A minha filha est?? insuport??vel
O psicólogo e m??dico de família Leonard Sax, presidente da Associa????o Nacional para o ensino diferenciado por sexos dos Estados Unidos (NASSPE), tornou-se famoso ao mostrar os efeitos positivos que resultam de um m??todo educativo adaptado a cada sexo.
A ideia b??sica que Sax defende ?? que a educa????o diferenciada melhora os resultados acad??micos e a socializa????o, e diminui a violência na aula. As suas conclus??es correspondem a dados cient??ficos e experimentais que tem exposto nos seus livros. Assim, Sax mostra como o cérebro do rapaz e da rapariga se desenvolvem de maneira distinta; a diferente forma que têm de aprender na sua etapa escolar; o seu modo variado de ver os acontecimentos do mundo...
Estes resultados foram expostos num dos seus livros mais conhecidos: Why Gender Matters?
Depois escreveu outro livro centrado nas dificuldades que defrontam os rapazes na sociedade actual: Boys Adrift (1). E agora acaba de publicar nos Estados Unidos Girls on the Edge (2), onde analisa os quatro problemas que, no seu entender, afectam mais as raparigas.Eles e elas t??m dificuldades, claro, mas não são as mesmas para uns e outras. "Cada vez h?? mais rapazes que estão a adoptar um comportamento indolente que os leva a gozar sozinhos: videojogos, pornografia, comer, dormir... ?? frequente faltar-lhes est??mulo e motiva????o para saltar da cama e triunfar no mundo real".
Pelo contr??rio ??s raparigas, sobra est??mulo e motiva????o. O seu problema ?? que "n??o sabem como relaxar nem como divertir-se e gozar a vida. Para muitas delas, cada sucesso ?? s?? um passo interm??dio para o seguinte".
M??e, estou sexy?
Em Girls on the Edge, Sax argumenta que as raparigas de hoje estão submetidas a quatro factores de risco. Logicamente, estes quatro factores não afectam a todas por igual. Depende muito do carácter de cada uma, da educa????o que receberam ou do ambiente em que vivem.
O primeiro factor de risco ?? a confus??o em torno da identidade sexual: "As raparigas querem p??r-se sexy cada vez mais cedo. E isso não ?? uma boa notícia", diz Sax. Enquanto a maneira de vestir dos rapazes não tem variado muito nas últimas décadas, a mudança entre as raparigas dos 9 aos 11 anos tem sido brutal: tops com tirinhas, cal??as justas, mini-saias...
Este empenho por vestir-se como se tivessem uma "agenda sexual" produz efeitos prejudiciais na sua identidade. Como explica Stephen Hinshaw, professor de psicologia em Berkeley, "se as raparigas pretendem ter atrac????o sexual antes de tempo, encontram-se com s??rias dificuldades para interagir com os próprios sentimentos".
A Sax não interessa a dec??ncia porque sim. Na sua opinião, trata-se de um problema antropológico de maior envergadura. "As raparigas actuais são bombardeadas com a ideia de que têm de mostrar o seu corpo para se auto-realizarem, ou inclusivamente como uma manifesta????o do ???poder das raparigas'. Como pais, temos que ajud??-las a rejeitar esta ideia. Os rapazes não precisam de tirar a roupa para demonstrar que têm poder. As raparigas também n??o".
"A sexualidade - acrescenta Sax - ?? um campo muito saud??vel do ser humano e da chegada ?? idade adulta. Mas a sexualiza????o sup??e converter-se num objecto de prazer para os outros; ?? estar exposto aos outros. A sexualidade tem que ver com quem se ??. A sexualiza????o com o que se aparenta".
Segundo Sax, esta banaliza????o da sexualidade favoreceu - juntamente com outros factores - que um número consider??vel de raparigas se sintam confusas a respeito da sua identidade sexual. Numa sondagem realizada a mais de 20.000 adolescentes e jovens dos Estados Unidos, 14,4 % das raparigas inquiridas declara-se l??sbica ou bissexual, em compara????o com 5,6 % dos rapazes que se identifica como gay ou bissexual (3).
