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O amor como romance, um suporte fr??gil

 Casamento
De um casamento como vida a dois ?? desigualdade social
O amor como romance, um suporte fr??gil

"O casamento ?? uma institui????o maravilhosa, mas quem quer viver numa institui????o?". A pergunta de Groucho Marx sintetiza bem o sentir de uma ??poca. Foram os homens e as mulheres da sua gera????o que se lan??aram numa massiva experiência social: a reinven????o do conceito de casamento.

 

No passado, aceitava-se como um facto que o casamento era uma institui????o social pensada sobretudo para proteger os filhos. Naturalmente, os esposos experimentavam o amor como romance, mas tinham a no????o clara que o casamento não era s??, nem essencialmente, uma questão de sentimentos.

 

Contudo, a partir dos anos 60 do s??culo passado, come??ou a considerar-se o casamento como um projecto individualista, que não tinha relação com a descend??ncia, mas, principalmente, com o desfrute da satisfa????o pessoal.


A g??nese de uma ideia

 

O ideal do amor rom??ntico surgiu nos finais do s??c. XVIII como reac????o aos casamentos que algumas famílias nobres impunham aos filhos. Por vezes, eram os próprios c??njuges - de classes inferiores - que recorriam aos casamentos de conveni??ncia para melhorar a sua posi????o social.

 

Perante esta vis??o do casamento, em que predominavam as questões económicas e sociais, o romantismo conseguiu acertadamente recordar - como o tinha feito s??culos antes o cristianismo - que o casamento devia estar ligado ao amor, ao respeito mútuo e ?? igualdade.

 

Mas, no s??culo XX, o ideal do amor como romance adquiriu um novo significado. A partir da revolução sexual dos anos 70, foi usado como bandeira para questionar a própria institui????o do casamento.

 

Pensadores como Sartre, Marcuse ou Wilhelm Reich apresentaram o casamento como uma "pris??o do amor", incompat??vel com o desejo e a liberdade individual. A esse novo conceito juntou-se também o boom da p??lula, que tornou possível separar as relações sexuais da procria????o; o casamento, da descend??ncia.

 

As mudanças culturais e ideológicas dos anos 70 reflectiram-se rapidamente na ??rea do direito. Uma vez liberalizado o div??rcio, d??-se um processo de "des-juridifica????o" do casamento. Com isto, alargou-se a ideia que o matrim??nio ?? uma simples relação afectiva entre dois adultos.

 

Amor sem compromissos

 

Na vida a dois, ?? o amor rom??ntico que legitima a relação. E também a sua ruptura, quando o entusiasmo desaparece

 

Anthony Giddens ?? um dos autores que mais analisaram esta vis??o do casamento. O sociólogo brit??nico deu forma a algo que, de certo modo, j?? estava a acontecer na sociedade: "a total separa????o entre apaixonamento, como sentimento de atrac????o por outra pessoa, e compromisso moral e jur??dico de fidelidade a essa pessoa" (1)

 

Ligada a esse aspecto, est?? a ideia de que o casamento, mais do que uma institui????o com caracter??sticas próprias, ?? uma realidade d??ctil, que a vontade humana pode manipular a seu gosto. Os c??njuges são livres de dar forma ?? sua união e de estabelecer o tipo de v??nculo que quiserem.

 

Como explica Ulrich Beck, na nova vers??o do amor rom??ntico não h?? normas externas ao casal. "Tudo se apresenta em forma de ???eu': a verdade, o direito, a moral, a salva????o, o al??m e a autenticidade. Este amor moderno tem o seu fundamento em si mesmo, portanto nos indiv??duos que o vivem" (2).

 

Contrato de conviv??ncia

 

Nesse pressuposto, alguns autores aceitam como um facto que o casamento ?? um simples contrato de conviv??ncia. "A vida a dois - escreve J??lio Caraba??a - ?? um fim em si; existe apenas para os c??njuges. (...) Não ?? uma sociedade da qual resultam outros v??nculos sociais; ??, antes, um modo de conviv??ncia, que se esgota em si mesmo" (3).

 

O conceito de casamento estende-se, assim, ??s pessoas que procuram um "compromisso de apoio mútuo", mas não desejam a formação de novos seres humanos no seu seio. Segundo este conceito, a vida familiar deve girar em torno do casal, raz??o pela qual negam qualquer v??nculo entre casamento e descend??ncia, assim como a distin????o entre hetero e homossexualidade.

