O Processo de Bolonha: A marca do modelo universit??rio dos EUA
Reforma da licenciatura (grau)
Os graus, que o processo de Bolonha estabelece t??m uma correspond??ncia g??mea no outro lado do Atl??ntico nos undergraduate studies ou anos de college: são os tr??s ou quatro anos de formação b??sica e geral nas diferentes disciplinas universit??rias que, ao serem imitados na Europa, acabariam por enterrar as tradicionais licenciaturas de cinco anos. Esta redu????o resulta suspeita para muitos, como explica Nubiola: "Do que se trata ?? de igualar por baixo os ensinamentos de licenciatura das universidades europeias para que cheguem a ter uns conteúdos e um nível similar - realmente baixo - aos estudos norte-americanos conducentes ?? gradua????o".
Nas reac????es dos professores (e não tanto nas declara????es mais ou menos justificadas dos alunos) advinha-se um efeito colateral derivado desse baixo nível dos graus: certos cursos considerados mais profissionais (Medicina, Arquitectura, Engenharias) tentam esquivar-se ?? aplica????o de Bolonha. Com efeito, decanos e professores desses cursos temem que na passagem de licenciaturas a graus fiquem pelo caminho o nível exigente e tradicional do seu plano de estudos.
Com efeito, com a reforma de grau, tal como adverte Nubiola, haver?? mais mudanças, e que são as que estão subjacentes nas queixas de muitos: "A reforma das licenciaturas para ajust??-las ao esquema de Bolonha significa a diminui????o total do número de horas de aulas no grau e, em consequência, a diminui????o dos docentes, da sua qualifica????o acad??mica e da sua remunera????o global. Ningu??m se atreve a dizer isto", ainda que seja algo patente para os Departamentos que j?? estão "a ajustar" as suas licenciaturas aos graus.
Explica também o Prof. Nubiola: "Enquanto não se perceber que o importante da universidade norte-americana não são os anos de college, mas os estudos de p??s-gradua????o não se estar?? em condições de imitar o modelo norte-americano".
A transformação da p??s-gradua????o (mestrado)
De facto, o que diferencia as melhores universidades dos EUA não ?? a configura????o dos seus graus mas a qualidade e amplitude das suas p??s-gradua????es (graduate studies) e o prest??gio que têm os seus doutorandos. Para o primeiro, Bolonha promove a implanta????o dos estudos de mestrado em substitui????o dos tradicionais cursos de doutoramento. Para o segundo, em princ??pio, incrementar-se-?? o número de bolsas e a sua quantia e melhorar-se-??o as condições laborais dos doutorandos.
Os estudos de mestrado, a nova p??s-gradua????o, durar??o dois anos e completar??o a formação do grau. A terceira etapa na traject??ria do estudante universit??rio ?? aceder ao doutoramento e culminar a redac????o da investiga????o do doutoramento, algo que - obviamente - s?? uns poucos realizar??o, numa propor????o que seria similar ?? dos doutorandos actuais.
Importa compreender que este último processo não ?? autom??tico: todos os doutorandos ter??o cursado algum dos mestrados que, a partir de agora, oferecer??o as Universidades, mas nem todos os que fazem esses mestrados acabar??o por redigir a tese. ??Porqu??? Porque ?? novidade do reconhecimento estatal do título de Mestre (que até agora, como ?? sabido, era algo fundamentalmente privado) se junta o facto de que na p??s-gradua????o segundo Bolonha cabem dois tipos de mestrado, como explica Nubiola:
"J?? no decreto do ano de 2005 e em Espanha se previam dois tipos muito distintos de mestrado que figuram também na mais recente legisla????o de 2007: um, o mestrado especializado - como o das escolas de negócios - que leva a una prepara????o profissional num campo determinado; outro, um mestrado dirigido a "promover a inicia????o em tarefas de investiga????o". ?? este segundo tipo de mestrado onde se joga - pelo menos assim me parece - o futuro da excel??ncia da investiga????o da universidade espanhola".
