Ent??o e os adultos?
No fundo, esta objec????o encerra uma suspeita mais profunda: "Mesmo pondo de lado as conclus??es das ci??ncias sociais, existe de facto algum argumento racional para defender que o modelo institucional do casamento traz felicidade aos adultos?"
"Se não conseguimos encontrar uma raz??o que mostre por que raz??o o casamento ?? objectivamente bom para os adultos e não apenas para as crianças, teremos que nos conformar com evasivas do tipo ???casem-se e permane??am juntos por amor dos filhos', numa altura em que a cultura actual nos pergunta: ???Casar-se, para qu??'?".
Para construir o seu argumento, Lapp analisa as diferenças entre o modelo institucional do casamento e o modelo de casamento baseado unicamente na afinidade do casal.
"A institui????o ???casamento' faz o que uma simples relação privada não consegue nunca fazer: cria expectativas de compromisso; recorda aos c??njuges que o seu amor se estende até ?? gera????o seguinte e que, para bem ou para mal, tem influência no resto da sociedade".
"Entendido deste modo, o casamento não se resume a um acordo entre dois adultos ?? procura da satisfa????o emocional que lhes advir?? do apoio mútuo; ?? um estado que cria direitos e obriga????es".
E onde se encaixa o amor, no meio de tudo isto? Teremos que procurar a resposta na promessa que os esposos se fazem mutuamente: "Eu, F., recebo-te por esposo / esposa, e prometo ser-te fiel e amar-te e honrar-te, tanto na prosperidade como na prova????o, por toda a nossa vida".
"Nesta fórmula, afirma Lapp, soube a tradi????o jur??dica ocidental reconhecer o verdadeiro bem do casamento: uma união para apoio mútuo. Por outras palavras, o casamento ?? amizade".
O modelo institucional do casamento aspira a realizar a melhor forma de amizade entre homem e mulher
Mas não uma amizade qualquer. Ao contr??rio do modelo de vida a dois, o modelo institucional aspira a realizar o que Arist??teles chamava "o melhor tipo de amizade".
O fil??sofo grego distinguia tr??s tipos de amizade: ???amizade por prazer', ???amizade por interesse' e ???amizade por virtude'. Esta última ?? a mais elevada, pois nela os amigos conservam-se unidos pela virtude. Nas outras formas de amizade, por seu lado, prevalecem o sentimento de agrado ou a conveni??ncia pessoal. Tais amizades não costumam durar muito.
Convite a viver como pessoas boas
Para Lapp, o casamento ?? o paradigma da aut??ntica amizade. "Cada um dos esposos converte-se num bem para o outro. Como ?? natural, este tipo de amizade s?? ?? possível entre pessoas virtuosas. Da?? que o casamento seja um convite a que os casados se convertam em pessoas boas".
"S?? um homem bom consegue permanecer fiel ?? mulher quando se sentir sexualmente atra??do por outra. E s?? uma mulher boa se ir?? manter ao lado do marido no meio da doença ou da pobreza. Ambos se v??o deste modo tornando bons e participando dos bens do casamento. ?? por isso que a institui????o 'casamento' traz sempre impl??cita a luta por algum ideal".
Tal como Arist??teles, Lapp liga esta forma mais elevada de amizade ?? felicidade humana. Ningu??m quereria trocar esta união por um suced??neo, e nisto reside o atractivo do modelo institucional do casamento.
Não basta, por isso - pensa ele -, mostrar aos jovens os efeitos positivos que este compromisso traz para a sociedade. "O melhor ant??doto contra a amizade descafeinada proposta pelo modelo ???vida a dois' ?? a promo????o de um entendimento mais profundo da amizade".
"Para os adultos ?? procura de amor, o modelo institucional do casamento dificilmente se poder?? encarar como uma condena????o ?? escravid??o. ?? antes um convite a serem bons".