 

Esta foi a lógica que permitiu equiparar as uni??es homossexuais ao casamento. Se o casamento não ?? mais que a relação afectiva entre dois adultos, e essa relação não est?? intrinsecamente relacionada com a paternidade, por que não se h??-de permitir aos casais do mesmo sexo que se casem?


Expectativas crescentes e descontentamento

 

Supunha-se que esta nova vers??o do amor rom??ntico - que agora se identifica com o casamento facilmente dissol??vel - iria proporcionar maior satisfa????o pessoal, mas o certo ?? que apenas conseguiu aumentar as taxas de div??rcios. Este ?? o paradoxo que apresenta a historiadora norte-americana Stephanie Coontz (4), pouco suspeita de conservadorismo.

 

Em sua opinião, "as origens do div??rcio moderno encontram-se na eleva????o do casamento a centro da lealdade emocional e sexual das pessoas e na sua redefini????o como fonte de felicidade pessoal".

 

Paradoxalmente, "os mesmos valores que conferiram ao casamento esse significado emocional na vida das pessoas, também as levaram a pedir o div??rcio se o seu casamento estava ou se mantinha desprovido de tal significado".

 

At?? ?? segunda metade do s??culo XX, ningu??m pensava que desapaixonar-se ou apaixonar-se por uma pessoa, que não fosse o c??njuge, pudesse ser uma boa raz??o para se divorciar. No entanto, foi-se instalando a ideia de que o casamento pouco satisfat??rio podia romper-se.

 

Para isso contribuíram as revistas femininas dos anos 50 e 60, que "alimentaram um ???discurso de descontentamento', ao promoverem a intimidade e a auto-realiza????o como objectivo do casamento. Quanto mais liam estas mulheres sobre o que tinha de ser o casamento, maior consciência ganhavam algumas delas das falhas dos seus próprios casamentos".

 

Por volta de 1957, a taxa de div??rcio come??ou a subir nos Estados Unidos e noutros pa??ses ocidentais. " De facto, quase um em cada tr??s casais norte-americanos, que tinha casado nos anos 50, acabava divorciado"

 

A fase mais cr??tica da evolução do div??rcio moderno chegou nos anos 70 e 80, como consequência, segundo Coontz, de tr??s factores: as crescentes expectativas de realiza????o pessoal dentro do casamento; a liberaliza????o das atitudes sociais; e a emancipa????o jur??dica e económica da mulher.

 

A combina????o destes tr??s factores fez com que as pessoas suportassem pior um casamento pouco apaixonado, e conduziu a uma maior procura de div??rcio. O que legitima a relação ?? o amor-romance. E também a sua ruptura, quando desaparece o entusiasmo.


Div??rcios arbitr??rios

 

A taxa de div??rcios entre os casais com estudos superiores caiu 30% desde 1980, enquanto que a de casais com estudos inferiores subiu 6%

 

O sociólogo norte-americano W. Bradfod Wilcox também relacionou o novo ideal do amor rom??ntico com o auge do div??rcio moderno, num artigo que despertou muito interesse nos ambientes acad??micos dos Estados Unidos (5). Mas Wilcox d?? mais um passo, ao identificar os pobres como os grandes perdedores da revolução social dos anos 70.

 

Wilcox come??a por sintetizar diversas investigações que mostram os danos do div??rcio nos filhos. Concretamente, os filhos de pais divorciados t??m "duas ou tr??s vezes mais riscos de sofrerem de patologias sociais ou psicológicas do que os filhos de pais que continuam casados".

 

Aqueles que criticam este tipo de estudos costumam alegar que não faz sentido comparar os filhos de pais divorciados com os filhos de famílias unidas, j?? que ?? o conflito que normalmente antecede o div??rcio - e não o próprio div??rcio - o que traumatiza os filhos.

 

Wilcox aceita que este argumento seja v??lido quando os filhos estiverem expostos a elevados níveis de conflito (por exemplo, se houver violência dom??stica ou se os pais gritarem continuamente). Mas o certo ?? que dois ter??os dos div??rcios que ocorrem nos Estados Unidos não correspondem a situações conflituosas.

 

Segundo mostram os estudos que utiliza, são precisamente estes div??rcios os que mais danos causam aos filhos: "Quando os filhos v??em que os pais se divorciam pela simples raz??o de que se distanciaram (...), a confian??a das crianças no amor, no compromisso e no casamento, costuma despeda??ar-se.

