionadas com a igualdade e a diferença.
"As raparigas e os e os rapazes são de tal modo diferentes em aspectos relevantes que necessitam de formas diversas de lhes ministrar a educa????o?."
Essas diferenças entre os sexos são de carácter biológico, e portanto são inevit??veis, ou resultam de aspectos culturais, e por tanto podem mudar-se?"
"O próprio facto de se sugerir a possibilidade de haver diferenças inatas equivale a insinuar que h?? menoriza????o de um sexo face ao outro?"
E também tem de p??r-se a questão de saber em que idades seria adequada a educa????o diferenciada, e se essas idades e mat??rias são as mesmas ou se são diferentes para os rapazes e as raparigas.
Embora não haja acordo sobre essas questões, defensores e opositores da educa????o diferenciada coincidem em manter o ideal da igualdade, ainda que a perspectivem de formas diferentes. Os que se op??em "procuram a igualdade de tratamento e sustentam que os programas s?? para rapazes ou s?? para raparigas violam o princ??pio de que as pessoas em situação semelhante devem ser tratadas de maneira semelhante."
Defendem que homens e mulheres t??m igual capacidade cognitiva, de modo que não h?? entre eles e elas diferenças relevantes para a educa????o.
"Grande parte desta forma de pensar emana do feminismo dos anos 70", que combatia assim os ester??otipos que inculcavam aos sexos destinos separados: para as mulheres, a vida familiar e o cuidado do lar; para os homens, o ??mbito público: o trabalho, a política e a vida intelectual.
"As feministas dessa ??poca acreditavam firmemente que para expurgar esses mitos, tinham de centrar-se no que os homens e as mulheres t??m em comum. (...) Para elas, as raparigas e os rapazes eram essencialmente id??nticos em qualquer aspecto que pudesse influir no rendimento acad??mico. (...) No ensino lutaram para que as escolas fossem neutras quanto ao g??nero (...) no seu material did??ctico, critérios de admissão, objectivos, ambiente e plano de estudos."
"Na perspectiva contr??ria insiste-se em que a questão não est?? na igualdade formal, mas na substancial": o importante ?? corrigir as desigualdades. E, segundo dizem, "a separa????o dos sexos ?? necessária, pelo menos em algumas circunst??ncias, para promover a igualdade de oportunidades". Sustentam que procurar a igualdade formal para as raparigas sem atender ??s suas particularidades, sup??e definir os rapazes como padr??o, mas na realidade, entre rapazes e raparigas, h?? diferenças relevantes ao nível do ensino, quer de ordem natural, quer social.
Como no caso dos programas de apoio a estudantes desfavorecidos, a utiliza????o de "recursos diferentes, tais como os materiais did??cticos, os m??todos, os planos de estudo, etc. produzir?? resultados substancialmente iguais em termos acad??micos e de sucesso profissional em certas ??reas, como a Matem??tica, a F??sica e a Ttecnologia, tradicionalmente dominadaspelos rapazes."
Feministas partd??rias da educa????o diferenciada
Parte da inspira????o da educa????o diferenciada prov??m de estudiosas e escritoras feministas que, desde os finais do anos 70, come??aram a ver as diferenças de sexos com uma nova perspectiva "A obra definitiva que activou o debate sobre a homogeneidade e a diferença e deu origem a que o tema interessasse o público internacional foi In a Different Voice (1982), de Carol Gilligan, traduzida para nove l??nguas". Muitas mulheres se reconheceram nesse livro, que defende duas teses principais: que as mulheres, no seu conjunto, diferem dos homens na sua orienta????o existencial b??sica e que muitas das teorias psicológicas habitualmente consideradas desvalorizam e depreciam o sexo feminino.
Segundo Gilligan, "as mulheres (...) orientam-se para o compromisso, o contacto com outras pessoas e o cuidado, por isso predominam nas relações humanas". Por seu turno, "os homens (...) orientam-se para o isolamento e o pensamento abstracto, o que os predisp??e aos ganhos pessoais e a uma concepção instrumental das relações".
As ideias de Gilligan foram muito discutidas entre as feministas. Algumas viam impl??citos nelas velhos estere??tipos de g??nero; outras pensaram que as libertavam do predomínio masculino e permitiam valorizar as suas qualidades próprias.