Sem o meu telem??vel, n??o
O segundo factor de risco para as raparigas ?? o que Sax chama a "bolha digital", esse mundo paralelo feito de SMS, correios electr??nicos e redes sociais. Não ?? novidade nenhuma que as novas tecnologias podem "seduzir" até criar uma depend??ncia. O surpreendente ?? o fosso que h?? entre rapazes e raparigas neste assunto.No seu livro, Sax faz eco de um estudo recente publicado pelo Pew Research Center. Uma das conclus??es mais relevantes ?? que enquanto uma adolescente dos Estados Unidos pode mandar umas 80 mensagens escritas por dia (atrav??s do telem??vel ou do correio electr??nico), um adolescente envia 30 por dia (4).
Ao problema dos SMS compulsivos temos de acrescentar o tempo que lhes gasta - e a tens??o que gera - a "cria????o" da sua própria imagem nas redes sociais. "As raparigas sabem que se querem que o seu perfil seja visitado, precisam de estar a p??r fotografias novas continuamente. As fotos divertidas t??m sucesso, mas o maior sucesso ?? o das fotos sexys".
Enquanto estas raparigas permanecem hiper-relacionadas com as suas amigas - diz Sax - cada vez estão mais alheadas de si mesmas. O rem??dio não est?? em cortar a liga????o ?? Internet ou tirar-lhes o telem??vel, mas sim em ensinar-lhes a usar com modera????o as novas tecnologias. Em algumas ocasi??es, isto exigir?? aos pais um esfor??o para se actualizarem: quando aprenderem a movimentar-se na "bolha digital", poder??o evitar que a sua filha fique presa nela.
Quando for mais velha, quero ser top model!
"Nunca como agora existiu uma cultura que ofere??a tantas oportunidades ??s raparigas; no entanto, faltam-lhes critérios orientadores"
O terceiro factor de risco são as obsess??es. "Nunca como agora - escreve Sax - existiu uma cultura que ofere??a tantas oportunidades ??s raparigas; no entanto, faltam-lhes critérios orientadores. Em consequência, muitas centram a sua aten????o numa única actividade ou numa s?? parcela da sua vida: ser a melhor aluna, ser estrela num desporto, ser a mais magra..."
Sax recomenda aos pais que estejam prevenidos contra este tipo de obsess??es. é preciso que aprendam a discernir "se o interesse da sua filha pelo desporto, as boas notas ou a sa??de ?? sadio ou destrutivo".
Para ilustrar isto conta o caso de Madison, uma rapariga de 9 anos que sonhava tornar-se numa brilhante top model dos Estados Unidos. E o certo ?? que entre os 9 e os 13 anos, Madison era uma j??ia de rapariga. E ela sabia-o.
Mas com o tempo apareceu o acne. Os pais de Madison disseram-lhe que não se preocupasse porque, mais cedo ou mais tarde acabaria por passar como o sarampo. Mas ela insistia em ir ao dermatologista. O tratamento não resultou, ou pelo menos como Madison desejava.
E apareceram os problemas de peso. Entre os 13 e os 14 anos, Madison engordou 13 quilos. "J?? não era aquela bonequinha esbelta e de pele sedosa. Mas ent??o, quem era? Não sabia. Acabou com uma depress??o clínica. E os seus pais trouxeram-na ?? minha consulta", recorda Sax.
Sax come??ou a trat??-la com medicamentos. Depois de vários acertos, Madison melhorou o seu carácter e também perdeu peso. Mas Sax deu-se conta da sua ansiedade. Ela pedia doses mais fortes. Isso foi-lhe negado redondamente.
Madison - conclui Sax - avaliava-se a si mesma em fun????o da sua apar??ncia. Estava disposta a engolir o que quer que fosse para emagrecer e ter uma pele sedosa. Mas se não conseguia, deixava de saber quem era".
Aqui Sax torna-se poeta e recorre a um poema de Rainer Maria Rilke: "Mergulha no teu interior e descobre qu??o fundo ?? o lugar onde a tua vida brilha". Para Sax, esta ?? uma das tarefas fundamentais dos pais de hoje: ensinar as suas filhas a descobrir quem s??o. Algo que não depende do aspecto f??sico, das m??sicas guardadas no seu iPod ou do número de amigos que se tem no Facebook.
