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Vamos mudar o foco da obesidade

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Vamos mudar o foco da obesidade

O presidente Obama até pode desejar nunca ter despoletado o tortuoso debate acerca das reformas nos cuidados de sa??de, mas parece que a sua mulher encontrou uma questão insinuante: no passado dia 9 de Fevereiro, Michelle Obama lan??ou, na Casa Branca, o programa Let's Move! e ningu??m se oporia a uma iniciativa dedicada a um dos mais preocupantes problemas de sa??de da actualidade.

 

O tema da obesidade est?? constantemente na ordem do dia: ?? extremamente dif??cil ver televis??o, ler um jornal, uma revista ou uma p??gina da Internet sem nos depararmos com um cabe??alho sobre obesidade, com uma história de interesse humano ou com um daqueles an??ncios ub??quos sobre conselhos de emagrecimento.

 

Al??m disso, o que era um fenómeno do mundo ocidental, est?? a ganhar propor????es globais. Um artigo recentemente publicado na primeira p??gina da revista Reader's Digest (edi????o canadiana) afirma, segundo declara????es da Organiza????o Mundial de Sa??de, que o mundo chegou a um perturbador "ponto de viragem": pela primeira vez na Hist??ria, h?? mais pessoas a morrer por comerem excessivamente do que por inani????o.

 

O problema da obesidade infantil aumenta o estado de alerta de todos os pais - e não s??... Na sociedade vigora um devido sentido de urg??ncia e de protecção em relação aos jovens - excepto, por qualquer motivo obscuro, no estado pr??-natal de vida; mas essa inc??gnita fica para outra altura. O facto ?? que as nossas crianças estão a ficar mais gordas: a taxa de obesidade infantil, nos Estados Unidos, triplicou entre 1980 e 1999, contabilizando uns alarmantes 10% de beb??s obesos. Inúmeros estudos investigaram as causas deste problema e possíveis solu????es.

 

A Primeira-Dama tem algumas boas ideias: p??r as crianças a mexerem-se, cortar com a comida de pl??stico e incentiv??-las a comer alimentos frescos e nutritivos - no ano passado, plantou uma horta, na Casa Branca, com a ajuda de alguns jovens. Michelle Obama até falou em "incitar as famílias e as comunidades" para o movimento Let's Move, sendo que esta última se trata de uma iniciativa-chave: acima de tudo, as crianças t??m excesso de peso, porque os adultos que cuidam delas t??m, eles mesmos, excesso de peso e/ou não se sentem motivados para alterar a sua situação. Esta problem??tica tem uma dupla dimens??o - moral e parental - que tem sido virtualmente ignorada pelos políticos e pelos media.

 

Ironicamente, na altura em que o presidente Obama assinava a ordem executiva que implantava a task-force do movimento Let's Move, foi publicado um importante estudo que mostra que o que os pais fazem em casa ?? cr??tico na preven????o da obesidade. Os investigadores da Universidade Estatal de Ohio descobriram que as crianças de quatro anos que jantavam com os pais e com os irm??os, que dormiam o tempo adequado e que viam televis??o apenas durante o tempo necessário tinham uma probabilidade de menos 40% de serem obesas do que as crianças que viviam em famílias menos disciplinadas. E quem seriam os responsáveis por tais rotinas? Os pais! A mam?? e o pap??.

 

Infelizmente, os "pais" parecem não ter sido destacados para o lan??amento da Casa Branca. O relatório que li, declarava: "Na ter??a-feira, a Primeira Dama, Michelle Obama, come??ou a trabalhar com atletas, lavradores, m??dicos e com os media para enfrentar a "epidemia" da obesidade infantil...". O mesmo tipo de lapso encara as várias discuss??es acerca da obesidade infantil como campanhas contra o Big Mac ou como apelos a favor de impostos severos em todos os refrigerantes e snacks. A obesidade não se deve aos cheeseburgers, ?? televis??o, aos jogos de v??deo, ao a????car no leite achocolatado ou ??s máquinas de venda de doces nas escolas. ??, antes, consequência das escolhas de comportamentos tomadas por seres humanos. Na maioria, a obesidade ?? provocada por uma s??rie de escolhas pobres dos pais: regra geral, pais em boa forma f??sica, saud??veis, activos e preocupados não educam crianças passivas e morbidamente obesas.

 

Se ?? necessária uma task force fundada pelo Governo - algumas pessoas estariam desejosas em debater este aspecto -, esta deveria dirigir-se aos pais em primeiro lugar. Seria um programa que levasse o papel parental a s??rio e que devolvesse ?? m??e e ao pai a responsabilidade que lhes foi retirada em décadas de interven????es escolares e propaganda dos media. Mas não ser?? f??cil para os grupos sociais mais afectados. Por algum motivo, as elevadas taxas de div??rcio e a nossa leviandade acerca dos pais solteiros resultaram em grandes números de pais que trabalham em condições prec??rias ou que vivem dependentes dos subs??dios do Estado e que acham extremamente dif??cil fazer frente ??s exigências di??rias de educa????o de uma criança.

 

O Dr. Mark Tremblay, que participou num recente estudo canadiano acerca da obesidade, sugere que a falta de iniciativas governamentais não ?? o problema e afirma que "as instala????es e os programas estão l??, n??s fornecemo-los, constru??mo-los e ainda assim as pessoas não aparecem. Uma grande percentagem da popula????o simplesmente não quer saber". A questão ??: porqu???

 

Atr??s da epidemia da obesidade existe um problema muito maior de pais desmotivados, muitos dos quais também t??m excesso de peso. Este ?? o verdadeiro desafio de Michelle Obama. Ela e a sua task force fariam toda a diferença se conseguissem persuadir nem que fosse uma pequena frac????o de pais a desafiarem os seus estilos de vida e a adoptarem apenas tr??s rotinas com os seus filhos pequenos: jantar em família, sono adequado e TV racionada. Sem pais cumpridores e motivados, o objectivo ambicioso - e louv??vel! - da primeira-dama de erradicar a obesidade infantil em apenas uma gera????o ser?? apenas um desejo.

 

Mariette Ulrich ?? colunista, escritora freelancer e bloguista canadiana.


Tradu????o de Isabel Costa.