Pesquisa

No casamento como nas altera????es clim??ticas

 Casamento
No casamento como nas altera????es clim??ticas

Um dos aspectos mais singulares dos estudos sobre famílias consiste no facto de todos poderem partir das mesmas informações e levarem a conclus??es extremamente opostas. Assim sendo, os estudos sobre famílias são um pouco semelhantes aos estudos sobre o clima: provavelmente, algumas das provas sofrem uma pequenina adultera????o... Por??m, as informações sobre o clima são opacas para n??s leigos e, por vezes, não temos no????o do que se passa ao nosso redor, ao passo que o que acontece com as famílias est?? mesmo ?? frente dos nossos olhos.

 

?? por este motivo que os relatórios recentemente publicados nos EUA e na Gr??-Bretanha estão basicamente de acordo no que respeita ??s tendências familiares: h?? cada vez menos pessoas a casar, em prol das uni??es de facto; consequentemente, assiste-se a uma diminui????o da taxa de div??rcio; uma em cada quatro crianças vive com uma m??e solteira - ou, por vezes, um pai; incluindo os filhos adoptivos, um número ainda maior de crianças vive sem o pai biológico (uma em tr??s nos EUA); nascem cada vez menos crina??as, sendo que na Gr??-Bretanha a taxa de natalidade se encontra abaixo de duas crianças por mulher e nos EUA ronda as 2,1. Mas isto são apenas os aspectos gerais; o panorama muda significativamente nos diferentes estratos populacionais.

 

Extremos opostos

 

No que respeita ?? questão de como deveria a sociedade responder a tais tendências, os referidos relatórios tornam-se em extremos opostos.

 

O relatório de 2009 dos EUA, The State of Our Unions, - que procura esclarecer até que ponto o dinheiro ?? um factor de sa??de do casamento - ?? desenvolvido por uma comunidade de acad??micos e de eruditos compremetidos em fortalecer o casamento como fonte de bem-estar familiar. O referido relatório ?? realizado pelo National Marriage Project, na Universidade da Virg??nia e pelo Center for Marriage, no Institute for American Values. O registo de tendências e de press??es sociais espec??ficas - neste caso, a recess??o económica - leva a uma correc????o das tendências que conduzem os casamentos ao falhan??o.

 

Porqu??? Porque o avassalador peso das provas - que corroboram o senso comum - confirma que o casamento ?? a melhor garantia de bem-estar das crianças, assim como da sa??de da sociedade.

 

O relatório do Reino Unido - Family Trends: British families since the 1950s - não leva este aspecto em consideração. Desenvolvido no National Family and Parenting Institute (FPI) - que o extremamente franco jornal brit??nico Daily Mail descreve como "uma organiza????o financiada pelo Estado e implementada pelo Partido Trabalhista para defender os pais e as crianças" - o seu objectivo consiste em defender as "famílias em todas as suas formas" e não propriamente o casamento. Por outras palavras, defende a adapta????o ao colapso da família e o apoio social para pais e filhos dentro ou fora do casamento, independentemente de viverem juntos, ou n??o.

 

Neste momento, tenho de confessar uma coisa: embora tenha lido o relatório dos EUA na ??ntegra, disponível gratuitamente, não li a totalidade do relatório brit??nico... que custa cerca de 36???. Não me pareceu um bom investimento... No entanto, li um resumo dos conteúdos do relatório, um discurso de Katherine Rake, a nova directora do FPI, proferido aquando do lan??amento do mesmo e algumas entrevistas nas quais ela expunha as suas ideias. Tendo em conta todos os coment??rios que li sobre o assunto, duvido que algum jornalista tenha lido algo mais.

 

Portanto, o que tem ela a dizer?

 

A morte da família

 

A Dr.?? Rake (uma cientista social) est?? convencida de que dentro de 20 anos não existir?? o que chamamos de "família t??pica", porque "as pessoas estão constantemente a redefinir o conceito de família"; mesmo agora, "a família nuclear tradicional... certamente não ?? a norma".

 

Posto isto, como ser??o satisfeitas as necessidades "parentais" das crianças nessa altura? Ora bem, a sociedade fornecer?? um bom número de av??s ??s crianças, podendo os tios, as tias, os primos e até os irm??os substituir, eventualmente, o pai e/ou a m??e. Este prometedor espect??culo ??, de certa forma, descartado pelo relatório brit??nico que sublinha o efeito "varapau" da baixa fertilidade e do envelhecimento: "h?? mais gerações vivas, mas com menos tios, tias, etc.". E qu??o apegados ??s crianças ser??o os pais idosos do progenitor ausente?

 

Obviamente, também caber?? ao Estado e aos seus vários agentes o enorme papel de "disponibilizar recursos para apoiar casais quando estiverem juntos ou separados". Afinal, v??o ser precisos muitos especialistas para ajudar os casais a construir "relações saud??veis" dentro e fora do casamento e para os ajudar a serem "pais eficazes" quando se separarem. Al??m disso, também ser?? necessária uma enorme quantia de dinheiro para manter os filhos em contacto com os pais que não moram na mesma casa, sendo que a maior parte deles são pobres e "n??o t??m recursos - instala????es ou dinheiro - para manter duas famílias". Neste sentido, os fundos públicos ser??o inesgot??veis.