"Se a sua filha aprende a desenvolver uma identidade própria fundada em ra??zes profundas, acabar?? por se tornar uma mulher resistente e com auto-estima. A idade não ?? o factor mais importante. Conheci algumas raparigas de 11 e 12 anos que conseguiram atingir esse sentimento de segurança e o mantiveram durante toda a adolesc??ncia e mesmo depois. E também conhe??o muitas mulheres adultas que nunca o conseguiram".
Piropos que não ajudam
O quarto factor são as "toxinas ambientais" que se encontram nos cremes, nas lo????es, nos alimentos e nas bebidas que as raparigas tomam. Neste capítulo, Sax tenta demonstrar hip??teses verdadeiramente curiosas.
Defende, por exemplo, que as garrafas fabricadas com tereftalato de polietileno podem afectar - em determinadas circunst??ncias - o metabolismo das raparigas ao ponto de as fazer parecer mais velhas do que s??o.
Se noutros estudos se ocupou das consequências fisiológicas que têm este tipo de perturba????es, aqui fixa-se sobretudo nas emocionais. "Quando Oliv??a tinha 11 anos, costumava passar por uma adolescente de 15 ou até de 17 anos. Nas suas idas aos centros comerciais, os rapazes costumavam assobiar ou dizer piropos".
"Podia ser que o seu corpo tivesse a apar??ncia de uma rapariga de 15, mas ela tinha a maturidade emocional de uma menina de 11 porque era isso que ela era. Muitas das raparigas que aparentam ter 15 anos não estão preparadas para se adaptar ?? admira????o que despertam quando v??o a um centro comercial ou ?? praia".
Cada rapariga ?? um mundo
Chegados a este ponto, uma pessoa podia sentir-se tentada a fechar a filha num quarto vazio e sem janelas. Assim, certamente estaria a salvo de influências externas. Mas essa não ?? a solução recomendada por Sax. No seu entender, o que funciona melhor ?? que os pais conhe??am muito bem as filhas e as ajudem a cultivar o esp??rito, o corpo e alma de acordo com as suas caracter??sticas especiais.
"A paternidade ?? uma arte, não uma ci??ncia. Ainda que possamos aprender com a experiência de raparigas alegres e equilibradas, as estratégias concretas que serviram para essas meninas podem não servir para a sua filha".
Afortunadamente, nem todas as raparigas de hoje estão expostas a todos os riscos descritos por Sax. "Algumas resolvem os seus problemas bastante bem. S??o segura de si mesmas, mas não são narcisistas. S??o en??rgicas, mas não se centram em si mesmas. Sabem quem s??o, porque conhecem os seus pontos fortes e fracos. E são felizes sendo como s??o". Mas ent??o, porque h?? outras raparigas que passam t??o mal? "O ??xito não ?? questão de acaso. Os pais marcam a diferença. Infelizmente, alguns pais não poder??o fazer muito pelas suas filhas - ainda que tenham a melhor inten????o do mundo - enquanto não tomarem conhecimento do que se passa com elas".
"Tamb??m h?? pais que tentam resolver os problemas do s??culo XXI com solu????es dos anos 80. E isso não funciona. A sociedade actual gerou uma s??rie de desafios ??s raparigas que h?? 30 anos não existiam".
Aceprensa
Notas
1. Leonard Sax, Boys Adrift: The Five Factors Driving the Growing Epidemic of Unmotivated Young Men. Basic Books, Nova Iorque, 2007.
2. Leonard Sax, Girls on the Edge: The Four Factors Driving the New Crisis for Girls - Sexual Identity, the Cyberbubble, Obsessions, Environmental Toxins. Basic Books, Nova Iorque, 2010.
3. Ritch Savin-Williams y Geoffrey L. Ream, "Prevalence and stability of sexual orientation components during adolescence and young adulthood", Archives of Sexual Behavior, vol. 36, 2007, pp. 385-394.
4. Amanda Lenhart, Teens , Cell Phones and Texting, Pew Internet & American Life Project, 20 de Abril de 2010.

