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Processo de Bolonha: A Universidade face ?? procura

 Educação Diferenciada
Processo de Bolonha: A Universidade face ?? procura

A universidade deve modernizar-se para se adaptar aos novos desafios que a sociedade coloca e para oferecer aos estudantes a formação e os recursos que lhes exigir?? o mercado. O consenso que uniu as distintas inst??ncias políticas e educativas para iniciar o processo de Bolonha em toda a Europa partia do triunfo do pragmatismo: necessidade de a universidade dever ser uma aprendizagem para a vida laboral. Para tr??s ficaria a universidade clássica e ideal, que persegue a busca da verdade, a formação em h??bitos intelectuais e a transferência do conhecimento de professores a alunos.

 

Miss??o da Universidade

 

No entanto, surgem vozes que questionam o pragmatismo do axioma inicial. O Prof. Ant??nio Alvar, Catedr??tico de Filologia Cl??ssica da Universidade de Alcal??, p??-lo ?? evid??ncia numa entrevista recente (Suplemento Aula, El Mundo, 25-3-2009): "a obriga????o da universidade não ?? formar profissionais, porque as profiss??es variam com os anos, mas gente capacitada para resolver problemas abstractos e com h??bitos de trabalho intelectual (...). A ideia que agora se pretende vender ?? de que a universidade deve dar resposta ?? procura da sociedade, tomando como refer??ncia o que procuram os empregadores, como se essa fosse a única sociedade existente. No entanto, também h?? na sociedade uma procura não atendida de conhecimento".

 

Que a universidade estava necessitada de uma mudança parecia ??bvio. No entanto, quando nos aproximamos da implanta????o, em Setembro próximo, dos primeiros curso dos novos graus acad??micos em muitas universidades espanholas, crescem as interroga????es na maior parte delas: enquanto os reitores, juntamente com os políticos, tratam de explicar que não é possível fazer marcha atr??s no processo de Bolonha, os professores duvidam sobre a viabilidade dos novos graus acad??micos e aumenta o desconcerto entre os alunos. A universidade necessitava de uma mudança, mas seria este tipo de mudança?

 

Não t??m faltado numerosas vozes que, nos meios de comunicação e na universidade, se t??m referido ??s grandes vantagens de implementar o processo de Bolonha (veja-se Aceprensa 11-12-2008 e 23-1-2009). Tamb??m o Minist??rio da Ci??ncia e Tecnologia quis divulgar as vantagens do processo de adapta????o europeia com a recente cria????o da web www.queesbolonia.es, para responder ??s inquieta????es de estudantes e professores.


D??vidas sobre graus acad??micos e p??s-gradua????es

 

Em Fevereiro passado foi tornado público um parecer detalhado da OCDE de 2008 sobre o estado do ensino superior em Espanha1. Ainda que dedique muito pouca aten????o ?? adapta????o ao processo de Bolonha, alerta com a c??lebre frase de Lampedusa que um processo de Bolonha mal conduzido seria como fingir mudar a universidade para que tudo continue na mesma. O problema ?? que, segundo alguns, nos aproximamos perigosamente da pior vers??o dessa profecia.

 

O parecer da OCDE fala (p. 134) de um sistema universit??rio excessivamente burocratizado e de uma oferta de bolsas insuficiente. Estas são as duas cr??ticas mais frequentemente feitas pelos peritos ao modo de implementar o processo de Bolonha. Na última h?? acordo geral: a implanta????o do modelo de mestrado exige a cria????o de novos recursos para ajudar os estudantes ao financiamento dos mesmos (veja-se Aceprensa 23-1-2009).

 

Mas o que mais tem assustado na consolida????o das novas p??s-gradua????es (recorde-se que Bolonha come??ou pelas p??s-gradua????es, não pelos graus acad??micos) ?? a sensa????o de falta de orienta????es s??rias na sua implementa????o. Concebidos inicialmente para durar dois anos, as autoridades acad??micas optaram pela modalidade de um s?? ano, possivelmente para que se ajustem melhor aos estudos de grau acad??mico. Era uma op????o leg??tima, mas resulta pouco congruente com o objectivo principal de todo o processo, a converg??ncia com os pa??ses europeus nossos vizinhos: muitos deles implantaram mestrados de dois anos, seguindo as principais recomenda????es europeias.

 

Quanto ?? reforma dos graus acad??micos, a situação de muitos Departamentos universit??rios nestes meses ?? de mudanças pouco amadurecidas e de um certo cepticismo ante as mesmas: chegado o momento de reformar as licenciaturas de cinco anos para criar graus acad??micos de quatro, a opera????o de ajuste das cadeiras, a implanta????o do novo calend??rio acad??mico, o corte de algumas mat??rias e a redistribuição dos professores presta-se a altera????es caprichosos e a epis??dios de lutas entre professores de um mesmo Departamento (porque raz??o se elimina uma mat??ria e não outra?), entre Departamentos e Reitoria, entre professores de umas Faculdades e de outras, etc.