 

Ainda assim, a Dr.?? Rake afirma que esses fundos não deveriam ser esbanjados a tentar salvar os casamentos: "os políticos t??m de evitar o erro de investir grandes somas de dinheiro a remar contra a mar??, encorajando a constitui????o de ???famílias tradicionais'".

 

O que a Dr.?? Rake e os seus colegas (o Governo Trabalhista que a apoia e todas as pessoas que pensam que podem prosperar sem se casarem) não percebem ?? que o casamento ?? uma institui????o criadora de riqueza - algo que o relatório americano enfatiza como a base da sua investiga????o, acerca de quais poder??o ser os efeitos da crise mundial.

 

?? lógico que este não ??, de todo, o valor mais importante do casamento, embora seja frequentemente negligenciado. Todavia, se lhe prestarmos mais aten????o, veremos que esclarece outros aspectos, por isso, dedicarei o resto do artigo a este ponto.

 

Combater a pobreza com um compromisso

 

Tal como o relatório dos EUA nos indica, as estat??sticas do governo americano mostram que uma família de tr??s pessoas (dois pais e uma criança) precisa de um rendimento de $18,311 dólares americanos para que seja considerada acima da linha de pobreza. Contudo, se os pais viverem em casas separadas, o rendimento total necessário para os manter fora da pobreza salta para os $25, 401 dólares americanos, o que significa que os pais ter??o de ganhar mais 39% para evitar a pobreza. Ainda assim, são os oper??rios e os pobres que estão a falhar desproporcionadamente o casamento; as pessoas com educa????o superior e com melhores rendimentos percebem o sistema económico e são as que se casam hoje em dia.

 

Ironicamente, a classe m??dia tem uma menor necessidade de se casar por motivos económicos, gra??as ao esp??rito empreendedor das mulheres. Isto levou a altera????es no significado do casamento: as pessoas procuram a sua "alma g??mea" e enfatizam o companheirismo e a compreens??o, a igualdade de rendimentos e (cada vez mais) uma divis??o equitativa das tarefas dom??sticas - tudo isto iniciado com um casamento extremamente caro.

 

Este modelo encaixa nas pessoas com educa????o superior e rendimentos elevados, embora não se aplique t??o facilmente ?? classe oper??ria e aos pobres. Por um lado, estes homens foram mais vulner??veis ??s altera????es económicas e representam 75% da taxa de desemprego desde 2007, tornando-se, assim, menos propensos ao casamento. Tamb??m ?? mais dif??cil para os que são casados de parar de exercer o papel de ganha-p??o: uma pesquisa efectuada pelo Professor Brad Wilcox, director do National Marriage Project, evidencia que, entre os casais que têm filhos em casa, os maridos que trabalham menos horas do que as respectivas esposas t??m uma probabilidade de 61% de afirmar que não são plenamente felizes no casamento, quando comparados com homens que trabalham tantas ou mais horas do que as esposas.

 

O resultado líquido destas tendências revela um aumento da taxa de div??rcio entre os casais das classes trabalhadoras (sendo esta taxa mais reduzida no topo da escala social), assintindo-se a um maior número de casamentos face ??s uni??es de facto ou aos pais/m??es que criam os filhos sozinhos.

 

Ao serviço da sociedade

 

A Dr.?? Rake e companhia não querem dizer que esta não ?? a solução; não pretendem alterar a política social, de modo a que se forne??a um especial reconhecimento e vantagens financeiras aos pais casados, tal como promete o Partido Conservador brit??nico; prefeririam, ao inv??s, esbanjar as carteiras dos contribuintes para financiar famílias arruinadas ("diversidade"). Porqu???

 

Eu acho que os políticos trabalhistas são fortemente influenciados pela estrutura social liberal acad??mica e que se limitaram a entregar-lhes a política social. E os acad??micos? No caso da Dr.?? Rake, talvez tenha algo a ver com o facto de os pais estarem divorciados e de, também ela, estar separada do marido com quem tem um filho de quatro anos. Al??m disso, ela concorda com alguns aspectos feministas que defendem um rendimento fixo e igualdade de pap??is entre homens e mulheres - provavelmente ter?? sido influenciada pelo seu último emprego na organiza????o feminista Fawcett Society. De facto, ?? dif??cil não ficar com a impress??o de que ela não est?? insteressada de todo nas "famílias" ou nas crianças, mas nas mulheres como tal.

 

Ningu??m, centrado unicamente no bem-estar das crianças - ou, de facto, na felicidade dos homens e das mulheres - poderia chegar ?? conclusão de que o casamento ?? dispens??vel. Por??m, o relatório americano recorda-nos de que j?? l?? vai algum tempo em que as nossas sociedades eram centradas nas crianças, tal como nos mostram claramente as taxas de natalidade. Se nos agarr??ssemos a esse fenómeno, ver??amos bem os problemas do casamento em geral.

 

Carolyn Moynihan (editora-adjunta do site MercatorNet)

 

Tradu????o de Isabel Costa.