Esta publica????o abriu caminho a estudos posteriores da autora sobre raparigas adolescentes, que influenciaram decisivamente as políticas e as pr??ticas educativas. Gilligan sublinhou que a adolesc??ncia ?? uma etapa crucial do desenvolvimento feminino, em que as raparigas se mostram mais propensas a problemas psicológicos, respondem mais negativamente ??s tens??es próprias da idade e tendem a valorizar-se menos.
Estes trabalhos deram suporte ?? ideia de que cada sexo tem a sua forma de perceber a realidade e o seu próprio itiner??rio de desenvolvimento, e proporcionaram o enquadramento te??rico para interpretar as diferenças ressaltadas em estudos emp??ricos. Em particular, os investigadores come??aram a descobrir que a escola mista não conseguia que as raparigas atingissem o nível dos rapazes em Matem??tica e Ci??ncias.
A desvantagem muda de sexo
"Governos e centros educativos de todo o mundo responderam com uma prolifera????o de programas pensados para aumentar o rendimento acad??mico das alunas, especialmente em matem??tica e ci??ncias. Parecia que elas eram as vítimas e provavelmente os rapazes eram, em parte, a causa da sua vitimiza????o. Este foi o tema recorrente na investiga????o sobre a igualdade do g??nero durante os primeiros anos da década de noventa, e converteu-se no critério convencional; educadores e pais come??aram a pensar nas escolas e turmas de educa????o diferenciada como solução". Esta perspectiva desenvoloveu-se amplamente em alguns pa??ses, como na Austr??lia.
"Em princ??pio dos anos 90, estava claro que as raparigas tinham come??ado a reduzir as diferenças de rendimento escolar face aos rapazes". Mantinham certa desvantagem nos estudos superiores de matem??tica e ci??ncias, mas na secund??ria e na universidade havia mais alunas que frequentavam essas mat??rias, e nelas tinham melhores notas e acabavam op curso em maior percentagem que os rapazes.
Ent??o "a opinião pública come??ou a mudar. Surgiu um novo g??nero de literatura popular centrada em que o ensino estava a falhar com os rapazes. (...) Dizia-se que eram os rapazes que estavam a falhar acad??mica e socialmente; que a estrutura e a disciplina da maioria dos centros educativos não diferenciados - em particular da escola b??sica - tendia a favorecer as raparigas, que os professores eram mais sens??veis ?? voz delas (...) Os rapazes tinham mais problemas de aprendizagem, reprovavam mais, apresentavam maior taxa de expuls??es e acediam aos cursos superiores em menor propor????o".
O natural e o cultural
"Isto levou o debate sobre a homogeneidade e a diferença a uma nova dimens??o(...), produzindo uma reac????o contra o suposto sacrif??cio das raparigas. Voltou a surgir a ideia impl??cita de que os rapazes e as raparigas reagem de formas diferentes ao ensino, o que conduz ?? inevit??vel e controversa pergunta: "Porqu???"
Uns defendem que h?? diferenças inatas entre os sexos, que explicam em parte a diversidade do rendimento acad??mico. Por exemplo, alguns sutentam que os rapazes disp??em, em m??dia, de melhor vis??o espacial, o que lhes d?? vantagem na geometria, enquanto que as raparigas os superam em aptid??es verbais, e da?? os sus melhores resultados em l??nguas e literaturas.
Outros não admitem estas generaliza????es porque - segundo dizem - as diferenças m??dias entre os sexos são pequenas em compara????o com as que existem entre indiv??duos do mesmo sexo.
Recentemente, as investigações neurológicas indicaram que a estrutura do cérebro masculino e feminino diferem ligeiramente, sem que isso seja determinante e pode ser alterado pela influência do ambiente ou pelo exercício das faculdades.
Na dúvida, pela liberdade
Rosemary Salomone salienta que ?? muito dif??cil distinguir o que, nas diferenças entre os sexos não ?? atribu??vel a discrimina????es (cfr. Aceprensa 70/08, na vers??o impressa), de origem biológica, psicológica, social ou cultural. Por isso considera mais promissor observar as diferenças entre rapazes e raparigas ?? medida que se desenvolvem, para ajustar os m??todos e os recursos pedag??gicos ??s necessidades detectadas.
Ser??, ent??o , que, "a separa????o nalgum momento da vida escolar ?? a solução definitiva para as diferenças de rendimento acad??mico e a escolha de uma profiss??o?"