Mudan??a de mentalidade
Uma precis??o de relevo, aplic??vel tanto ao mestrado como ao doutoramento, ?? que para as grandes universidades públicas o processo de adapta????o a Bolonha necessariamente levar?? consigo uma política muito mais activa e eficiente na hora de atrair os melhores estudantes -futuros investigadores e de lhes oferecer recursos adequados (inclu??dos os económicos, porque o preço dos novos mestrados ?? superior ao dos antigos cursos de doutoramento).
Não h?? que esquecer, como explica Nubiola, que "enquanto os tradicionais cursos de doutoramento podiam dar-se com um número escasso de alunos, não tem sentido - mais ainda, resulta invi??vel - um programa de estudos de mestrado sem um número substancial de estudantes, j?? que esta modalidade de estudos requer uma ampla dedica????o dos professores e dos alunos". Portanto, se um programa de mestrado tem t??o poucos alunos como os antigos cursos de doutoramento, a m??dio prazo terminar?? por resultar gravoso para os cofres universit??rios e, possivelmente, questionar-se-?? a sua manuten????o no plano de estudos.
O repto da investiga????o (doutoramento)
As universidades que efectivamente se propuserem situar-se na vanguarda da investiga????o dever??o oferecer ambiciosos programas de mestrado e, para o passo seguinte, dispor de prestigiados professores que estejam em condições de motivar os seus alunos para a redac????o de teses de doutoramento de qualidade. E isto tanto em ci??ncias como em humanidades e ci??ncias sociais.
Alguns t??m sublinhado que o Processo de Bolonha trata de imitar o modelo universit??rio dos EUA mas sem o dinheiro que as melhores universidades norte-americanas dedicam ?? investiga????o. Parece uma cr??tica razoável, porque a questão económica ?? muito relevante. Nessa mesma linha explica Nubiola: "Os legisladores espanh??is parecem não saber que o per??odo normalmente requerido para completar o doutoramento nos EUA ?? de uns 7 ou 8 anos com dedica????o completa ?? universidade (...). Neste tempo incluem-se os dois anos formativos do mestrado, e não se pode pensar que estes estudantes de p??s-gradua????o dependam economicamente das suas famílias ou possam financiar-se com outros trabalhos. Trata-se realmente de pessoal investigador em formação".
Daqui que a aposta na investiga????o universit??ria que implica Bolonha deva ir acompanhada de ajudas reais aos doutorandos. Previsivelmente as universidades poupar??o recursos económicos e de professores ao reduzir as licenciaturas a graus: se de verdade apostam em investir em investiga????o, o destino desses recursos deveria ser, como prop??e Nubiola, os mestrados de investiga????o e os doutoramentos. Neste ajuste or??amental as grandes universidades públicas mostrar??o o seu apreço pela investiga????o.
Imita????o da universidade norte-americana?
Feito o elogio do modelo universit??rio norte-americano, conv??m situar o mito no seu lugar: nos EUA h?? mais de 4.000 universidades e s?? umas 200 ocupam essas posi????es de ponta a que costumam referir-se os analistas. Muitas outras não estão na vanguarda da investiga????o cient??fica, nem produzem teses de doutoramento de elevado nível: o seu papel, não menos merit??rio, radica em oferecer uma adequada formação generalista nos diferentes graus.
Nubiola sugere que possivelmente em Espanha se caminhe para um modelo similar, em que se reflicta essa distribuição de fun????es. A diversidade manifestar-se-?? na oferta de mestrados e doutoramentos de algumas Facultades e Departamentos: nem todos poder??o ser igualmente competitivos, pelo que necessitar??o de se especializar, algo que j?? se come??a a ver em Espanha.
"Não est?? longe o momento em que encontraremos em Espanha com umas poucas - muito poucas - superuniversidades, equipar??veis a essas excelentes universidades norte-americanas, enquanto que a maioria se assemelhar?? mais ??s universidades estatais daquele pa??s que têm uma important??ssima fun????o docente no nível de estudos de grau, mas que - com honrosas excepções em alguns centros em particular - são de todo irrelevantes para o desenvolvimento cient??fico internacional".
Fonte: Nueva Revista, Dezembro de 2008

