Menina com duas m??es
A engenharia ginecológica e legal faz estes milagres. Podia ter sido o caso da l??sbica que acede ?? maternidade por insemina????o artificial, pr??tica que em Espanha j?? nem sequer ?? notícia. T??o-pouco teria havido problema que o seu par fosse por sua vez m??e legal desse filho, pois, em virtude de outro artefacto jur??dico, a Lei de Identidade de G??nero aprovada em 2007, as mulheres l??sbicas casadas podem ser reconhecidas no Registo Civil como m??es dos filhos in vitro do seu par, sem necessidade de adop????o.
Mas este caso ?? ainda mais dif??cil! Pela primeira vez em Espanha duas mulheres ter??o um filho numa joint venture ginecológica: uma p??e o ??vulo e a outra d?? o ??tero. O ??vulo ?? inseminado com o esperma do dador an??nimo obtido de um banco de s??men, e o embri??o resultante ?? transferido para o ??tero da outra mulher que ?? quem o gerar?? (leva oito meses) e dar?? ?? luz. Podia t??-la gerado também a que deu o ??vulo. Mas elas queriam que fosse algo realmente das duas: ??Conseguimos gerar algo muito nosso, fruto dos nossos corpos??. Bom, e do s??men an??nimo, ao que nesta reportagem se d?? menos import??ncia do que ?? roupa que se prepara para o beb??.
Mas não h?? dúvida de que para elas ?? algo ??muito seu??: a menina esperada preenche ??o seu sonho de serem m??es??, responde ao direito das l??sbicas ?? maternidade, sela o seu projecto vital... Enfim, esperemos que não sejam m??es muito possessivas.
Não deixa de surpreender que, com uma legisla????o que pro??be a gesta????o atrav??s de terceiros, se passe por alto este detalhe no caso de um par de l??sbicas. Mas a reportagem informa que a Comissão Nacional de Reprodução Assistida, órgão consultivo do Minist??rio da Sa??de, deu luz verde ?? doa????o de ??vulos em pares femininos, ??para evitar interpretações restritivas?? do direito das l??sbicas a serem m??es.
H?? que ter em conta que essas interpretações restritivas estão vigentes em toda a Europa, ?? excep????o da Holanda. Mas assim temos al??m do mais a satisfa????o de sermos pioneiros, que ?? outro modo de dizer que fazemos coisas muito estranhas que os outros não aceitam.
D?? a impress??o de que nada se pode interpor no projecto parental dos adultos, e muito menos se são l??sbicas. Mas o interesse do menino ou da menina criados entre um par de l??sbicas ??n??o sair?? prejudicado pela falta da figura do pai? Não ?? discriminado ao negar-se-lhe um pai? O assunto ?? rapidamente arrumado dizendo que, se necessita uma figura masculina, sempre ter?? um tio, um av?? ou um vizinho que v?? por casa. Porque o importante ?? o carinho e, desde logo, com duas m??es ??o carinho não lhe vai faltar??.
O resultado se ver?? com o decorrer dos anos e haveria que pergunt??-lo ?? menina quando for maior. ?? que neste tipo de reportagem o dif??cil ?? saber se o final da história respondeu a estas esperanças da imprensa do cora????o.
Ainda que ??s vezes se saiba. No passado m??s de Mar??o, o mesmo di??rio e o mesmo jornalista publicava uma entrevista com Ruben, ??o primeiro homem gr??vido??. Mas nem na Espanha de Zapatero sucedem estes prod??gios. No entanto logo se soube que se tratava de um transsexual, de 25 anos, que apesar do seu nome e do seu aspecto exterior continuava a ter o que qualquer mulher tem para engendrar um filho, no seu caso, por insemina????o. A sua companheira, Esperan??a, não podia ser m??e, assim ofereceu-se ??ele??.
Esperava g??meos cheio de alegria. Mas a az??fama de entrevistas, holofotes e palcos, não lhe fizeram bem. Segundo conta uma breve notícia no mesmo di??rio, tr??s meses mais tarde, Ruben e Esperan??a separaram-se. Tamb??m perdeu os g??meos por um aborto espont??neo. A lei ?? muito male??vel, mas a natureza não tanto. Qui???? evitou assim aos g??meos a perplexidade e a confus??o de terem nascido do ventre do seu ??pai??.
O mau destas experiências em modelos familiares ?? que se fazem directamente com crianças, e sem a possibilidade de consentimento informado. Se se tratasse de uma vacina ter??amos mais cuidado.