"Não ??, mas poderia constituir um dos mecanismos para dar a alguns rapazes e raparigas a igualdade de oportunidades no sentido de uma educa????o ???adequada'. Se os rapazes t??m mais energia e não conseguem fixar a aten????o durante muito tempo e, al??m disso, desenvolvem a sua capacidade verbal a um ritmo mais lento, não ?? razoável esperar que prossigam na escola b??sica ao mesmo ritmo que as raparigas. No mesmo sentido, não ?? aceit??vel demorar a aprendizagem das raparigas enquanto se espera que os rapazes atinjam nível equiparado. Ao mesmo tempo, as raparigas parecem atrasar-se em relação ao desenvolvimento das suas aptid??es para matem??tica e inform??tica (...).
"Se estas diferenças são de ordem biológica, ou de ansiedade causada por factores sociais,ou porque as raparigas são mais lentas nos exercícios de cálculo (...) isso não se sabe com certeza. No entanto, a experiência mostra que quando se lhes pede que escolham, muitas raparigas prefeririam o ensino de matem??tica s?? para elas durante o ensino b??sico e o secundário.
Porque são muitas as questões por resolver, h?? que prosseguir as investigações para se poderem comparar os resultados do ensino diferenciado e do ensino misto.
Entretanto, adverte R. Salomone, o perigo ?? que as posi????ess políticas e ideológicas implicadas travem a experimenta????o com "perspectivas alternativas" que abordem as diferenças sexuais observadas na puberdade e os estilos de aprendizagem entre rapazes e raparigas.
"Com isto não quero dizer que todos os rapazes e raparigas sejam essencialmente iguais, sem qualquer diferença dentro de cada sexo, nem sequer que o ensino diferenciado seja bom para todos. Simplesmente, penso que alguns sairiam beneficiados com os programas de educa????o diferenciada, quer em centros espec??ficos, quer em em aulas diferenciadas dentro de uma escola mista. E, para esses estudantes, deveria oferecer-se um ensino diferenciado como uma op????o v??lida e não apenas limitada ??s famílias privilegiadas que podem permitir-se recorrer a escolas não apoiados com fundos públicos".
Rosemary Salomone, Igualdade e Diferença. A questão da equidade de g??nero em educa????o, in Revista Espa??ola de Pedagog??a, ano LXV, n??238, p??gs. 433-446
Pedagogia adaptada ao sexo
O número citado da Revista Espa??ola de Pedagog??a inclui outros quatro trabalhos acerca da educa????o de rapazes e raparigas. O mais extenso ?? o de Jos?? Antonio Iba??ez-Martin, catedr??tico da Universidad Complutense (Madrid).
Come??a com um estudo jur??dico acerca da legitimidade da educa????o diferenciada, ?? luz da jurisprud??ncia do Tribunal Europeu de Direitos Humanos. Os ju??zes de Estrasburgo pronunciaram-se favoravelmente, em diferentes ocasi??es sobre o direito dos pais a que os filhos recebam ensino escolar de acordo com as suas convic????es filos??ficas e religiosas. O mesmo seria aplic??vel ??s convic????es pedag??gicas, que no projecto do Tratado de Lisboa, são equipar??veis ??s dos dois ??mbitos referidos.
Sobre a educa????o diferenciada, o autor destaca as raz??es que explicam o actual interesse da quest??o: a acumula????o de provas sobre os diferentes ritmos de desenvolvimento de cada sexo e a influência de um ambiente social erotizado na escola, que perturba o ensino aos adolescentes. Com essse enquadramento, o Professor Ib????ez-Mart??n sintetiza os benef??cios que a educa????o diferenciada proporciona para as raparigas e para os rapazes , segundo os principais estudos publicados.
O psiquiatra Aquilino Polaino-Lorente (Universidade de San Pablo-CEU) aborda o desenvolvimento da identidade sexual dos rapazes, com abundantes refer??ncias a casos recolhidos da experiência clínica.
Por seu turno, Maria Victoria Gordillo (Universidade Complutense) examina a situação da educa????o mista na actualidade e as experiências de educa????o diferenciada; as suas conclus??es salientam, em especial ??s vantagens desta op????o no que se refere ??s raparigas.
Por último, uma equipa da Universidade de Sevilha (Manuel S??nchez Franco, F??lix Martin Delicia e Francisco Villarejo Ramos) apresenta uma investiga????o emp??rica sobre o uso da Internet pelos professores, segundo o sexo, e aprecia as principais raz??es porque as professoras a utilizam menos que os seus colegas masculinos.