 

O certo ?? que a oportunidade que o processo de Bolonha oferece est?? sendo aproveitada para realizar mudanças de certa envergadura ante a passividade (ou a surpresa) de professores e directores da comunidade universit??ria. Nos princ??pios de Mar??o, por exemplo, a Junta da Faculdade de Filologia apresentou a sua demissão em peso ante a reitoria da Universidade do Pa??s Basco pela decisão unilateral dessa reitoria de suprimir os graus com poucos alunos: sob o chap??u-de-chuva de Bolonha, fora aproveitada a conjuntura para tomar uma decisão duramente questionada até ent??o. Noutras carreiras, como Jornalismo, Direito e Pedagogia, est??o-se a realizar mudanças de certas qualifica????es que podem passar despercebidas e que mereceriam uma discuss??o mais pausada da que permitem os prazos de adapta????o.


Queixas de alunos e professores

 

Pouco sabem os estudantes destes problemas internos e da??, qui????, protestarem por motivos que parecem ter mais vantagens que inconvenientes, como ?? o caso da suposta ced??ncia da universidade ante o mundo empresarial ?? conta do mecenato e do financiamento. Não h?? tal perigo, explica o Prof. Puyol, antigo reitor da UCM e presidente de IE Universidade: "muitos defendemos uma maior sintonia entre universidades e empresas porque são m??ltiplas as ajudas que estas podem dar a instituições sempre necessitadas de financiamento" (ABC, 12-3-2009).

 

Diz-se que Bolonha ?? uma reforma pensada para favorecer os alunos e que estes ser??o os grandes beneficiados. No entanto, protestam os alunos e protestam os professores. Entre estes últimos, h?? duas cr??ticas ao processo.

 

A primeira refere-se ?? nova abordagem das aulas. A tendência pragm??tica de aumentar as aulas pr??ticas e o modo din??mico de as dar parecem lógicos se se tratar de carreiras técnicas e bio-sanit??rias; mas coloca dificuldades, por exemplo, para as disciplinas human??sticas: como se v??o fazer pr??ticas de direito romano ou literatura renascentista? Não parece prefer??vel que os alunos disponham previamente das ferramentas te??ricas? Ser??o capazes de se apetrechar com esses recursos antes de assistir ?? aula, como se sugere? Neste sentido, os professores criticam o papel paternalista que ter?? que assumir o professor com a nova reforma.

 

A segunda cr??tica do professorado tem a ver com o outro pilar da sua vincula????o com a universidade, a investiga????o. Ao contr??rio do que se poderia pensar, na pr??tica os professores dar??o mais horas de aulas (em muitas Faculdades j?? estão preparados os hor??rios do curso 2009-2010) e a crise económica pode bloquear as novas incorpora????es de professores. Ante este panorama, os docentes prev??em dificuldades para desenvolver as suas linhas de investiga????o e para dirigir os trabalhos de doutoramento dos seus melhores alunos.

 

H?? dúvidas de que o sistema garanta o ??xito na transmissão de conhecimentos. Assim o faz ver Ant??nio Alvar: "As experiências piloto dizem-nos que [o processo de Bolonha] exige muit??ssimo mais trabalho para o professor, mas os resultados acad??micos não são substancialmente melhores".


O repto das Humanidades

 

A alus??o a que as carreiras de letras não sair??o prejudicadas com a adapta????o a Bolonha converteu-se numa observa????o habitual nas declara????es de políticos e gestores do mundo universit??rio. Essa foi a mensagem, com refer??ncia expl??cita e supostamente tranquilizadora sobre as humanidades, do próprio presidente do governo ante a pergunta na televis??o de um estudante.

 

No entanto, conhecida a lógica do processo de Bolonha, com o suposto imperativo das necessidades do mercado, não faltam professores de letras a duvidar de que as humanidades saiam beneficiadas: os c??lebres ajustamentos que j?? se estão a realizar nos graus não caminham pelo caminho tranquilizador de que se falava.

 

Alejandro Llano, catedr??tico de Filosofia da Universidade de Navarra, argumenta contra Bolonha a partir daquela frase do relembrado Tom??s e Valiente: "a universidade ?? e deve continuar a ser muito tradicional, profundamente suspeita e um pouco in??til" (La Gaceta, 19-12-2008).

 

?? primeira vista, poder-se-ia pensar que certas manchetes, como a que abre o suplemento Campus do jornal El Mundo, deveriam ser um sinal de esperança para os humanistas: "O mercado acode ??s humanidades depois do debate do seu encerramento" (El Mundo, 25-3-2009)". Mas converter a formação human??stica a um remendo para cobrir a escassa bagagem cultural de certos directores de empresa não convence os que se dedicam com paix??o ?? investiga????o e ?? doc??ncia nas disciplinas de letras.

 

Não faltam vis??es mais positivas, como a de Rafael Puyol: "O des??gnio dos novos graus acad??micos de Bolonha poderia dar uma nova oportunidade a estes estudos pelo seu carácter formativo e a sua indubit??vel contribui????o ?? empregabilidade" (Bolonia y las humanidades, ABC, 14-3-2009). Nos próximos meses a reforma dos graus acad??micos clarificar?? o panorama da adapta????o a Bolonha: s?? ent??o estaremos em condições de tra??ar um novo panorama, depois da reforma, e de ponderar se os receios dos professores de letras tinham fundamento.


Alvaro Bustos

 

1. OECD, Directorate for Education: OECD Reviews of Tertiary Education. Spain, 170 pp.