 

Ora bem: quando Wilcox estuda a consequências do div??rcio nos adultos, os resultados são mais amb??guos. A psicóloga Mavis Hetherington constata que 20% dos adultos divorciados afirmam que as suas vidas melhoraram; e outros 50% não parecem sofrer efeitos negativos a longo prazo.

 

Certamente, haveria que contrastar o estudo de Hetherington com outros estudos representativos, que mostram que as pessoas casadas s??o, em geral, mais felizes, desfrutam de melhor sa??de e gozam de maior segurança económica que os solteiros, as uni??es de facto ou os divorciados (6).

 

Al??m disso, como recorda Wilcox, h?? que ter em conta o sofrimento que produz nos adultos a sensa????o de um div??rcio arbitr??rio. "Um div??rcio injusto pode levar a uma quebra emocional, dificuldades no trabalho e uma deteriora????o s??ria na qualidade das relações com os filhos".


Os pobres perdem mais


Os pobres são os grandes perdedores da revolução sexual dos anos 60

 

Chegados a este ponto, Wilcox apresenta a hip??tese principal do seu artigo: a substitui????o do modelo institucional do casamento por outro, baseado apenas na afinidade do casal, contribuiu para que aqueles que têm menos recursos - emocionais, sociais e económicos - estejam mais expostos ao fracasso da sua união e, portanto, encarem o casamento como uma institui????o pouco atractiva.

 

Para demonstrar essa hip??tese, Wilcox fixa-se em tr??s factores: a taxa de div??rcios, o grau de satisfa????o dos c??njuges com o seu casamento e o número de nascimentos fora do casamento.

 

Em relação ao primeiro, as últimas estat??sticas revelam que a taxa de div??rcios entre os c??njuges com estudos superiores caiu 30%, desde os princ??pios dos anos 80 do s??culo passado, enquanto a dos casais de estudos inferiores subiu 6% nesse mesmo per??odo.

 

A diferente percepção da felicidade matrimonial entre ambos os grupos também ?? eloquente. Na presente década, 70% das pessoas casadas, com estudos superiores, declaravam-se nas entrevistas "muito felizes" no seu casamento. Pelo contr??rio, esta percentagem desce para os 56% entre os que têm estudos inferiores.

 

Por último, ?? significativo o número de nascimentos extra-matrimoniais. Segundo o estudo Child Trends de 2007, apenas 7% das m??es com estudos superiores tinham dado ?? luz fora do matrim??nio, em compara????o com 50% das m??es com estudos inferiores.

 

Perante estes dados, Wilcox conclui que, ao redefinir-se o conceito de casamento em termos exclusivamente de romance, os grandes perdedores foram as pessoas de baixos recursos. Pelo contr??rio, os que têm um nível alto de estudos estão agora a voltar ao modelo institucional de casamento.

 

Por outras palavras, a progressiva desinstitucionaliza????o do casamento - que, a certa altura, se defendeu como um processo para "democratizar o amor" - não s?? não alargou a igualdade de oportunidades, como abriu uma nova frente na ruptura entre ricos e pobres: a desigualdade matrimonial.

 

Juan Meseguer Velasco

 

NOTAS

 

(1) Jes??s Ballesteros, "Las concepciones de la familia en las Terceras V??as", in Jos?? P??rez Ad??n (ed.), Las Terceras V??as, Ediciones Internacionales Universitarias, Madrid, 2001, pp. 249-268.

 

(2) Ulrich Beck e Elisabeth Beck-Gernsheim, El normal caos del amor. Las nuevas formas de la relaci??n amorosa, Paid??s, Barcelona, 1998, p. 236.

 

(3) Julio Caraba??a, "La separaci??n del matrimonio y la descendencia", Claves de Raz??n Pr??ctica, n??m. 154, julio/agosto 2005, p. 41.

 

(4) Stephanie Coontz, "La paradoja del matrimonio por amor y el divorcio moderno", Panorama Social, n??m. 10, segundo semestre 2009, Fundaci??n de las Cajas de Ahorro, pp. 153-162.

 

(5) W. Bradford Wilcox, "The Evolution of Divorce", National Affairs, n??m. 1, oto??o 2009, pp. 81-94.

 

(6) Linda J. Waite e Maggie Gallagher, The Case for Marriage, Doubleday, Nova York, 2000. Ver resumo em Aceprensa, 23-05-2001. Ver também Why Marriage Matters. Twenty-One Conclusions from the Social Sciences, Center of the American Experiment; Coalition for Marriage, Family and Couples Education; Institute for American Values, Nova York, 2002. Ver resumo em Aceprensa, 17-07-2002, na vers??o impressa.